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Não somos guerreiras, nos tornamos guerreiras!

Publicado em: 20/03/2021

Nossas guerras são diferentes, mas nem por isso menos importantes. Admiro mulheres jovens e mulheres perto dos 80 anos, que lutam batalhas escolhidas ou não

Inspirada na dissertação de mestrado de uma amiga, fiquei pensando nesta questão da “mulher guerreira”. Ah essas nomeações! Já questionava Shakespeare no famoso romance Romeo&Julieta: “What is in a name?” ou em português “O que há em um nome?”. Acredito que há um mundo inteiro em um nome, há intenções, não intenções, dizeres e silêncios. Assim como Hilary Janks, linguista Sul- Africana, nos diz que os textos são posicionados e nos posicionam, eu entendo que as nomeações são posicionadas e nos posicionam.
 
Há quem diga que, sou uma mulher “guerreira”. Lembro que uma grande amiga há alguns anos me perguntou: “Você não acha que é difícil para seu marido conviver com uma mulher tão forte?” E eu fiquei assim, tipo...Sério? Forte? Eu? Na verdade só dei conta do que veio para mim, das “guerras” que me interpelaram, nunca me entendi como forte ou guerreia, penso que isso seria compromisso demais. Apesar de ser microempresária no Brasil, mãe de três filhos e dona de casa, eu morro de medo de aranhas, adoro posts fofos de animais, choro até em propaganda de creme dental e me acabo em prantos cada vez que vou falar sobre algo pessoal. Mesmo assim, as pessoas me dizem: "Você é uma mulher guerreira", com frequência. 

Nossas guerras são diferentes, mas nem por isso menos importantes. Admiro mulheres jovens e mulheres perto dos 80 anos, que lutam batalhas escolhidas ou não. Admiro mulheres pós-doutorandas em assuntos que nem me atrevo a entender e admiro mulheres que acabaram de aprender a escrever. Admiro mulheres que se relacionam com homens, mulheres que se relacionam com mulheres ou mulheres que se relacionam com homens e mulheres. Eu admiro mulheres que são empresárias e mulheres que são garis. Admiro mulheres que participam de trocentas lives, e admiro mulheres cujo ponto alto do dia é assistir a novela. Admiro mulheres que estão apenas tentando sobreviver a próxima hora. Nenhuma dessas mulheres é fraca. 

Ser guerreira, analogamente e na maioria dos contextos, não é uma opção. Mulheres, assim como homens em sua maioria, não escolhem suas guerras, as guerras chegam até nós, nos interpelam. Parafraseando a grande filósofa Simone Beauvoire, acredito que não nascemos guerreiras, nos tornamos guerreiras! Simplesmente não é o caso de ser guerreira ou não. Nossas vivências são mais complexas que isso. O potencial de guerra de cada pessoa é muito particular. É uma “assemblage” de experiências, oportunidades, escolhas, acessibilidades, obrigações, seja o que for que cada uma de nós encara no dia a dia. É claro que é lisongeiro pensar em SER guerreira. Isso me remete às maravilhosas Amazonas gregas e me sinto grande! Adoro!  Tão bom e tão contraditório quanto uma boa taça de vinho, a questão é a medida e o propósito.  Precisamos interpretar as intenções, por isso precisamos refletir sobre as nomeações. Interpreto que, quando me dizem: "Você é uma mulher guerreira!", o que querem dizer é: "Reconheço todas as dificuldades que você passou e te admiro por isso!”. Mas em outras tantas vezes no silêncio do não dito, ouço: "Estou te rotulando como uma guerreira porque precisamos de menos mimimi, porque o que importa em nossa sociedade é o fim e não os meios, vou te colocar na caixinha dos exemplos. Você é uma mulher guerreira! Ao invés da fragilidade, você é ambiguidade passível de admiração!”

Quando a guerra vem até mim, eu não sou guerreira, me torno uma guerreira e posso afirmar que perdi tantas ou mais batalhas do que venci, a difernença é que tive suporte e vivências suficientemente privilegiadas para escolher a maioria das minhas batalhas. Encobrir as complexidades de uma mulher pode construí-la ou destruí-la. Há a mulher que parece covarde, mas já lidou com horrores que nem imaginamos. Há a mulher que nunca conta sua história dolorosa porque escolheu o silêncio. Existe a mulher que nem sabe mais quem é, porque passa os dias cuidando dos outros. Tem mulheres que aturam comportamentos abusivos, porque se tivessem a coragem de uma “guerreira” para partir ou para lutar colocariam os seus em risco. Não nomeamos essas mulheres como "guerreiras" porque não conhecemos suas batalhas. Elas não mostram seus “atributos de guerra”, por isso não são admiráveis dentro dessa perspectiva. Não somos mulheres guerreiras ou mulheres covardes. Nossas vivências são muito mais profundas do que estes rótulos. 

Guerreiras, não é algo que somos, é algo que nos tornamos - ou não - de acordo com as nomeações de nossas vivências, mas principalmente de acordo com designações de nossa sociedade patriarcal e meritocrática. Além disso, mulher guerreira não é um estado permanente, por mais medalhas que você receba, se fraquejar...Perdeu playboy! Você vira mulherzinha, outra nomeação que rende muita reflexão. A pororoca que a nomeação “mulher guerreira” gera quando encontra a condição "Não dou mais conta!” é de proporção explosiva.  Nos nomear como “mulher guerreira” de certa forma também exime quem te nomeou de, cuidar de você ou considerar seus sentimentos. E muitas vezes tudo que precisamos é um abraço, é ser cuidada. Porque mais do que guerreiras, somos humanas!

A nomeação "mulher guerreira" é muitas vezes elogio e outras tantas elogio travestido de intenções, ela nos coloca em um pedestal. Se você é guerreira, ninguém precisa se preocupar com você, você “dá conta” sozinha.  Ei, é muito difícil dar conta sozinha! Precisamos de nossos amigos, de nossos filhos, de nossos companheiros, precisamos umas das outras! Mais do que possamos imaginar. 
 

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