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Quebrei o porquinho! Obrigada moça! Deu pra hoje!

Publicado em: 20/04/2021

Cheguei à conclusão de que somos mesmo o país do jeitinho. Como indivíduos de pequenas ações somos muito empáticos, mas como coletividade efetiva, somos um grande fracasso 

"Constituem objetivos fundamentais da República Federativa do Brasil: III - erradicar a pobreza e a marginalização e reduzir as desigualdades sociais e regionais." Art. 3º da Constituição Federal do Brasil.

Contraditório é o mínimo que se pode dizer sobre este artigo da constituição nos tempos bizarros que vivenciamos em nosso país. Semana passada, depois de passar por tantas pessoas pedindo dinheiro nos sinais, - sempre houveram pedintes no sinal, mas tenho a impressão que esse número triplicou nos últimos meses- surtei, xinguei o governo, os políticos e até a terceira geração de suas famílias com os piores palavrões. 

Depois de catarticamente botar a raiva pra fora, eu ainda queria fazer alguma coisa além de doar comida, doar dinheiro para ONGS, queria agir naquele momento. Dentro da minha pequenez, cheguei em casa e "quebrei o porquinho" - temos um cofrinho de moedas, que juntamos aqui em casa durante um período de tempo e depois a gente usa para fazer algo legal em família - e separei as moedas do cofrinho em vários montinhos de R$ 5,00, coloquei tudo em uma sacolinha e saímos de carro distribuindo. 

Estávamos recebendo muitos agradecimentos e desejos de bençãos, que nos fizeram sentir muito bem, até o momento em que uma senhora estendeu a mão, pegou o rolinho de moedas e agradeceu dizendo:  - "Obrigada moça, deu pra hoje!". Confesso que foi como levar um tapa na cara, a raiva toda voltou, e eu comecei a chorar dentro do carro pensando no amanhã. Pensei no amanhã daquela senhora e no amanhã de todos os que estão em situação de grande vulnerabilidade.

Cheguei à conclusão - e me corrijam se eu estiver errada – de que somos mesmo o país do jeitinho. Como indivíduos de pequenas ações somos muito empáticos, doamos dinheiro, doamos comida, apoiamos entidades, fundações, fundamos ONGS - muitas com trabalhos fantásticos e significativos - a gente faz o que pode e como dá para fazer, mas como coletividade efetiva, somos um grande fracasso. Aprendemos a agir contra a febre, amenizando sintomas, somos especialistas em “quebrar o porquinho”. 

Nos acostumamos a remedar as coisas, nos acostumamos a ouvir que a seca no nordeste, os apagões de energia, os deslizamentos de terra, que matam muitos brasileiros todos os anos, são, digamos assim “normais”, pois na verdade preferimos ver as notícias nas telas, ficar impressionados, comentar nas redes sociais e seguir com nossas vidas, afinal...até doamos comida para os sem-teto na semana passada.

O fato é que estamos atingindo um limite muito perigoso e fico aqui me perguntando, quanto tempo nós - como sociedade civil -  ainda levaremos para exigir que grande parte de nossos políticos e instituições governamentais, parem de agir como criminosos e passem a trabalhar para o povo e para o país? Por quanto tempo ainda ficaremos quebrando porquinhos?
 

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1 COMENTÁRIO(S)

Artigo muito bom. Toca a alma. Faz repensar nossas atitudes como povo. Erramos e falhamos como nação... Será que um dia ajustaremos o leme?
comentado por Carlos Guedes em 25/04/2021
Gosto de acreditar que sim, gosto de esperançar à moda Paulo Freire! E sei amigo Carlos, pelas suas ações, que você também é deste time: "⁠É preciso ter esperança, mas ter esperança do verbo esperançar; porque tem gente que tem esperança do verbo esperar. E esperança do verbo esperar não é esperança, é espera. Esperançar é se levantar, esperançar é ir atrás, esperançar é construir, esperançar é não desistir! Esperançar é levar adiante, esperançar é juntar-se com outros para fazer de outro modo…" Paulo Freire
comentado por Revista Aldeia em 26/04/2021
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