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Eu mereço! Mereço mesmo?

Publicado em: 17/06/2021

A falácia da meritocracia. O que quero refletir aqui é que precisamos levar em conta que não saímos todos do mesmo ponto de partida, saímos de pontos diferentes

Quando o escritor britânico Michael Young, no final da década de 50, cunhou o termo meritocracia em seu livro “The rise of meritocracy”, falando de uma sociedade distópica, como uma sátira política, nem de longe poderia imaginar que a palavra seria usada de maneira não pejorativa. 

A questão é que o capitalismo e a burguesia acabaram apropriando-se do termo e usando este, para dissimular e acobertar a natureza das desigualdades sociais e discriminações, ou seja, criou-se uma ideia sedutora de que, se você se esforçar muito, você sempre irá ascender socialmente, e aqueles que não conseguem esse mérito é porque são preguiçosos ou porque não se esforçaram suficiente, não são merecedores.

Essa perspectiva meritocrática acaba nos passando uma crença de que os bilionários possuem seus jatinhos e latifúndios apenas porque se esforçaram. Agora eu pergunto, e aquela pessoa que acorda às 5 horas da manhã, pega um trem e um ônibus para chegar ao trabalho todos os dias, seja ele servindo mesas, limpando casas, empresas, ou sendo assistente de algum executivo, será que essa pessoa não tem um helicóptero ou um latifúndio simplesmente porque é preguiçosa ou burra? 

Outra perguntinha. Será que temos tão poucos negros ou mulheres em altos cargos corporativos e políticos porque são todos pouco esforçados ou burros? Diz aí. Qual é a possibilidade de eu ou você, comprarmos um latifúndio, apenas com a força de nosso trabalho? Ah, mas tem a Mega Sena né...verdade, se tivermos muita, muita, muita sorte associada a força de nosso trabalho, talvez a gente chegue lá. E os filhos do Bill Gates? Qual é a chance de eles comprarem um latifúndio, um time de futebol ou até mesmo um parque temático?

Depois destas provocações, o que quero refletir aqui é que precisamos levar em conta que não saímos todos do mesmo ponto de partida, saímos de pontos diferentes. Esse é um dos grandes motivos pelos quais a meritocracia é uma falácia, quer dizer, se você nasceu homem, branco em uma família rica nos E.U.A., com certeza terá muito mais chances do que uma mulher, negra que nasceu em uma família pobre de uma comunidade no Brasil.

Então a meritocracia é ruim e devemos voltar aos tempos da aristocracia onde só os nobres tinham qualquer chance de qualquer coisa? Claro que não, se olharmos algo ruim pela perspectiva de algo pior, é claro que sempre vamos preferir a “menos pior”. Se você me perguntar se eu prefiro sofrer um acidente e morrer ou ter uma perna amputada, é óbvio que vou preferir ter a perna amputada. 

Então do ponto de vista do nepotismo, conexões familiares e privilégios aristocráticos, a meritocracia até parece uma ideia bonitinha, mas ela é apenas a “menos pior”. Ela também é um mecanismo que permite a manutenção do status quo. A ideologia da meritocracia disfarça riquezas indecentes em merecimento, a desigualdade social em superioridade pessoal. Valida os bilionários e poderosos a entenderem-se como gênios esforçados e merecedores. Por outro lado, para quem não “chega lá”, para os perdedores, justifica-se que por serem burros, preguiçosos, são defeituosos e por isso merecem estar onde estão. A cultura da meritocracia é também tóxica, porque ela cria uma crença de somos ou vencedores ou perdedores. Por isso, o debate social para equidade é tão importante, mas neste caso não é a única variável.

Para que sejamos vistos pela sociedade meritocrática como vencedores, existem ainda algumas outras variáveis, como talento e sorte, as quais são muito difíceis de controlar ou esforçar-se para ter. Por exemplo, por mais que eu me esforce e pague os melhores professores de música do mundo, eu nunca vou ser uma Mozart, ou melhor, talvez se Mozart tivesse nascido em nosso tempo, ele não fizesse tanto sucesso, pois o gosto musical da maioria hoje está muito longe dos hits de Mozart.

Ah tá, então se esforço não resolve, dinheiro também não, se a sorte e talento contam muito também, então vou sentar, relaxar e deixar nas mãos de Deus. O que tiver que ser será! Não é exatamente assim, a partir do momento que eu entendo o que acontece no mundo ao meu redor e como essas “crenças” são construídas, a luta não fica mais fácil, mas certamente o fato de não nos entendermos mais como perdedores e nos sentirmos culpados por isso ajuda bastante.

No meu caso, não tenho latifúndios ou jatinhos, mas nunca foi sobre isso, sempre lutei pelo bem estar e por uma vida digna para mim e para minha família, boa educação, plano de saúde, esses detalhezinhos que deveriam estar inclusos no pacote de impostos que pagamos, mas esse é assunto para outra coluna. 

E apesar de ser mulher, filha de ex-colonos- uma artesã e um serralheiro com pouca escolarização - sei que já saí alguns passos na frente nesta vida, pois só o fato de ter uma família amorosa e que sempre me incentivou a estudar, já me colocou no caminho pelo qual consegui realizar a maioria de meus sonhos. Mesmo tendo me esforçado muito, eu tive muitas pessoas que me ajudaram ao longo do caminho e uma pitada de sorte a meu favor. 
Assim queridos leitores, mesmo que Deus ajude quem cedo madruga, que tal madrugar na pele de uma mulher negra e pobre, em um barraco de um cômodo com mais cinco irmãos em uma favela? Será que basta ‘madrugar cedo’ e tudo vai dar certo? E se entre esforço, equidade social, talento e sorte, lhe restar apenas esforço?



 

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1 COMENTÁRIO(S)

Querida Daisy, meritocracia existe num simples processo seletivo para qualquer função dentro de uma empresa. Mesmo quando a disputa se restringe apenas àqueles que saíram do mesmo ponto de partida. No meu entender, o problema maior está em ser feliz. A recepcionista que vibra com a conquista de um emprego provavelmente estará mais realizada do que uma pessoa que almeja ser bilionário e ainda é apenas rico. De uma certa forma, existe meritocracia até mesmo na escolha dos amores de nossas vidas. Por que João e não Manoel? Por que Maria e não Josefina? Eu enxergo a meritocracia de uma maneira bem ampla e realista. Se o seu objetivo for garantir três refeições por dia para sua família e você conseguir, você será uma pessoa realizada. Concordo muito quando você diz que a meritocracia não pode ser usada para comparar desiguais. Mas acho que a igualdade deve ser balizada pelos objetivos e não pelo ponto de partida e nem pelas conquistas. O que te faz feliz?
comentado por Sérgio Arruda em 22/06/2021
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