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Educação

Daisy Cristina Olerich Cecatto
Empresária, psicopedagoga e mestranda na FFLCH-USP

Esse tal Paulo Freire

Publicado em: 28/09/2021
Um Mestre centenário vivo em práticas e corações!
 
Durante minha trajetória coordenado equipes na área de educação, posso dizer que vivi muitas experiências fantásticas, outras bastante difíceis, algumas engraçadas e outras tantas instigantes. Lembro de uma ocasião em que eu entrevistava professores para trabalhar comigo. Sempre iniciava a entrevista perguntando sobre a concepção de educação do professor(a), sobre como ele(a) acredita que acontece a relação ensino-aprendizado.

Neste dia em específico, uma das candidatas me respondeu: “- Não sei bem o que dizer, mas vou seguir “guia do professor” e todas as instruções da escola. E ela me devolveu a pergunta: “- E vocês aqui, como vocês trabalham o ensino-aprendizado?” E eu respondi que tínhamos uma concepção bastante freireana de trabalho na escola.

E qual não foi minha surpresa, quando ela me disse que até tinha visto um pouco desse tal de Paulo Freire na faculdade, mas que não pensava que ele tinha alguma coisa a ver com ensinar inglês ou espanhol. 

Foi quando percebi o quanto sou apaixonada e o quanto Paulo Freire sempre norteou minhas práticas dentro e fora de sala de aula.  Respondi a ela que a concepção freireana de ensino é maior do que o como ensinar um conteúdo. Freire nos ensina que devemos falar com o aluno e não para o aluno, entendendo que todo sujeito tem a contribuir e que o professor não é o único detentor do conhecimento.

Nas palavras do educador “Ninguém ignora tudo. Ninguém sabe tudo. Todos nós sabemos alguma coisa. Todos nós ignoramos alguma coisa. Por isso aprendemos sempre”. Reconhecer o saber do aluno, faz com que ele sinta que pertence àquele ambiente e que os novos conhecimentos podem pertencer a ele também. E essa concepção aplica-se não só à educação formal, como também à educação informal, ela transcende os muros do colégio e pode ser aplicada no ambiente de trabalho e em família.

Freire dedicou grande parte de seu trabalho, para nos chamar atenção para a questão de leitura de mundo, não apenas sobre a importante questão da alfabetização, não apenas da leitura das letras, mas sim para a leitura do onde, do como, do quando e do porquê essas letras estão escritas, ou seja, quais são as mensagens e possíveis interpretações que cada um de nós pode ter a partir do que vemos e do que lemos.

Este grande pensador brasileiro aclamado e reconhecido no mundo todo, nos provoca primeiramente a refletir sobre a não neutralidade no ensino.
Ele trabalha fortemente a necessidade de educarmos as pessoas para além da habilidade mecânica do ler e escrever.  

Seu legado nos convoca a educar pessoas para refletirem sobre o que nos é ensinado, sobre o que vemos e ouvimos nos noticiários, sobre o mundo à nossa volta e hoje mais do que nunca esse pensamento é muito atual e relevante.

Em um mundo cada vez mais digital, alimentado por fake news e algoritmos de redes sociais que tratam seus usuários como marionetes, a única maneira de agirmos e esperançarmos para a transformação, é ensinar as pessoas de todas as idades, analfabetas ou letradas a ler criticamente e refletir, não só sobre a palavra escrita, mas sobre as imagens, as notícias, os comerciais... estejam estes no meio analógico ou digital.

Obrigada, querido mestre Paulo Freire, por nos ensinar que precisamos esperançar agindo, teorizando a prática e praticando a teoria. Viva Paulo Freire!
 

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