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Fora da Oca

Rosí Czepula Meassi
É publicitária e jornalista.

Coragem, procura-se

Publicado em: 24/09/2019
O motor voltou a funcionar, que alívio. O motorista fez um gesto de agradecimento ao pedestre e cada um seguiu o seu caminho, inclusive eu.

Os primeiros raios de sol já davam o ar da graça. A manhã estava começando e vinha acompanhada do costumeiro movimento frenético nas ruas e calçadas. Eu estava esperando o sinal abrir para atravessar a rua quando me deparei com uma cena, inusitada. Em meio aos demais carros apressados que subiam a rua aproveitando o sinal verde, um deles parou e lentamente começou a descer de ré, indo de encontro aos outros carros que buzinavam e desviavam como dava. 

Fiquei estática esperando a batida, que me parecia ser inevitável. Do outro lado da rua, também esperando para atravessar, estavam outras pessoas e dentre elas um homem jovem que correu para o meio da via, levantou a mão para conter os outros carros, deu uma ordem ao motorista do carro enguiçado, correu para trás dele e começou a empurrá-lo.

O motor voltou a funcionar, que alívio. O motorista fez um gesto de agradecimento ao pedestre e cada um seguiu o seu caminho, inclusive eu. Apesar da rapidez da cena, eu percebi que o carro era muito antigo e estava bem carregado, e que o homem que o empurrou era bastante jovem. O carro poderia ter batido nos demais, o homem poderia ter sido atropelado, mas não. Tudo deu certo. 

Já tem algum tempo que isso aconteceu, mas sempre me lembro da cena e dos seus desconhecidos protagonistas. O que poderia ter resultado em mais um acidente de trânsito, pra mim foi uma lição de coragem e empatia, uma verdadeira injeção de ânimo e de esperança pra começar o dia. É bem provável que o rapaz que ajudou ao motorista em apuros, não tenha pensado e muito menos calculado os riscos. Ele simplesmente agiu. 

Talvez se não pensássemos na política da boa vizinhança, nas convenções, nos temidos julgamentos e nas possíveis consequências, nós agiríamos com mais humanidade e teríamos coragem para meter a colher naquela briga de marido e mulher que pode acabar em tragédia a qualquer momento. Teríamos coragem para denunciar chefes que assediam seus subordinados, moral e sexualmente. Coragem para tentar abrir os olhos de famílias que negligenciam suas crianças e seus idosos.

Teríamos coragem também para denunciar ou tentar conter os constantes maus tratos à natureza e aos animais. Mas não agimos porque é mais fácil e cômodo não se envolver. No frigir dos ovos, nos falta coragem.

Ao longo da nossa vida, na maioria das situações, nós temos muito mais que o pouquíssimo tempo do sinal de um semáforo para tomar uma atitude. Mesmo assim, não o fazemos. Muitas vezes, como no caso do carro enguiçado, apenas um empurrãozinho muda tudo, pra melhor.

 

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