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Empreguem-me, por favor

Publicado em: 13/02/2020

Eu garanto que no meu currículo não há nada que desabone a minha conduta, que sempre foi impecável. E as minhas referências são as melhores. Não sou diplomata, mas tenho o poder de evitar guerras

Nesses primeiros meses de 2020, estou aqui para fazer um apelo: eu preciso que me empreguem. Entra ano, sai ano e eu sou cada vez menos empregado. Não precisa ser empresa, pode ser pessoa física, jurídica, criança, idoso. Toda e qualquer pessoa, letrada ou não, pode me empregar, basta querer. Eu garanto que no meu currículo não há nada que desabone a minha conduta, que sempre foi impecável. E as minhas referências são as melhores. Não sou diplomata, mas tenho o poder de evitar guerras. Não sou bombeiro, mas sou capaz de evitar pequenos e grandes incêndios. 

Não sou a pomba branca, mas sou mensageiro da paz. Não sou santo, mas sou capaz de operar verdadeiros milagres. Não sou cupido, mas consigo dar menos trabalho à Maria da Penha. Não sou nenhum remédio poderoso, mas consigo evitar muita dor de cabeça. Mas, pra não me alongar na conversa, posso afirmar que as pessoas que me empregam nunca se arrependem. Nunca mesmo. 

E digo mais: nesse mundo louco no qual estamos vivendo, eu sou cada vez mais necessário. Veja só: já há algum tempo, a humanidade está vivendo em uma espécie de cenário interativo que muda o tempo todo. São verdades absolutas que caem por terra e deixam todos sem chão. A inteligência artificial sai da ficção, conquista ou sequestra as pessoas, e elas não lembram mais de como era a rotina sem essa tecnologia. E nem querem lembrar. 

E como na vida tudo é ao vivo e sem tempo para ensaios, não é possível parar pra se adaptar a essas mudanças. Todos vivem em constante pressão, bastando uma palavra meio atravessada para virar uma briga. E é aí que está o grande desafio de hoje em dia: a convivência. As pessoas quase não se falam mais e quando se falam quase não se entendem. Mas, se elas me empregassem, eu garanto que tudo seria mais ameno. 

Deixa eu me apresentar. Eu sou o Eufemismo e pertenço à tradicional família das figuras de linguagem. Meu nome é meio esquisito, é verdade, mas o significado dele é tudo de bom.   A origem da palavra “eufemismo” revela sua funcionalidade: do grego eu = agradável, bom, e pheme = palavra. Formou-se euphémein, que significa “pronunciar palavras agradáveis”. Bom, eu nasci para deixar os discursos mais leves, a vida mais harmônica e as pessoas menos estressadas por causa de um verbo ou de um adjetivo mal escolhido. E ao contrário do que muita gente diz por aí, eu não conto mentiras, apenas suavizo o impacto da verdade. Até porque ser sincero é muito diferente de ser grosseiro.

Então, na sua próxima conversa ou discussão, em casa, no trânsito ou no trabalho, lembre-se, por favor, de me empregar. Seja qual for o assunto, não use palavras rudes. E depois você me conta o resultado. Combinado?

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