Colunas

O encontro

Publicado em: 18/04/2020

Ironia ou não, em tempos em que a espécie humana está cada vez mais individualista, fomos obrigados a conviver 24 horas por dia, durante vários dias, com as pessoas que dividem o teto conosco, muitas delas desconhecidas para nós

Quase sempre é assim. Quando as famílias ficam juntas é algo muito superficial que gira mais em torno do cardápio, quase sempre fracionado: cada um faz um prato na sua casa e depois tudo é agregado na grande mesa dos, cada vez mais raros, Natais em família e dos mais raros ainda, almoços de domingo. É esse o padrão de comportamento da maioria das famílias contemporâneas. Se em dias de festa e em fins de semana é assim, o que dizer do dia a dia? Hoje, as famílias, salvo exceções, são compostas por pessoas egocêntricas que não dividem muito mais que o teto e algumas despesas. Mas nem sempre foi assim. 

Quando tudo começou, as famílias eram formadas por pessoas apaixonadas e interessadas umas nas outras. Com o passar do tempo, mesmo compartilhando a mesma moradia, acabaram se afastando. Não importa se moram em dois ou em mais, todos saem cedo e voltam, na maioria dos casos ou das casas, somente à noite. E quando chegam, cada um vai para o seu mundo, dorme e no dia seguinte começa tudo de novo. E a justificativa é unânime: não temos tempo, estamos ocupados, estamos sempre correndo.

Esse cenário se manteve assim, durante anos e anos. Até que um dia, atônitos, todos receberam a ordem de que não poderiam sair de casa por um determinado espaço de tempo. Era um caso de vida ou morte, pois, lá fora, um terrível inimigo estava à espreita, pronto para atacar. O inimigo: um vírus made  in China, invisível e altamente contagioso, cujo único antídoto de que se tinha notícia era o isolamento social.
Ironia ou não, em tempos em que a espécie humana está cada vez mais individualista, fomos obrigados a conviver 24 horas por dia, durante vários dias, com as pessoas que dividem o teto conosco, muitas delas desconhecidas para nós. Por um lado, é assustador, é cárcere privado, é perda do direito de ir e vir. Por outro lado, uma experiência fantástica, por alguns nunca vivida. 

Graças a essa convivência, nós estamos aprendendo algumas lições que escola nenhuma foi ou é capaz de ensinar, como: respeito, tolerância, cuidado, doação e, por que não, amor. Faz muito tempo que não havia um encontro de família assim, tão intenso. Uma oportunidade ímpar de conhecer e ser conhecido, de se colocar no lugar do outro, de repensar, de olhar também para dentro de si mesmo, sem maquiagem, sem pudor, sem convenções.

Se eu sei o fim dessa história? Não, pois ela ainda não acabou. O que se sabe é que aqueles que sobreviverem ao vírus e à falta do convívio social criarão anticorpos e sairão muito mais fortes como pessoas e talvez um pouco mais humanos.


 

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