Colunas

O condomínio, a obra e a pandemia

Publicado em: 19/08/2020

De repente, um barulho ensurdecedor tomou conta de todos os ouvidos. O chão, literalmente, tremeu e a tela do computador também. A cabeça, nem preciso falar. Seria um terremoto, labirintite ou só a imaginação de quem está, há meses, confinado, trabalhando em casa?

Sons de carros passando na rua, passarinhos cantarolando nas árvores e alguns latidos na vizinhança. Parecia ser mais um dia normal. Só que não. De repente, um barulho ensurdecedor tomou conta de todos os ouvidos. O chão, literalmente, tremeu e a tela do computador também. A cabeça, nem preciso falar. Seria um terremoto, labirintite ou só a imaginação de quem está, há meses, confinado, trabalhando em casa? Em poucos segundos, mil possibilidades. Somado a isso, uma nuvem de poeira vermelha escondeu a paisagem e um forte cheiro de combustível misturado com naftalina também tomou conta de tudo. 

Movimentação no grupo de WhatsApp do bloco e gente passando mal. Ainda bem que os vizinhos são como família e estão sempre prontos a acudir, não importa a hora. E, nesse meio tempo, muita coisa aconteceu. Polly bateu asas e voou. No outro piso, a fome não encontrou a vontade de comer porque a marmita se perdeu entre os apartamentos. Enquanto todos buscavam saber o que estava acontecendo, veio um alento. Nas escadarias, foram encontrados versos lindos do Renato Teixeira: “É preciso amor pra poder pulsar, é preciso paz pra poder sorrir...” Eles estavam em uma porta do segundo andar. No andar de cima, os gatinhos da casa dormiam e ronronavam na almofada, ao lado da humana que tentava cumprir a pauta do dia.

De repente veio a explicação: todo aquele alvoroço não era nada de mais, era só a escavação e a frenética retirada da terra da obra do terreno ao lado. Máquinas perfurando o solo, fila de caminhões carregando e levando a terra pra outro lugar, muito barulho, poeira e cheiro de combustível, só isso. Mas poderia ser pior. Diante de uma pandemia com gente perdendo a vida, gente perdendo o emprego, a razão e outros perdendo a noção, isso não era nada. Agora, no condomínio, todos já estão acostumados com a obra que mora ao lado. Tem gente até trabalhando de EPI. Vai saber, né? Eu só não uso protetor auricular, prefiro música.

Quanto ao Polly, a noite caiu e não teve argumento que o fizesse descer das coberturas dos prédios vizinhos pelos quais passeava. Mas, depois de aparecer na mídia local em um anúncio de “Procura-se” ele voltou pra casa. Mais tarde, botou um ovinho e todos descobriram que na verdade ele era ela. A marmita, também teve final feliz, encontrou a sua dona e foi um banquete inesquecível.

No condomínio é assim, tem gente trabalhando em casa, tem barulho de obra, tem solidariedade, tem música, tem cheiro de comida gostosa, tem adrenalina e morfina também (Morfina é a cachorrinha do terceiro andar). Quanto ao cheiro de naftalina, ainda é um mistério. Mas poderia ser pior.



 

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