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Nossas vergonhas expostas

Publicado em: 18/11/2020

Vivemos em um universo tão antifeminista que até a língua portuguesa é machista, apesar de ser feminina

Isso não é ficção. Eu conheço um lugar cujo cemitério é dividido em dois. À direita são sepultados os descendentes de poloneses e à esquerda, os descendentes de ucranianos. Essa prática, há pouco mais de um século quando o povoado nasceu, deveria ter lá os seus porquês. Com o passar do tempo, essa demarcação racial póstuma poderia já ter se misturado à paisagem, só que não. Tudo continua igual.

Felizmente, as pessoas de fora daquela pequena comunidade nem percebem a diferença, porque os sobrenomes nas lápides são muito parecidos entre si, todos eslavos e os restos mortais, todos sabemos que são iguaizinhos nesse ou em qualquer outro cemitério.

Esse é apenas um fragmento de história para exemplificar o quanto a intolerância impera. Isso sem falar nos negros, amarelos, índios, mulheres, deficientes de toda a natureza, etc. Nunca vou entender qual é a dificuldade de aceitar o outro do jeito que ele é, não importando a sua cor, opção sexual, partido político, crença. Embora o ser humano esteja em constante evolução, em quase todos os aspectos, a discriminação e o racismo ainda são doenças graves que quando não matam, deixam graves sequelas nas pessoas atingidas por eles.

E o que dizer do machismo? É uma doença antiga, ainda sem antídoto, ou é um desvio de caráter? Há seres contemporâneos que continuam agindo como homens das cavernas que, literalmente, arrastam a mulher pelos cabelos, a tratam como se ela fosse de propriedade deles, exploram, violentam, humilham, espancam, assediam, torturam física, moral e psicologicamente, e matam. E por mais que existam leis, elas não impedem que a mulher continue à mercê do homem do tipo covarde e cruel. E isso não é privilégio das classes baixas, porque acontece em todas as camadas sociais. E a justiça, que deveria ser como Salomão, o mais justo de todos os juízes, sempre teve os olhos vendados, agora parece que está também sem ouvir e quase sem falar. E quando fala, o faz pela boca de machistas.

Um pouco antes do confinamento, em função da pandemia do Coronavírus, eu participei de uma reunião presencial e, enquanto aguardávamos na antessala, tive o desprazer de ouvir piadinhas machistas sem graça, que destoavam do cenário composto por homens e mulheres. Fato corriqueiro em reuniões familiares, em conversas no elevador, na fila do cinema, no mercado e em qualquer lugar. O que é, no mínimo, uma falta de respeito. Mas, em nossa sociedade, esse comportamento é considerado “normal”, já que o mundo é masculino, apesar de todos terem vindo de uma mãe. Vivemos em um universo tão antifeminista que até a língua portuguesa é machista, apesar de ser feminina.







 

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