Colunas

Mais um acidente

Publicado em: 26/03/2021

No mês de março e especialmente no dia oito, eu sempre recebi flores, chocolate, perfume, joia, viagem, banho de loja, serenata, dia da beleza e tantos outros presentes e surpresas incríveis que nem sei contar. Sempre parecia um sonho e eu sempre ficava muito feliz. Nessas ocasiões, eu me sentia amada e reconhecida. Sobretudo, eu me sentia viva. Este ano, não foi diferente.

Eu queria muito ter registrado esses momentos maravilhosos, mas não pude fazer nenhuma foto porque o meu celular caiu e quebrou.

Mesmo que o celular estivesse funcionando, não seria possível porque eu havia quebrado um dente da frente e não conseguia sorrir e nem degustar o chocolate de que tanto gosto porque, além do dente, a parte interna da boca estava cortada e os lábios estavam muito inchados. Mas, tudo bem, mesmo sem poder fotografar, fui experimentar o colar. Foi difícil porque eu não conseguia levantar os braços que estavam muito doloridos. Mas quando finalmente consegui, percebi que, apesar de toda a sua beleza, o colar não combinava com aquela grande mancha roxa no meu pescoço. Não desisti e fui provar os sapatos daquela marca bacana que toda mulher deseja ter. Mas quando olhei para baixo lembrei que estava usando uma bota ortopédica, em função da fratura da perna esquerda. 

Quando fui guardar tudo, me lembrei que eu havia ganhado também lindos óculos escuros. Esse foi o único presente eu pude usar, pois ele me ajudou a esconder os meus olhos vermelhos e inchados de tanto eu chorar. 

Mesmo sofrendo, mesmo sentido muita dor, medo e vergonha, sempre fui otimista, pensando que quando as coisas melhorarem eu usaria cada um daqueles presentes”.

Você deve estar se perguntando o que foi que aconteceu para eu estar toda quebrada desse jeito. Vou dizer pra você o eu que digo pra todo mundo: “foi um acidente doméstico” e pode acontecer em qualquer família.

Mas, voltando aos presentes, eu tenho algo importante pra dizer. Se, porventura, eu não sobreviver ao próximo acidente, fica dado o meu recado. Presente nenhum é capaz de maquiar os hematomas e as cicatrizes do corpo e da alma.Não há joia capaz de devolver o brilho ao olhar de quem vive com medo. Não há pedido de desculpas ou arrependimento que anule uma vida de maus tratos. Mais que presentes e homenagens é preciso ter respeito. Só isso.

Este texto é dedicado a todas as Marias da Penha, Leilas, Danielas, Tatianes e a todas aquelas que foram mutiladas ou assassinadas pela covardia de quem se acha superior.




 

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