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Fora da Oca

Rosí Czepula Meassi
É publicitária e jornalista.

A mudança, o álbum e a gaveta emperrada

Publicado em: 31/05/2021
Nunca saímos iguais de uma mudança, seja ela qual for. Sempre deixamos muito de nós por onde e por quem passamos e também levamos muito conosco

Um dia desses, uma amiga mudou de um apartamento grande para outro menor. Extremamente organizada, ela separou o que levaria e o que seria vendido, o que seria doado e o que seria descartado. Tudo estava sendo encaixotado e devidamente etiquetado. Esse processo durou quase um mês e quanto mais ela mexia, mais coisas apareciam. Algumas, inclusive, que ela sequer lembrava que havia comprado ou guardado, mas estavam lá esperando um destino. 

Se você está pensando que ela ficou estressada ou cansada em função dessa maratona entre caixas e etiquetas, enganou-se. Ela aproveitou esse tempo para se reencontrar com a sua própria história. Depois de conseguir abrir uma gaveta que estava emperrada há séculos, ela se deparou com um álbum e nele se reencontrou com a sua própria infância. Aquele álbum pertencia aos seus pais, mas que por algum motivo foi parar ali, na gaveta emperrada. Naquelas fotos, algumas já meio desbotadas, estavam brincadeiras e sonhos de uma infância inteira. 

Ela comentou que vendo as fotos sentiu até o cheiro da compota de pêssego que a sua avó fazia todos os anos. A essa altura, ela deu um tempo na arrumação, desencaixotou a cafeteira, fez um café forte e mergulhou no álbum. Cada foto trazia um monte de lembranças, ela chorou e riu muito até a última página. Muitas horas e muitos cafés depois, ela guardou o álbum numa caixa com a etiqueta “Documentos importantes”. Quando ela iria retomar o trabalho, percebeu que no fundo da gaveta havia ainda uma folha de papel e um novo reencontro aconteceu. 

Na folha, ela se deparou com um desenho todo torto e apaixonante, acompanhado da frase “Mamãe eu te amo”. Era um trabalhinho de escola do seu filho, que hoje é um homem feito. Novamente ela viajou no tempo, riu, chorou, respirou fundo e guardou o desenho junto com o álbum. Não fosse a mudança, talvez ela nunca tivesse aberto a tal gaveta que aprisionava tantas lembranças. 

Dias depois, estava tudo pronto e era hora de entregar as chaves. Ah, e quanto à violeta que morava na sacada, a minha amiga resolveu deixá-la por entender que a flor poderia morrer de saudade daquele sol nascente. Embaixo do vaso da flor, ela deixou um cartãozinho aos novos moradores que dizia mais ou menos o seguinte: “Espero que sejam muito felizes aqui, como eu fui. A violeta é um presente de boas-vindas. Ela gosta muito deste lugar.”

Nunca saímos iguais de uma mudança, seja ela qual for.  Sempre deixamos muito de nós por onde e por quem passamos e também levamos muito conosco. Na mudança, a gente mexe em nossas coisas e em nossas lembranças. E a mudança também mexe muito com a gente. Mas, cá entre nós, não precisamos esperar uma mudança para desemperrar nossas gavetas e visitar as nossas lembranças.
 

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1 COMENTÁRIO(S)

Seus textos são sempre muito lindos, este é mais um. Ameiiii!
comentado por Gina Maria Mezzomo Prati em 06/06/2021
Muito obrigada, Gina, por ser apreciadora dos meus textos na Revista Aldeia.
comentado por Revista Aldeia em 07/06/2021
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