A revista mais premiada do Paraná
14 anos de história

Fora da Oca

Rosí Czepula Meassi
É publicitária e jornalista.

Ao mestre, com carinho

Publicado em: 21/10/2021
Mas a bandeira branca logo caiu por terra, a discussão recomeçou e somente uma professora foi capaz de acalmar os ânimos

Esses dias, na escolinha da filha de uma amiga, eu ouvi uma conversa curiosa. Duas vozes femininas argumentavam e contra-argumentavam sobre as suas próprias qualidades. Eu não podia vê-las, apenas ouvia as duas vozes que me pareciam ser de alguém de idade bem avançada. Mas não pense que elas falavam sobre filhos, netos, rugas, dores nos joelhos ou, ainda, sobre carteado. A conversa era bem diferente do previsível. 

Apesar das vozes aparentarem ser extremamente idosas, elas falavam com muita jovialidade, firmeza e com uma lucidez invejável. Uma delas tinha um discurso mais elaborado, com o vocabulário rico, inclusive citando vários autores. Já a outra adotava um palavreado mais simples, porém demonstrava muita convicção em tudo o que falava.

A primeira dizia que se não fosse por ela, não seria possível passar o conhecimento de geração para geração, ensinar as pessoas, construir escolas desde as que atendem a bebês, até as que formam doutores. A segunda voz retrucou, dizendo que ela sim era indispensável à transmissão do saber desde sempre e que podia provar o que estava dizendo. 

A primeira voz disse que ela era a mais importante porque dava a receita, o mapa de como deveria ser feito. A segunda voz retrucou dizendo que se houvesse algum contratempo, não previsto no tal mapa, era ela quem improvisava para que tudo desse certo e acabasse bem.

A primeira voz disse que não gostaria de perder a compostura, mas que já estava perdendo a paciência. E a segunda, emplacou: “Esse é o seu problema, você tem um discurso perfeito, mas é muito complicada, cheia de métodos e fórmulas. Quanto a mim, eu ponho a mão na massa e faço, o mundo gira e as coisas acontecem. Simples assim”. 

A primeira, às gargalhadas, afirmou que ela nasceu primeiro e, sendo assim, todos a seguiam para tudo. A segunda contestou: “Eu não apostaria nisso, minha cara. Quem disse que você nasceu primeiro?” E continuou: “você que se diz tão sábia, nunca ouvir falar em exemplo? Pois eu sou a prova viva de que o exemplo concreto é o que realmente ensina, para o bem ou para o mal”. 

E, de repente, uma trégua: a primeira voz, tentando diminuir o calor da discussão, afirmou que não era de bom tom elas entrarem no mérito da idade a essa altura da vida. Ufa! Nesse ponto, as duas concordaram. 

Mas a bandeira branca logo caiu por terra, a discussão recomeçou e somente uma professora foi capaz de acalmar os ânimos, esclarecer a situação e colocar um ponto final na discussão.

Nesse momento, eu me aproximei mais e foi aí que eu entendi quem eram as duas idosas. Tratava-se de uma apresentação em homenagem ao mês do professor, figura que sabe como ninguém mediar as diferenças ente essas duas senhoras chamadas Dona Teoria e Dona Prática.

A todos os professores e professoras o meu desejo de saúde física e mental, remuneração justa e boas condições de trabalho.

DEIXE SEU COMENTÁRIO

Expresse, fale, opine, sugira! Nós queremos fazer nossa Aldeia cada vez melhor.

Importante: Comentários com conteúdo sensível, impróprio ou que for considerado inadequado – por qualquer motivo, a critério do moderador – serão sumariamente deletados.

Deixe seu comentário.
© 2022 REVISTA ALDEIA Todos os direitos reservados.
Alguma dúvida? Nos te ajudamos. Ligue: (45) 3306-5751