A revista mais premiada do Paraná
14 anos de história

Fora da Oca

Rosí Czepula Meassi
É publicitária e jornalista.

A despedida

Publicado em: 18/03/2022


Este texto é um sinal de solidariedade a todas as pessoas que tiveram o corpo, a mente e o coração mutilados pela crueldade da guerra, seja ela qual for. Que todas as famílias separadas por essa desumanidade possam se reencontrar logo

Essa separação não é de livre e espontânea vontade. Mas não há o que fazer, senão ir em frente e sem olhar pra trás, por mais que lá atrás fiquem os nossos amores, as nossas alegrias e toda a nossa história até esse triste dia.

Durante os poucos segundos, dentro daqueles derradeiros abraços, nos damos conta da nossa pequenez diante dela. A dor da despedida nos deixa claro o que é vital, o que é importante e o que não significa absolutamente nada na vida.

Com o coração sangrando e com os olhos afogados em lágrimas, tentamos convencer a nós mesmos, dizendo aos que ficam: “Até breve, vai ficar tudo bem. Eu te amo.” Se haverá amanhã, não é possível saber. Só nos resta seguir, sem olhar pra trás, porque seguir em frente agora é única saída.
 
A despedida é uma espécie de droga. Quando somos atingidos por ela, ficamos anestesiados, não sentimos fome, nem sede, nem cansaço, nem sono, nem vontade de nada. E esse transe só é interrompido por soluços tão dolorosos e tão profundos que quase nos fazem parar de respirar.

Ao mesmo tempo, a despedida nos dá uma energia gigante, como se a vida soubesse que ainda há esperança do reencontro. Minha vontade era voltar correndo, fazer o tempo voltar pra me devolver a minha vida. Eu gostaria de nunca precisar me despedir, mas não há alternativa. Agora, ela é a única saída.

Durante todo o caminho desconhecido rumo a um destino incerto, temos dois companheiros inseparáveis: o medo e a esperança. E agora são eles que passam a nos nortear.

Ao longo da estrada, junto com outros corações partidos e olhares perdidos, encontramos algum pão repartido, alguma piedade, palavras de conforto e até um prato de comida, um banho raro e um cantinho para descansar. 

Mas nenhuma dessas mãos estendidas podem nos fazer esquecer da dor do momento em que fomos obrigados a soltar das mãos dos nossos amores, deixando-os para trás. Este texto é uma homenagem a todas as famílias que foram obrigadas a se separar e a deixar para trás os seus pais, os seus filhos e os seus companheiros ou companheiras. 

Este texto é um sinal de solidariedade a todas as pessoas que tiveram o corpo, a mente e o coração mutilados pela crueldade da guerra, seja ela qual for. Que todas as famílias separadas por essa desumanidade possam se reencontrar logo e que nunca mais sejam obrigadas a soltar as mãos, por nada.


 

DEIXE SEU COMENTÁRIO

Expresse, fale, opine, sugira! Nós queremos fazer nossa Aldeia cada vez melhor.

Importante: Comentários com conteúdo sensível, impróprio ou que for considerado inadequado – por qualquer motivo, a critério do moderador – serão sumariamente deletados.

1 COMENTÁRIO(S)

Estamos vendo todos os dias as imagens da guerra e não tem como não sentir a dor das pessoas, assim como seu texto. Apesar da tristeza que ele expressa está muito lindo e verdadeiro.
comentado por Gina Maria Mezzomo Prati em 21/03/2022
© 2022 REVISTA ALDEIA Todos os direitos reservados.
Alguma dúvida? Nos te ajudamos. Ligue: (45) 3306-5751