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Fora da Oca

Rosí Czepula Meassi
É publicitária e jornalista.

A escada tem mais de 50 e eu também

Publicado em: 13/07/2022
No condomínio é assim: muita gente diferente em um mesmo lugar. É gente tentando abrir o portão em dia de tempestade; é gente que estaciona na vaga alheia; é gente que tranca a chave dentro do carro; é gente que conserta tudo

O condomínio é uma espécie de selva de pedra, onde é possível encontrar vários tipos de seres, inclusive os humanos. Um lugar eclético. Pode mudar o endereço, a classe social e a arquitetura, mas a essência é quase sempre a mesma. Isto porque o condomínio é, basicamente, formado por pessoas.

E onde há pessoas, tudo pode acontecer. Há os que gostam de bicho e há os que não gostam, nem de bicho nem de gente. Falando em bicho, conheço um condomínio onde morava um enorme gato preto, chamado carinhosamente de Toni Ramos. Ele gostava de passear no telhado e também de tomar banho de sol no muro da entrada da garagem. 

No condomínio tem gente que faz barulho e tem também os que ouvem sons imaginários. Já outros, ainda, não ouvem nada, nem o som estridente do sensor da porta da rua que toca toda vez que ela é esquecida aberta. Falando em estridente, alguém já parou pra pensar no interfone?

Esses dias a vizinha do terceiro andar me relatou o seguinte episódio: o interfone tocou sem parar até ela conseguir terminar a conversa que estava tendo com um cliente ao telefone. Segundo ela, tempo em torno de um minuto. Imagine, o interfone tocando direto durante um minuto... é coisa de endoidecer gente sã.

Assim que ela conseguiu atender, a voz do outro lado gritou o seu nome, dizendo que se tratava de uma entrega. Ela se apressou, mas quando chegou na rua, o homem, com cara de pouquíssimos amigos, já estava indo embora. Ela correu e conseguiu “segurar” o entregador que foi rude, dizendo que ele estava com o carro parado em fila dupla e que aquela não era a única entrega do dia.

Ela ficou brava, mas não perdeu a compostura e respondeu assim, referindo-se ao número de degraus da escadaria do prédio e também à sua idade: “Moço, aqui não tem elevador, a escada tem mais de 50 e eu também”. Ambos riram e ficou tudo bem.

Mudando de escadaria pra portaria, chegamos a uma figura característica de grande parte dos condomínios: a pessoa encarregada de receber moradores, visitantes, entregadores, carteiros, cobradores, responsável também por separar a correspondência, ouvir reclamações de todo lado e a lista não tem fim.

Em sua maioria, esses profissionais são fiéis e extremamente amáveis. Tanto que de cara já te promovem a doutor, doutora e até à madame. Praticamente um universo paralelo. E se você precisar de qualquer informação, basta dar uma palavrinha com eles e pronto. O porteiro ou a porteira sabem de tudo. Tudo mesmo.

No condomínio é assim: muita gente diferente em um mesmo lugar. É gente tentando abrir o portão em dia de tempestade; é gente que estaciona na vaga alheia; é gente que tranca a chave dentro do carro; é gente que conserta tudo. É gente que gosta de ouvir música; é gente que não gosta de música.

No condomínio é assim: tem cheiro de bolo no andar de baixo; tem receita de chazinho pra gripe, tem união, doação, solidariedade, amizade e muitas histórias pra contar.

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