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Os três lados do muro

Publicado em: 15/12/2017

Outro dia, por acaso, ouvi parte da entrevista de um arquiteto brasileiro, cujo nome eu não lembro. Foram cerca de dois minutos antes de eu chegar ao meu destino e desligar o rádio do carro. O que me chamou a atenção de cara é que ele falava da necessidade de destruir, derrubar. Mas o pouco que ouvi, foi o bastante para entender que ele falava metaforicamente dos muros construídos pela sociedade, e aquilo ficou martelando na minha cabeça.


Não sei se a conversa seguiu por esse mesmo viés, já que não ouvi o desenrolar da entrevista. Mas, de qualquer forma, ela me serviu de inspiração para escrever sobre esse assunto tão interessante mas que normalmente nos passa despercebido porque já nos acostumamos com ele, já faz parte da paisagem.


A história conta que algumas nações, por séculos separadas por um gigantesco muro, de repente acordaram e derrubaram essa divisão que já estava cheirando à naftalina. Em compensação, outras nações planejam, em pleno século 21, erguer retrógrados e vergonhosos muros para também separar gente de gente.


Olhando para cenários menores e bem mais próximos da nossa realidade, como as nossas casas e nossos locais de trabalho, começamos a enxergar mais muros, porém, esses, teoricamente, com uma função mais nobre que os outros, porque esses nos servem de proteção contra os perigos que estão literalmente do outro lado do muro. São portas com várias chaves; cercas elétricas; seguranças armados; alarmes; câmeras de monitoramento em casa, na rua, na fazenda e até numa casinha de sapê. Além disso, há também outros aparatos que deixam os nossos muros cada vez mais tecnológicos e resistentes, e as pessoas ficam mais seguras, mais isoladas, mais solitárias...


Mas, esse é o preço do muro que, como quase tudo na vida, tem mais de um lado. Apurando ainda mais o nosso olhar, podemos perceber muros imaginários, porém ainda maiores e mais resistentes, alguns intransponíveis. Podemos ver claramente muros de indiferença, de discriminação, de intolerância e de violência nos cercando diuturnamente e nos deixando cada vez mais inseguros, mais vulneráveis, mais egoístas e menos humanos...


Mas, esse é o preço do muro que, como quase tudo na vida, tem dois lados. Dois, não. Na verdade, o muro tem três lados, o terceiro é o lado de cima e esse lado é o mais conveniente e confortável, mas é também o mais perigoso. Porém, mais perigoso ainda é quem gosta de ficar ali, em cima do muro.

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