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LiterArte

Helen Agustina Velasco Acosta
Acadêmica de letras e amante da literatura.
FESTA DE ANIVERSÁRIO

31, maio, 2022

Publicado em: 20/06/2022
Desde que nasceu, Ana Gabi leva consigo um resplandor de manhã e um perfume doce acriançado que nutre o ambiente. Os seus cinco anos passaram discretos e mudos junto ao caos dos meus vinte anos, infinitos. Ontem, Ana Gabi não sabia falar, nem andar, nem amar. Abraçava-me com braços soltos, como se não quisesse, e mandava-me beijos invisíveis porque os pais a obrigavam. 

A quem pertence essa memória? Agora, ajudo a decorar a sua festa de aniversário com certa melancolia azeda, que deixa um rasto de mau gosto causado pela rapidez com que passam os anos. Aninha observa como decoramos a festa enquanto rouba brigadeiros e come os salgados expostos na mesa, correndo de um lado a outro para demonstrar a sua existência. Anda orgulhosa porque é capaz de envelhecer. 

Ana condensa em si os três tempos do mundo, aprendendo a medi-los em risos e choros e saudades e lembranças. Eu, que há tanto quero parar o tempo, refaço na memória cada evento, empenhando-me em eternizar a Aninha antiga que para tudo me necessitava e para tudo me queria. Meu cuidado já não tem razão de ser. 

Guardo em pequenos potes da recordação resquícios daquele passado em que fui responsável por traduzir os seus balbucios e amarrar os seus sapatos. Na parede do meu quarto, exponho os desenhos, mesmo que feios, que ela deu para mim; é a forma que encontrei para contabilizar seu crescimento sem utilizar palavras e números.

Há quem pense, como os pais, que as crianças não devem crescer. Rebeldes, elas desabrocham, desabrocham ao passo que olham, dissimuladas, como o mundo lhes abre as portas das eternas possibilidades, reservando-lhes o dom de ser e habitar esta casa chamada universo. 

O intelecto não entende essas coisas, tampouco os sentidos. É apenas no encontro dos desejos – um de avançar, outro de retroceder – que passamos a crer na presença do tempo, tirando-nos tudo, dando-nos tudo. Nós, que já desabrochamos, estamos à espera, uma espera contínua, do passar de estação. 

Cantamos os parabéns baixinho, para que as horas não se agitassem a ponto de resvalar dos dedos. Aninha abre os presentes, mas também os passados. Tenho sua mesma história: a minha, fortalecendo-se, a dela, apenas começando.
 
Agustina Velasco
 

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