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A guerra não tem rosto de mulher, de Svetlana Aleksiévitch

Publicado em: 18/03/2020

“Não estou escrevendo sobre a guerra, mas sobre o ser humano na guerra. Não estou escrevendo a história de uma guerra, mas a história dos sentimentos.”

“A guerra feminina tem suas próprias cores, cheiros, sua iluminação e seu espaço sentimental. Suas próprias palavras. Nela, não há heróis nem façanhas incríveis, há apenas pessoas ocupadas com uma tarefa desumanamente humana. E ali não sofrem apenas elas (as pessoas), mas também a terra, os pássaros, as árvores. Todos os que vivem conosco na terra. Sofrem sem palavras, o que é ainda mais terrível”, explica Svetlana Aleksiévitch em A guerra não tem rosto de mulher, publicado no Brasil em 2016 pela Companhia das Letras. A guerra masculina, a que conhecemos tanto, é contada por homens e sobre homens, é feita de glória, atos heroicos e condecorações militares. Quando são mulheres que contam a história, as diferenças na narrativa são impressionantes. 

Mais de um milhão de mulheres soviéticas lutaram na 2ª Guerra Mundial. Desempenharam diversos papéis militares: enfermeiras e cirurgiãs, tanquistas e pilotos, desarmadoras de minas e bombas, franco-atiradoras e fuziladoras. Essas meninas foram para a linha de frente da guerra entre seus 15 e 20 anos, algumas encorajadas por seus pais e pela propaganda soviética, outras fugiam de casa tamanha a vontade de lutar pela sua nação e seus ideais.

Mas mesmo quando por toda a União Soviética ouviam-se gritos de vitória, para as meninas a luta não acabou. Os homens voltaram da guerra heróis, noivos, vencedores. Mas as mulheres, que lutaram lado a lado aos soldados, exercendo as mesmas funções, foram mal vistas, aprenderam a ficar caladas e esconderam suas medalhas e seu histórico militar sob a vergonha: “quem vai querer se casar com uma menina do front?”. 
Foi somente 40 anos após o fim da guerra que o mundo pôde ouvir suas vozes pela primeira vez, com a primeira publicação, em 1985, de A guerra não tem rosto de mulher, um dos livros que rendeu à escritora e jornalista bielorrussa o Prêmio Nobel de Literatura de 2015. 

Svetlana Aleksiévitch procurou essas mulheres e se dispôs a ouvi-las, conhecer suas histórias, sentir suas dores, e também chorar com elas e por elas - essas meninas do front. Fez isso ao longo de anos, ouviu centenas de mulheres. Em seu livro encontram-se 170 desses relatos. Um ponto de vista único sobre um tema já tão explorado, sua narrativa não é feita de batalhas e heroísmos, é feita de desvios. O trabalho de Svetlana, considerado “um monumento ao sofrimento e à coragem na nossa época”, caminha entre a literatura e o jornalismo. 

Os testemunhos individuais que compõem a obra são lembranças de pessoas que viveram e cometeram atrocidades indizíveis durante a 2ª Guerra Mundial. Que viram a morte, a dor e o sangue virar rotina. Mais do que tudo, este livro é um estudo sobre os sentimentos mais humanos que existem: o medo, a saudade e o amor, frente ao absurdo da guerra. Não podemos nos acovardar diante do que essas mulheres têm a nos dizer, por mais difícil que seja de escutar. Manter viva a história é a maneira mais simples de evitar que ela se repita.

“Um mundo inteiro foi escondido de nós. A guerra delas permaneceu desconhecida… Quero escrever a história dessa guerra. A história das mulheres.”



 

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