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Persépolis, de Marjane Satrapi

Publicado em: 18/04/2020


 
“Ninguém pode olhar para o futuro e afirmar estar a salvo da ameaça do totalitarismo...” – Pierre-Henri Teitgen
 

Persépolis é uma autobiografia em quadrinhos da romancista gráfica Marjane Satrapi, autora iraniana que presenciou uma revolução em seu país aos 10 anos de idade. O título da obra remete à antiga capital do Império Persa, que hoje chamamos de Irã, transmitindo a fundamental mensagem de que a cultura e história iraniana têm milhares de anos, e não se limitam apenas à história recente de eventos hostis. 

Publicado pela primeira vez na França, país de residência da autora, em 2000, a HQ (história em quadrinhos) é um relato de sua infância, adolescência e início da vida adulta. A linguagem simples de Persépolis torna sua leitura acessível e dinâmica, apesar de ser um testemunho real de guerra, pautado pela violência e opressão. 

Até então um país moderno e de cultura ocidentalizada, a Revolução Islâmica, em 1979, transforma a monarquia do Irã em um regime xiita extremamente opressor e conservador. Acompanhamos, pelo olhar da pequena Marji, de 10 anos, as consequências que o governo ditatorial refletia em sua vida cotidiana: a imposição do uso do véu islâmico, uma escola laica que se torna fundamentalista, uma sala de aula, antes mista, agora só com meninas. 

Nascida em uma família intelectual e politizada, Satrapi sempre foi uma criança engajada, com oportunidades de estudo e contato com os ideais revolucionários e progressistas de seus pais. Vemos os questionamentos e o estranhamento da menina frente a crescente repressão das liberdades civis, o conservadorismo e a rápida perda de direitos das mulheres. 

Alguns anos depois, com a consolidação da Guerra Irã-Iraque, a crise humanitária apenas crescia em seu país, e, por conta da crescente violência, Marjane, então com 14 anos, é mandada pelos pais para a Áustria, um país que ela desconhecia e cuja língua não falava, a fim de continuar sua educação escolar. Acompanhamos seu período na Áustria e suas dificuldades ao se ver sozinha e em meio à uma juventude europeia completamente estranha para ela. 

Após quatro anos na Europa que culminam em um estado grave de pneumonia, Marji toma a decisão de voltar ao Irã e iniciar a faculdade de Artes Visuais em sua terra natal. Depois de anos fora de casa, a autora se vê novamente vestida com o véu islâmico e passa por um difícil processo de readaptação à própria cultura, resultando em uma grave depressão, até sua saída permanente do Irã, apoiada pelos seus pais.

 
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Marjane Satrapi, romancista gráfica, ilustradora, cineasta e escritora iraniana, que atualmente reside na França

Marjane Satrapi se tornou a primeira mulher iraniana a publicar uma HQ, e teve sua autobiografia adaptada para o cinema, filme indicado ao Oscar de Melhor Animação em 2008. O desenho preto e branco, de cunho minimalista, é parte essencial da obra e uma escolha consciente da autora, como forma de mostrar a verdade crua e sem rodeios das inúmeras reviravoltas por quais ela passou. Testemunhar essas duas décadas do início da vida da autora é também testemunhar a fragilidade da liberdade humana, a rápida perda de direitos (junto com a certeza de que nenhum direito nos é garantido) e o retrocesso de um Irã desenvolvido e com grande riqueza cultural. A leitura da obra nos ajuda a atravessar a barreira da intolerância e ter uma conversa mais complexa sobre o assunto, nos incentivando a transformar a imagem unilateral que temos do Irã e da mulher iraniana.


 

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