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Vozes de Tchernóbil – a história oral do desastre nuclear, de Svetlana Aleksiévitch

Publicado em: 19/06/2020

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“Compreendi que Tchernóbil fica muito além de Auschwitz. Do Holocausto. Estou me expressando com clareza? O homem armado não é capaz de matar todo mundo. Mas o homem com o átomo... Nesse caso toda a Terra está em perigo”

No dia 26 de abril de 1986, uma série de explosões destruiu o reator n°4 da Usina Nuclear de Tchernóbil, situada em Pripyat, na Ucrânia, próximo à fronteira com a Bielorrússia, resultando numa catástrofe que permanece até hoje como o mais grave desastre nuclear da história. O livro Vozes de Tchernóbil, da escritora bielorussa Svetlana Aleksiévitch, não trata do acidente em si, mas sim da história omitida, do mundo e das pessoas de Tchernóbil.

Os relatos que compõem a obra, publicada em 2013, foram ouvidos e redigidos pela autora ao longo de 20 anos. Conhecemos os impactos e consequências do desastre nuclear através das histórias narradas por suas vítimas diretas e indiretas: os moradores e trabalhadores evacuados de Pripyat, mães e esposas que perderam seus filhos e maridos, crianças que nasceram e cresceram sob radiação, e até os moradores ilegais que se recusaram a deixar a zona de exclusão.

“Ali eu logo entendi que estávamos em outro mundo. Todas as coisas parecem iguais — as maçãs, os pepinos, o leite —, mas sobre elas já paira a sombra da morte, e as pessoas estão desorientadas, perdidas, [...] não se trata do ser humano na história, mas do ser humano no cosmo.”

As falhas técnicas e humanas que levaram à explosão, a negligência do governo soviético, a demora em informar os cidadãos sobre a real gravidade do ocorrido, a falta de preparo com que milhares de pessoas (bombeiros, militares, médicos, operários) foram enviadas para o local – tudo isso fica claro no livro de Svetlana - culminaram na tragédia que deixou milhares de vítimas e levou o caos e o terror para dentro de suas vidas cotidianas. 

Apesar do aumento gritante no número de cânceres, doenças e mortes através da Ucrânia e Bielorrússia, como resultados da radiação, o governo soviético não manteve dados sobre o destino dessas pessoas. Por conta disso, o número de mortes oficiais permanece até hoje como 31, sendo esses apenas os trabalhadores de emergência que morreram nos meses seguintes à tragédia. Nunca saberemos o número exato de vítimas, mas estimativas vão de 4 mil a 93 mil mortes ao longo dos anos seguintes, em decorrência da radioatividade. 

Testemunhas contam, no livro, como os animais – minhocas, abelhas, pássaros – foram os primeiros a reagir de forma estranha à radiação, antes mesmo que os cidadãos comuns soubessem do desastre nuclear. Isso faz com que a autora se pergunte: “Quem está mais sólida e eternamente ligado à Terra, nós ou eles? [...] Uma pequena formiga se arrasta pela terra, e ela agora me é próxima. Um pássaro voa no céu e também me é próximo. Entre mim e eles, o espaço se reduziu. Não há mais o abismo de antes. Tudo é vida”.

Vozes de Tchernóbil não é um livro fácil de ser lido, é denso e difícil, pois é isso que tem que ser; é também cruel, visto que é um manifesto de dor e sofrimento e relata a tragédia de todo um povo. Cabe à Aleksiévtich a árdua tarefa de dar voz aos sentimentos e memórias de pessoas que tiveram vivências tão traumáticas, e isso só é possível através de sua abordagem singular e enorme sensibilidade, que renderam à autora o Nobel de Literatura de 2015. 

A minissérie Chernobyl, que foi ao ar em 2019, pela HBO, se baseia em grande parte na obra de Aleksiévitch, dramatizando algumas das histórias presentes em seus relatos, apesar de o nome da autora não configurar nos créditos da série. Um dos protagonistas é Valery Legasov, químico que desempenhou um importante papel nas investigações sobre as causas e consequências de Tchernóbil, conduzindo seus relatórios com crítica e honestidade perante o governo autoritário. Ele cometeu suicídio dois anos após o acidente e deixou fitas gravadas sobre fatos não divulgados pelo governo soviético. 

“A verdade não se importa com nossas vontades e desejos, não se importa com nossos governos, nossas ideologias, nossas religiões. Ela estará a espera por toda eternidade. E este, afinal, é o presente de Tchernóbil. Onde uma vez temi o preço da verdade, agora apenas pergunto: qual é o custo da mentira?”



 

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