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“O livros dos abraços”, de Eduardo Galeano

Publicado em: 16/07/2020



“Para que a gente escreve se não é para juntar nossos pedacinhos?”

Publicado pela primeira vez em 1989, “O livro dos abraços” é uma colcha de retalhos, no melhor sentido do termo, sutilmente tecida por histórias. Composto de pequenos contos e crônicas que, apesar de tão simples, carregam um valor enorme e que, ao longo do livro, percebemos estarem todos de alguma forma intrinsicamente conectados. 

A abordagem leve do autor uruguaio, que nos deixou em 2015, aos 74 anos, é um testemunho vivo do seu olhar poético mesmo frente à absurda e trágica história da América Latina. Pois vemos na convergência dessas histórias - autobiográficas ou não, ficção ou não – a verdadeira essência de “O livro dos abraços”: a memória afetiva do povo latino americano (“un pueblo sin pernas pero que camina”, como diz a famosa música de resistência do grupo porto-riquenho Calle 13).

Através de suas narrativas, viajamos junto com Eduardo Galeano pelos quatro cantos da América e também por alguns cantos da Europa, pois o autor esteve exilado na Espanha durante as ditaduras militares latino-americanas. No meio dessas andanças, desbravamos não só o percurso geográfico e histórico do livro mas também as dores e alegrias presentes nessas histórias e nesses personagens. 

Não se deixe enganar pela narrativa calma: quando você menos espera é arrebatado pelo texto. É a dor no peito junto com o sentimento de ternura que ler sobre essa memória ao mesmo tempo pessoal e coletiva proporciona. É que as vezes a grandeza desses pequenos momentos da vida é grande demais para absorvermos de uma vez só (e sinto que Galeano sabia muito bem disso).

A importância de se discutir, ler e reler obras como esta se faz ainda maior em um país como o nosso, que falha em relembrar sua ditadura militar e a encara como caso isolado, que desvincula sua identidade das identidades de seus países vizinhos e ignora nossa história compartilhada. “A primeira condição para modificar a realidade consiste em conhecê-la”, diria o próprio autor.

E talvez venha daí o impacto tão grande que “O livro dos abraços” é capaz de causar. De certa forma, Galeano rompe com a história que fomos ensinados e que pensamos conhecer, para a partir daí reconstruir e resgatar a memória de um povo que tem seu passado constantemente apagado. E consegue fazer isso com muita beleza, sem nunca perder seu olhar genuíno perante a vida.

 “Sim, sim, por mais machucada que a gente possa estar, sempre é possível encontrar contemporâneos em qualquer lugar do tempo e compatriotas em qualquer lugar do mundo. E sempre que isso acontece, e enquanto isso dura, a gente tem a sorte de sentir que é algo na infinita solidão do universo.”

 

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