Colunas

“Matadouro-cinco”, de Kurt Vonnegut

Publicado em: 19/08/2020



Kurt Vonnegut, como testemunha desse terrível acontecimento histórico, monta um retrato único da guerra e das consequências que ela pode causar em quem sobrevive aos seus traumas

Considerado um clássico do século XX, “Matadouro-cinco” surgiu da vontade expressa do autor em escrever sobre sua experiência como sobrevivente de um dos maiores massacres da história europeia. Ao misturar elementos autobiográficos com ficção científica para compor esta obra, Kurt Vonnegut se tornou um dos escritores mais importantes da literatura norte-americana.

Billy Pilgrim, o personagem protagonista, é um ex-prisioneiro de guerra que sobreviveu ao bombardeio da cidade de Dresden ao se refugiar com outros soldados em um matadouro da cidade, e vive uma vida pacata no pós-guerra. O título da obra e muito de sua história vêm das experiências reais de Vonnegut durante a Segunda Guerra Mundial.

O bombardeio de Dresden foi um ataque incendiário que devastou completamente a cidade alemã em 1945, com número de mortos equivalente ao bombardeio em Hiroshima. Kurt Vonnegut, como testemunha desse terrível acontecimento histórico, monta um retrato único da guerra e das consequências que ela pode causar em quem sobrevive aos seus traumas.

A ironia e o tom quase cômico ao tratar de acontecimentos trágicos podem causar estranhamento no início. Vemos um sentimento de resignação e conformismo na frase “é assim mesmo”, que é repetida dezenas de vezes no livro e aparece sempre que alguma morte é mencionada. Mas para além disso podemos perceber também que a ironia serve para transparecer e reiterar a crítica do autor, quando nos conformamos diante de atrocidades que são tudo menos naturais.

“Matadouro-cinco” foi publicado originalmente em 1969 e sofreu tentativas de censura por parte de conservadores nos Estados Unidos, por ser implicitamente anti-guerra e anti-bélico. Fica claro desde o início do livro que o objetivo de Vonnegut é ir contra a cultura que romantiza ou idealiza a guerra, e simplesmente mostrá-la pelo que ela é, em toda sua crueldade desnecessária e absurdo. E veio daí sua maior dificuldade, como o próprio autor pontua ao dizer que o livro é curto e confuso porque nada de inteligente pode ser dito sobre um massacre. 

O aspecto fantástico e experimental da obra se encontra nos elementos de ficção científica que pontuam a trajetória do protagonista Billy Pilgrim: vemos sua história de vida de forma não-linear, pontuada por episódios de viagens através do tempo e espaço, e reflexões que beiram a filosofia. E apesar de parecer mesmo simples ou confuso, percebemos as camadas de profundidade que Kurt Vonnegut consegue alcançar com sua escrita acessível e a verdadeira genialidade que isso demanda.

 

DEIXE SEU COMENTÁRIO

Importante: Comentários com conteúdo sensível, impróprio ou que for considerado inadequado – por qualquer motivo, a critério do moderador – serão sumariamente deletados.

Deixe seu comentário.
×

Assine Aldeia

Por apenas R$ 9,90* / mês.

Deixe seu telefone, nós ligamos para você.
Venha fazer parte da nossa tribo!