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O retrato de Dorian Gray – Oscar Wilde

Publicado em: 16/10/2020

O retrato de Dorian Gray – Oscar Wilde
 
“Oscar Wilde nasceu em Dublin em 1854. Morreu no Hotel D’Alsace, em Paris, no ano de 1900. Sua obra não envelheceu, poderia ter sido escrita esta manhã” 
Jorge Luis Borges


Oscar Wilde se tornou uma figura tão difundida na cultura mundial que nem é preciso ler sua obra ou biografia para conhecê-lo: tenho certeza que você já viu ou compartilhou frases suas por aí, como “a vida imita a arte mais do que a arte imita a vida”. Mas então, como um dos dramaturgos mais famosos em Londres na década de 1890 morreu sozinho e desprezado pela sociedade anos mais tarde?

Por hoje estar consagrado como clássico da literatura e cativar sempre novas gerações de fãs, entendemos que seu sucesso vai além de sua história de vida, e está fundado no impacto e atualidade de sua obra e sua envolvente escrita. Conhecido por peças e poemas, tornou-se uma figura importante na vida social de Londres e na corrente artística do esteticismo. Hoje, uma das suas obras mais conhecidas é também seu único o romance: O retrato de Dorian Gray, publicado em 1890 e em sua versão censurada em 1891.

No romance, Dorian Gray é um lindo e simpático jovem inglês que tem seu retrato pintado pelo artista Basil Hallward, que está completamente encantado pelo rapaz. Diante do retrato, apaixonado pela própria beleza e juventude, o jovem diz que entregaria até a alma para que pudesse permanecer eternamente belo, enquanto o retrato envelhecesse em seu lugar. Ao ver que seu desejo se confirma, Dorian Gray segue uma vida cada vez mais narcisista e hedonista, em que a beleza e o prazer superficial são seus únicos “valores”, enquanto seu retrato pintado passa a lhe mostrar toda a podridão de sua alma.

Wilde, com sua característica ironia, não só promove uma discussão filosófica a respeito da arte, como faz um retrato fascinante da decadência moral presente na alta sociedade inglesa, as consequências de uma vida de aparências e a hipocrisia da sociedade vitoriana, que zela com falso moralismo por instituições como a Igreja e o casamento. E provavelmente por isso mesmo tenha sido massacrado pela crítica conservadora da época, que julgou o livro imoral e perigoso, forçando sua censura e edição.

Infelizmente, a obra acabou sendo usada contra o próprio Wilde durante seu julgamento, que toma proporções inesperadas e o condena em 1895 por ser homossexual (consideram-no “corruptor da juventude”) a dois anos de prisão e trabalhos forçados, o que vem a ser um baque físico e mental no escritor. 

Às vezes acreditamos que eventos passados estão muito longe da nossa realidade e falhamos em perceber suas semelhanças com problemáticas atuais. Podemos notar ainda hoje a imagem estética e a imagem pública importando mais do que caráter. Tal qual Oscar Wilde, a literatura e a arte ainda sofrem tentativas de censura sob pretextos vagos como “proteger a família e os bons costumes”.
Para Wilde, em sua própria defesa, os livros que o mundo chama de imorais apenas mostram ao mundo sua própria vergonha. “Há livros mal escritos e bem escritos. Isso é tudo.”

 

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