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Orlando – Virgínia Woolf

Publicado em: 18/11/2020

A premissa dá abertura para muitas reflexões e sátiras sobre as construções sociais de gênero, a moral da época, a sexualidade, identidade, e até sobre o amor 

“Orlando: uma biografia” é um romance histórico publicado em 1928 por Virgínia Woolf, uma das maiores escritoras inglesas, conhecida por sua narrativa descritiva e poética, e o emprego do fluxo de consciência em suas obras. Em “Orlando”, o narrador cumpre papel de biógrafo, contando a história de vida de um personagem que assume diversos papéis na sociedade inglesa e vive através dos séculos.

No início da obra, conhecemos Orlando como um jovem aristocrata inglês do século XVI, período elisabetano. Nobre, gracioso, romântico, possuidor de inúmeros encantos, cujo único defeito parece ser sua paixão obsessiva pela escrita, que o leva a escrever em segredo dezenas de obras ao longo de sua vida, enquanto participa da vida política na Inglaterra. Nesse ponto, Virgínia Woolf traz muitas reflexões sobre o fazer literário e poético, explorando também a metalinguagem para falar sobre a estrutura da biografia.

Um dos pontos principais do enredo é a transgressão de gênero do personagem principal. Em uma cena com indícios de fantasia, durante um período como embaixador em Constantinopla, um Orlando de 30 anos adormece por sete dias e acorda transformado em mulher. Simples assim. A mudança é tão natural que ninguém a questiona, e nada parece ter mudado exceto isso. Mesmo que continue sendo a mesma pessoa, a protagonista precisa se adaptar a ser enxergada como mulher e também a ver o mundo através dessa nova perspectiva. 

A premissa dá abertura para muitas reflexões e sátiras sobre as construções sociais de gênero, a moral da época, a sexualidade, identidade, e até sobre o amor – que se torna muito mais claro para Orlando removida a barreira de gênero. Quando volta à sua mansão na Inglaterra, já no século XVIII, assume de vez sua identidade de Lady Orlando e passa a participar da criação literária em Londres, guiada pelo amor à poesia. 

A ambiguidade de gênero continua presente em Lady Orlando, essa característica de androginia interior e exterior que lhe é natural: ter vivido como homem e como mulher, conhecer os segredos e desvantagens de cada um, aproveitar os prazeres e experiências dos dois, pertencer a ambos e não pertencer a nenhum.

A passagem do tempo também é um aspecto primordial do livro, apesar do decorrer dos séculos; no final da história Lady Orlando se encontra, em 1928, ainda com 36 anos. O movimento sutil do tempo ao longo da obra pode ser percebido em detalhes como a sucessão dos monarcas britânicos e as mudanças culturais de cada época das memórias de Orlando.

Virgínia Woolf cria um personagem único e fascinante, mas ao mesmo tempo palpável, pois representa diversos aspectos da subjetividade humana – a existência de múltiplos “eus” dentro de cada um, a percepção relativa do tempo. “Orlando: uma biografia” é, além de uma reflexão sobre a desconstrução de gênero e de barreiras ilusórias, também um retrato poético da relação subjetiva do indivíduo com o tempo, a memória e o mundo a seu redor.
 
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