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Síndrome da impostora

Publicado em: 16/10/2020

"Hoje em dia, crianças mais jovens chamam isso de Síndrome do Impostor. Sentem que não cabem ali, não pertencem. Eu tive de trabalhar duro para superar aquela pergunta que (ainda) faço a mim mesma: 'Eu sou boa o suficiente?'. É uma pergunta que me persegue por grande parte da minha vida. Estou à altura disso tudo? Estou à altura de ser a primeira-dama dos Estados Unidos?" Michelle Obama 

Outro dia após uma palestra, na sessão de perguntas e respostas, uma participante me perguntou qual o meu maior desafio como Embaixadora da Rede Global de Mulheres Líderes, em especial no quesito comunicação. Minha resposta foi que meu maior desafio não é me comunicar com pessoas do mundo todo, mas sim a síndrome da impostora, que algumas vezes aparece para mim. Como processos de autoconhecimento e autogestão fazem parte de minha vida há muito tempo, eu acolho essa impostora e a mando embora.

Mas o que significa essa síndrome? Segundo o sociólogo Jose A.M. Vela , da Universidade Autônoma de Madri, a síndrome da impostora se refere a uma auto percepção na qual a pessoa se sente menos qualificada para determinadas funções ou cargos, como se fosse uma fraude, e portanto não deveria estar ocupando um cargo de poder ou de destaque. Dentre os fatores que influenciam esse sentimento estão os níveis de autoestima e de autoexigência. Mas não se trata apenas destes sentimentos. 

Trata-se também de uma série de condicionantes interiorizados ao longo da vida (em especial) das mulheres e que reflete um problema estrutural da sociedade, no qual a socialização dos papéis de homens e mulheres acaba por gerar crenças limitantes de que determinados lugares ou posições não nos pertencem ou que não somos “boas” o suficiente. Ironicamente muitas vezes ao ascendermos profissionalmente e ao adquirirmos mais conhecimento vamos nos encontrar em territórios desconhecidos e podemos achar que estamos “blefando”.

Percebo também que as diversas intersecções ou marcadores sociais podem influenciar nesse processo. Michelle Obama declarou: "Entrar em uma faculdade de elite, quando o seu orientador vocacional no colégio disse que você não era boa o suficiente, quando a sociedade vê crianças negras ou de comunidades rurais como 'não pertencentes'... Eu, e muitas outras crianças como eu, entramos ali carregando um estigma". Nesse sentido cabe olharmos quais os recortes que cada uma de nós tem e que podem acarretar essas crenças. O marcador mulher carrega por si só alguns estigmas, se somarmos classe social, raça, orientação sexual podemos ter também alguns dificultadores. 

No meu caso, não é exatamente falta de acreditar no meu potencial. Mas a preocupação com a lente dos outros. As vezes me pergunto: “Sou eu mesma que deveria estar aqui?” Quando eu coloco esta situação é para acolher a vulnerabilidade de todas as pessoas e mostrar que muitas mulheres também têm este sentimento, que ele tem nome e que pode ser superado. Durante os cursos e palestras que dou ao redor do país e do mundo, ouço muitos relatos dessa síndrome. E, acredito, que ao debatermos sobre ela, vamos desmistificando conceitos e acolhendo nossa essência do feminino. 

 

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