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De repente, deu uma saudade...

Publicado em: 29/08/2019

"Filho, nunca deixe que ninguém impeça você 
de sonhar, nem se essa pessoa for o seu pai"
À Procura da Felicidade


Meu pai era um sujeito astuto. Vivia nos testando. Por conta de suas provocações, aos seis anos de idade, ainda sendo alfabetizada, eu já sabia todas as capitais dos estados, países mundo afora e parte da tabuada. Não bastava apenas tirar notas boas. Tinha que saber as coisas. Não apenas as coisas dos livros. Mas coisas práticas da vida. Dentre estas, duas eram fundamentais: nadar e dirigir.

Aprendi a nadar num açude barrento com umas aulas esquisitas e um método só dele. Fazia uma espécie de boia com dois galões vazios presos a uma corda. Dentro da água, deitávamos de bruço sobre a corda, e, flutuando, repetíamos os movimentos de braços e pernas. 

Certo dia, ele tirou a boia e ordenou que eu pulasse na água. Hesitei. Mandou novamente. Hesitei novamente. Pela última vez, pulei. Afundei como uma pedra. Bati o pé no barro e, num impulso, subi. Saí correndo pra casa, chorando de raiva. É claro que ele estava me testando. Sobretudo minha coragem. No outro dia, lá estava eu vivendo uma apoteose. Ignorei-o assim como ignorei a algazarra da piazada e pulei. Cruzei de uma margem à outra nadando, sôfrega, mas nadando. Olhei para o lado e vi um sorrisinho de orgulho.

Pra dirigir a mesma história. Simplesmente entregava a chave do carro e dizia: vamos! Aprendi a dirigir com uns 11 anos por estradinhas de chão e pequenos carreiros. Não é de admirar que aos 17 anos, sem carteira de habilitação, ele confiou o volante a mim numa viagem de 1.700 km, entre Cascavel a Posse, cidade goiana que o abrigou quando foi embora do Paraná e onde repousa sua incompreensível eternidade.

De todas as coisas que aprendi com “seo” Sebaldo, uma é especial: não ter medo. Única filha mulher, não me poupou de nada. E, contrariando minha mãe que insistia nos cursinhos de tricô e crochê, ele me encorajava a enfrentar o mundo. “Erga a cabeça o suficiente para enxergar o horizonte e siga com humildade. Não muita, para não parecer submissão. Nem pouca, para não parecer arrogância”. Palavras suas. De repente, deu uma saudade...
 
 

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