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PENSATA

Muitas lives, pouca life!

Publicado em: 19/06/2020

“Não se torne íntimo demais dos outros. Nem permita que se tornem de você”
Baltasar Gracián

Tem palavra que me dá arrepio! Live é uma delas. Palavra cansada. E não é de agora. Agora só piorou. O surto de lives durante a quarentena é algo para se pensar. Tem live pra tudo. Tem live pra todos. Tem a live do café da manhã, do almoço, do jantar, da madrugada e em todos os intervalos, live e mais live! Uma competindo com a outra.

Agora, tem olhos pra tanta live? Não creio. A transmissão em tempo real está banalizada. É muita discussão, muito conselho, muita autoajuda, muita dica e, claro, muito blábláblá. É o chamado fenômeno do falatório que, na visão de Heidegger, é o discurso cotidiano de repetição vazia e sem nexo. Falar, falar e não dizer nada. 

Esta repetição quando não nos apropriamos originariamente das coisas, explica, nos conduz à inautenticidade da fala e da compreensão. Assim, somos levados por um modo “impessoal, impróprio e inautêntico de ser”. Como tudo na vida, há exceções que, infelizmente, se perdem no meio de tanta patetice e, em alguns casos, pieguice.

Se antes já havia um excesso de tela, agora, durante a quarentena, nem se fale. A vida se virtualizou de tal maneira que, em certa medida, perdemos nossos sentimentos. Já não nos espantamos mais com o número de mortos pela Covid. Não nos espantamos com o aumento dos feminicídios, com as mortes no trânsito, com os assassinatos. 

Em meio a este caos, a tela segue nos engolindo. Transmitir a própria vida como um BBB particular tornou-se mais importante do que viver. Aliás, estamos vivendo um só fazendo lifes? 
 

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