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O juiz que matou a Beca

Não tínhamos muito naquela época. O suficiente para viver. Comida na mesa, uma muda de roupa para sair, uniforme pra escola e alguns trapos para o dia a dia. Os trapos eram os preferidos. Mal engolíamos a comida, fazíamos as tarefas rotineiras e saíamos mundo afora. Ou melhor, campo afora.

Liberdade era o nosso maior bem. As rédeas eram soltas, mas sabíamos como e onde trotear. Meu pai não vacilava com aquela molecada. Uns dez no terreiro. Tinha piá às pencas. E menina também: eu. A regra era uma só pra todos, sem distinção de sexo, raça e credo: estudo, trabalho, brincadeira e trabalho novamente! Sem mimimi.

Cresci no meio desta molecada, anoitecendo nos açudes, caçando vagalumes, jogando “paleta”, trepando em árvores, rolando pedra morro abaixo, fugindo do banho, passando Neocid na cabeça e, bem do nosso tipo, levando tombo de cavalo! Minha casa era o paradeiro da gurizada cabeça de vento. Com maestria, meus pais doutrinavam as pestes e até que saiu muita gente boa!

Tem uma figura em especial que merece um capítulo à parte. Meu primo. Preto era seu apelido (ninguém tinha nome). Baixinho, parrudo e, igualmente, traquina, eis que um dia chega na varanda de casa aos prantos: “Tio, matei a Beca”. O alvoroço foi grande. Corre-corre, chororô e espanto: ele tinha acabado de matar a nossa melhor vaca leiteira. Beca, a pobre vaca, tropeçou num buraco ao ser laçada pelo “vaqueiro mirim”, torceu o pescoço e bateu as botas!

A fatalidade foi a redenção de Preto que, ao ver sua inabilidade para as coisas da roça, estudou mais e mais e hoje é juiz. Não tem mais apelido. Agora, é o doutor Sidnei Claudio Bueno. Vez em quando volta a ser Preto, volta a ser menino e sonha aquela doce liberdade!

*Em tempo: ele não fez aquela presepada sozinho. Meu irmão, que hoje cuida de ovelhas no céu, foi o mentor da fatídica ideia. Quem sabe tinha lá seus (des) propósitos!

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