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A maldição do Bombril

E me diz que está faltando o gás,
O arroz e o café
O açúcar e o feijão
Sal, pimenta malagueta
Bombril, rabanete, jiló e sabão

*Lista de compras, Amado Batista

 

Cresci vendo as mulheres da minha geração “areando” panela. Com Bombril, é claro! Deus me livre se as panelas não servissem de espelho. Era um atestado de preguiça e um passo para o apocalipse feminino: a solteirice eterna. Afinal, como diziam por lá, “mulher relaxada nem o diabo gosta!”.


Distraída como sempre e mais interessada no voo dos passarinhos do que em qualquer outra coisa, vivia levando umas broncas da minha mãe por conta das panelas foscas. “As filhas da Bia aream direito. Você não. Quanta preguiça!”, ralhava. 


Bia era uma baiana que morava num grotão perto da minha casa. Não nego. Gostava de ir lá assistir a “areação de panelas” na mina d´água. Algo mágico. Sem pressa. Quase um ritual. As meninas passavam horas e horas naquela função. As marmitas que iam pra roça reluziam de longe. Pareciam prata! 


Mas eu, na mais completa indolência, sonhava com a fada do Bombril. Ela nunca apareceu e ainda tratou de jogar uma maldição para o resto da minha vida, que nem mesmo o teflon, a cerâmica, o vidro e o inox conseguiram quebrar: se faltar Bombril lá em casa, acaba o mundo! 


É a força da marca setentona que penetrou tão fortemente na mente das mulheres que não há discurso feminista, nem tecnologia espacial no paneleiro, capaz de tirar a tal lã de aço da lista de supermercado! E, viva o Bombril!

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