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Cavalo de bêbado

“Sexta-feira é o dia em que a virtude prevarica”
Nelson Rodrigues


O cavalo não tinha nome, mas sabia seu encargo. O bêbado tinha. Era Jorjão. Lavrador, figura simplória, de pouca prosa e nenhuma malícia. Toda sexta-feira, Jorjão subia a serra troteando no seu gateado. Aprumado num paletó de tergal, passava ao longe, apressado, para chegar logo ao seu santuário: a bodega.

A desculpa era sempre a mesma. Levar arroz para o “munho” (moinho) e comprar mistura para a semana. Mal descia do cavalo, Jorjão se perdia na cachaça. Pobre homem. O dinheirinho da roçada ia todo em pinga. Terminada a noitada, saía de fininho. 

Montar no cavalo era outra história. Tentava uma vez. Duas. Três. Caía. Teimava até conseguir. Noite escura, lá vinha Jorjão despido de qualquer vaidade, balançando como um pêndulo em pequenos carreiros no lombo do animal. Em suas primeiras proezas, a vizinhança ficava em polvorosa: “Vai se arrebentar”, diziam uns. “Mais um defunto amanhã”, diziam outros.

Que nada! Mal sabiam eles que o cavalo do bebum era mágico. Sabia o caminho de cor e salteado, passava ao lado dos mata-burros, descia desfiladeiros com maestria e entregava o “patrão” são e salvo pra dona Maria. Sem arroz, sem mistura, sem um centavo no bolso e ainda zonzo da cabeça, rompia a manhã no roçado. Afinal, no domingo tinha missa e, com sorte, seria perdoado!  Mas quando se via, por maldição do tempo, já era sexta-feira de novo!

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