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O baú de tia Lourdes

“O tempo tem uma forma maravilhosa de nos mostrar o que realmente importa.”
Caio Fernando Abreu

Tia Lourdes era um ser quase invisível. Sem nenhuma ambição, nunca deslumbrou nada além de seu pequeno mundo. Sua paciência até os últimos suspiros era de alguém que veio ao mundo numa época errada. Ninguém compreendia tanta indolência. Tia Lourdes não tinha pressa. Servia-se do tempo como quem toma uma xícara de café quente. 

Professorinha de interior, no tempo das escolas multisseriadas, alfabetizou muita gente. Caboclos, roceiros, bóias-frias, crianças, adultos, brancos, negros, índios, mulatos. Todos cabiam na escolinha de madeira bruta e no coração dela.
Seu jeito especial de ensinar envolvia até encapar os cadernos surrados com saquinho de arroz e desenhos de abertura de capa feitos por ela mesma. E nisso era boa! Desenhava como ninguém. E bordava como ninguém! Volta e meia chamava a gente para ver seu enxoval, guardado a sete chaves num baú.  Era tanta delicadeza que nem o forte cheiro de naftalina afastava nossos olhares curiosos e fantasiosos.

Na verdade, o baú escondia um sonho nunca realizado. Talvez encontrar um “príncipe” que merecesse tamanho esmero. Nunca encontrou. Morreu precocemente sem usar uma peça sequer. Por isso mesmo e, sem nenhuma culpa, não guardo nada para uma ocasião especial. Manchar a melhor toalha branca rendada com molho de tomate significa que estamos vivos o suficiente para compartilhar bons momentos! No meu baú não tem nada... aliás, nem tenho baú!

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