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O que aprendi com Xanda

“A minha consciência tem mais peso pra mim do que a opinião do mundo inteiro”
Cícero


Alexandrina. Pela pobreza e miséria, um nome pomposo reduzido a “Xanda”. Cresci no terreiro de Xanda. Fugia de casa para me misturar à criançada. Neno, Sirlei, Marina, Hércules, Adélio, Ademir e o aleijadinho sem nome. Bicho de pé, carrapato, piolho, furúnculo eram coisas comuns na nossa infância. E Xanda, a personagem mais simplória e universal que já conheci. 

Mulher de muitos filhos e marido bebum, levava uma vida de cão. Casa de pau a pique, chão batido e cama de taipa. Três ou quatro vira-latas no terreiro. Uns trapos pendurados na cerca. Sabão de soda na mina d´água. Chaleira piando no braseiro e um fumacê o dia todo. Mas Xanda era especial. 

Nunca, em toda a minha vida, saí de seu casebre sem comer uma bolacha estorricada na chapa do fogão e um café aguado. Ela fazia questão de oferecer o seu banquete. Sem cerimônia alguma. Era o melhor que tinha. Batia a massa com as mãos calejadas e unhas cheias de terra. Ninguém reparava. O amor era tão grande que a “bolacha de pedra” descia como um manjar.

Mas o que mais me impressionava era sua gratidão. Num naco de chão cedido por meus pais, plantava para alimentar as crianças, criava seus porcos e galinhas.  Daquilo vivia. Uma ajudinha aqui. Outra ali. Ia tocando. Vez por outra, matava um porco e, era sagrado, mandava sem culpa, um pernil lá pra casa. 

Com este gesto, Xanda, a lavradora analfabeta, alcançava a plenitudade, compartilhando o pouco que tinha. Por que ela mandava? Afinal, ninguém ia ficar sabendo da morte do pobre animal. Mas ela sabia. E isso bastava. Às vezes, eu me perguntava se ela era feliz. Hoje tenho certeza que era! 

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