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Trilhos sem rumo

O resultado do desastre é que hoje temos 1,7 milhão de quilômetros de rodovias que transportam 96% dos passageiros e 63% do transporte nacional de cargas

 

A última greve dos caminhoneiros nos mostrou quão fácil é transformar nosso país numa Venezuela em dez dias. A utilização quase exclusiva do transporte rodoviário para nosso abastecimento expôs a dependência do país neste modal e certamente não é o preço do frete que reduzirá as consequências de uma má escolha dos nossos governantes, há quase 75 anos.

Os carros e os caminhões ganharam impulso no Brasil a partir de 1945, após a segunda guerra mundial, quando houve uma grande sobra de caminhões e motores maciçamente fabricados para abastecer as tropas dos Estados Unidos.

Após a guerra, os americanos pressionaram os mercados a adotar seus produtos, financiando a importação de seus veículos e, posteriormente, a instalação de suas fábricas. O Brasil comprou a ideia e logo a construção de rodovias passou a ser a prioridade dos governantes. Abrir rodovias virou sinônimo de investimento em infraestrutura e bom governo. A renovação e a manutenção da malha ferroviária foram gradativamente sendo esquecidas.

O resultado do desastre é que hoje temos 1,7 milhão de quilômetros de rodovias que transportam 96% dos passageiros e 63% do transporte nacional de cargas. Rodovias estas que, segundo o DNIT, contam com pavimentação em apenas 13% delas, ou 221.820 quilômetros. O restante, 87% das rodovias não tem qualquer tipo de pavimentação.

Já dos 28.218 quilômetros da malha ferroviária, 8,6 mil km, o equivalente a 31%, estão completamente abandonados. O modal ferroviário conta com menos de 21% da carga transportada, apesar de o frete rodoviário, em alguns casos, custar o dobro do ferroviário. 

Se em vez de priorizar o asfalto tivéssemos investido em trilhos, a atmosfera e o ambiente também sairiam beneficiados. Com menos trânsito nas grandes cidades, o ar seria mais limpo. O transporte rodoviário é responsável por cerca de 90% do consumo de combustíveis derivados do petróleo em todo o mundo e por cerca de 30% do total de partículas de CO2 lançadas na atmosfera. 

É o preço que pagamos por uma escolha errada feita há décadas.

 

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1 COMENTÁRIO(S)

De pleno acordo, com o artigo. Sou do tempo (na minha infância) das estradas de ferro, transportando pessoas, animais e outras cargas, com a maior das eficiências... Nunca é tarde para reconhecer o erro e investir na diversificação dos meios de transporte, nesse Brasil imenso, que tem espaço para todo mundo...
comentado por Antonio de Jesus em 23/08/2018