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Notas sobre a psicologia das teorias da conspiração

Publicado em: 06/04/2020

Falando em geral, o que as teorias da conspiração fazem é atribuir as causas de eventos significativos a um enredo de intrigas entre atores poderosos.  Elas estiveram sempre por aí, mas ressurgem com toda força em tempos de incerteza, risco e ansiedade.

Aliadas aos novos recursos para disseminar conteúdo falso nas redes, certas teorias conseguiram arrastar a opinião pública e até mesmo prejudicar o desempenho de importantes índices de saúde.

Não só no jornalismo e nas letras, como também na literatura acadêmica, descobrimos uma série de estudos sobre esse fenômeno.  O professor Steven Taylor resumiu, recentemente, os resultados num capítulo do seu livro  The Psychology of Pandemics. Preparing for the Next Global Outbreak of Infectious Disease - A Psicologia das Pandemias. Preparando-se para o Próximo Surto Global de Doenças Infecciosas -. O mero fato de este tema tornar-se objeto de diferentes campos científicos, já é um sinal do tipo de penetração e influência, que as teorias da conspiração alcançaram em nossa cultura.

Quando envolvem temas médicos, elas têm um apelo especial para as pessoas. O professor Steven Taylor cita exemplos da história recente aliados a dados estatísticos, para demonstrar o que qualquer um pode observar nos seus próprios grupos de WhatsApp.  Não surpreende que, no meio da enxurrada de desejos digitais disponíveis na palma da mão, encontram-se também abundantes teorias da conspiração. Para um velho cético não deixa de ser intrigante a obstinação cega envolvida nestas crenças, observável em pessoas de diferentes classes, profissões e níveis educacionais. Não é à toa que, para alguns pesquisadores, a crença em explicações desse tipo é um fenômeno humano universal. 

Quase todas as teorias conspiratórias consistem em ser uma oposição às versões oficiais. Elas simplificam o quadro para apresentar uma explicação simples de uma situação complexa, rapidamente nos contam por que algo aconteceu, quem se beneficiou e quem devemos culpar. Normalmente, elas se apresentam como uma espécie de revelação de uma verdade que os conspiradores querem a todo preço esconder. Assim, arranjam meios de responder aos críticos, acusando-os de fazer parte da armação geral.

Notem bem as teorias conspiratórias que aparecem na sua timeline ou WhatsApp. Elas não têm algumas características comuns? Procuram mostrar que estão baseadas em fatos e dados confiáveis. Esforçam-se por dar uma roupagem “científica” ou “factual” aos argumentos (“Pesquisa da USP comprova que…”). Apesar disso, são exemplarmente vagas e imprecisas, enquanto o discurso científico autêntico é descritivo, detalhado e específico. Teorias conspiratórias têm uma natureza contestadora, sempre recheadas de questões retóricas jogadas contra as mentiras que dizem desmascarar. 

Segundo Taylor, as pessoas que acreditam em uma teoria da conspiração tendem a acreditar em outras.  Por exemplo, um indivíduo que acreditou que o Zika vírus não passava de uma criação acidental de testes com mosquitos modificados para combater a dengue, tende a acreditar, mais tarde, que durante a gripe suína, terroristas estavam usando mexicanos infectados como armas biológicas migratórias contra os Estados Unidos (ambos exemplos retirados do livro do professor Taylor). O que motiva alguém a acreditar nisso? Algumas pessoas estão preocupadas com sua segurança e saúde (motivações existenciais), outras com sua imagem pública, persona ou posição num grupo (motivações sociais).  Estudiosos também procuraram determinar quais são os fatores psicológicos envolvidos nessas crenças. Que tipo de mentalidade vai ao encontro das crenças conspiratórias? O professor Taylor resume  alguns pontos que mostram como a tendência em acreditar em teorias da conspiração geralmente se correlaciona com:

a.    Desconfiança, pensamento mágico e crenças no paranormal;
b.    Narcisismo (ou seja, uma percepção distorcida e exagerada de si mesmo, que requer validação) e o desejo de ser especial, que se manifesta na ideia de estar em posse de um conhecimento único ou  decisivo sobre um tema relevante.
c.    Preocupações sobre a saúde e a morte, sobretudo em pessoas crentes em conspirações médicas.
d.    Uma série de fatores de aprendizagem, que se relacionam com a baixa capacidade de analisar e interpretar conteúdos variados.
e.    Rejeição cega do método científico em favor da especulação pseudocientífica.

As teorias da conspiração têm um apelo especial para pessoas que querem obter informações precisas e construir uma interpretação pessoal sobre uma questão importante, mas não têm as ferramentas cognitivas para tanto. Além disso, elas podem funcionar como pílulas de autoestima para os que acreditam estar em posse de um conhecimento especial e decisivo.

Elas são mais um fenômeno viral na sociedade conectada em que vivemos. Outro meio para os fantasmas do fanatismo, da ignorância e da superstição aparecem na forma de conteúdo digital distribuído por robôs. A defesa mais efetiva contra seus malefícios continua sendo: pensar.

Pensemos, pois.

Vinicius Valero Pereira é doutorando em Filosofia pela Unioeste.
Steven Taylor. The Psychology of Pandemics. Preparing for the Next Global Outbreak of Infectious Disease. Cambridge Scholars Publishing: Newcastle, 2019.
 

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