Matérias

Edição 123
Entrevista

Natureza de explicador!

com Clóvis de Barros Filho

Texto Rejane Martins Pires
Foto(s) Kássia Beltrame


Aos 52 anos de idade, enxergando apenas 14%, com algumas dores lombares e bom humor incorrigível, o professor Clóvis de Barros Filho, doutor em ciências da comunicação pela Escola de Comunicações e Artes da USP, apresenta-se como um “explicador”. Durante sua palestra na abertura da XVI Jornada Científica da Univel, faz um paralelo com quatro grandes filósofos - Epicteto, Platão, Espinoza e Aristóteles – para falar da importância de usar a vida para buscar a excelência, o pleno desabrochar da natureza de cada indivíduo.

Do pensamento de Epicteto, sábio romano, ele traduziu o ser humano em dois tipos: os empreendedores, que embora acreditem no acaso, gastam energia em busca do que desejam, e os lamentadores, que passam a vida lamentando a falta de sorte e, acovardados, não fazem nada. Entra aí o papel da educação no sentido de capacitar as pessoas a assumirem as rédeas da vida. Sobre a felicidade, foi objetivo: está na caminhada, que compreende também o trabalho. “É durante o trabalho que a natureza de cada um de nós pode permitir a construção de um mundo menos injusto e de uma sociedade mais honesta”, ressaltou, reafirmando que é preciso manter a potência sempre em alta, afinal somos energia! 

*Nesta entrevista, fragmentos da coletiva para a imprensa realizada durante a XVI Jornada Científica da Univel pelas jornalistas Bethania Davies (O Paraná), Laís Laíny (Catve) e Rejane Martins Pires (Aldeia). As fotos são de Kássia Beltrame


Qual o desafio para os jornalistas diante desta nova tendência de rede social? Como se reinventar e garantir a credibilidade?

Acredito que trabalhando bem. E, trabalhando bem, significa se aproximar dos fatos com competência, relatar as ocorrências com clareza, interpretar a realidade com sabedoria e riqueza, opinar sobre a realidade com competência e com recursos intelectivos, checando os fatos de forma profissional. Fazendo isso, o bom jornalista se diferencia do amador.


Existe ética no Brasil? 

Nunca houve tanta preocupação com isso como agora. As instituições tem se fortalecido e a população nunca esteve tão atenta ao respeito, aos princípios e aos valores de tal maneira que este é o grande passo para que possamos virar a página e construirmos uma sociedade melhor e mais ética. Acredito mesmo que ao longo da nossa história tenhamos nos habituado muito com atitudes que são lesivas ao coletivo, agressivas à dignidade, desonestas, mas acredito firmemente que seja possível, juntos, construirmos uma sociedade onde a confiança se restabeleça.


O ódio nos tempos atuais é visceral. De onde vem tanto ódio?

Eu acredito que isso só pode ser explicado historicamente, não creio que tenha surgido no coração das pessoas de ontem para hoje. Portanto, as causas são muitas e as articulações e combinações do mercado político não facilitaram muito para desarticular esta hostilidade de tal maneira que, combinando convicções contraditórias, perspectivas opostas e um ainda cenário de enfrentamento explícito, em que nenhuma oferta do mercado político centrista tenha vingado, ajudou muito para que este tipo de exacerbação do aguerrimento e da hostilidade tenha se dado.


Nossa liberdade está ameaçada? Ou há um exagero nisso?

Eu sempre acho que é preciso que os eventuais vencedores, sejam uns ou outros, tenham a ocasião de governar e, a partir daí poderemos ver o quanto são respeitadores das instituições democráticas. Acredito que a sociedade estará preocupada com o fortalecimento das instituições e o respeito às regras. Tenho certeza que, no final das contas, quando acabar toda esta luta eleitoral, já com os ânimos apaziguados, tenham consciência de que, para governar com sabedoria, terão que respeitar as instituições, as normas, as regras e garantir todas as liberdades previstas na Constituição.


Como analisa o cenário das fake news?

Hoje mesmo me perguntaram, ora se este lado fabrica notícias falsas, o outro lado também fabrica. E aí? Eu sempre tenho a oportunidade de dizer que tudo isso parte de uma premissa: é preciso ganhar a qualquer preço. Mas, eu sempre prefiro acreditar que é preciso agir de maneira a não se envergonhar depois do que se fez, mesmo que isso custe a vitória em algum momento. É preciso não se envergonhar de ter feito isso ou aquilo diante dos familiares, das pessoas que mais amamos e nos admiram. É preciso pensar sempre em ser um modelo de dignidade e honestidade para os nossos filhos. 


Quais os prejuízos deste falseamento da realidade?

Eu estou convencido de que o falseamento da realidade através de uma construção discursiva mentirosa não é lesiva para suas vítimas mais imediatas, mas é evidentemente desnorteadora de todos. Na hora em que a mentira se estabelece como norma, a primeira consequência mais gritante é que nem mesmo mentir adianta mais, pois na hora em que supomos que tudo pode ser mentira, até mesmo as iniciativas mentirosas perdem a sua eficácia. Por isso, eu acredito que todo enfrentamento por mais acirrado que seja, deve respeitar o mínimo de decência moral de ambas as partes. Naturalmente nem sempre isso acontece.
 

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