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Edição 124
ACIC MULHER

O despertar de Mari

Com talento e coragem, Marizete Cardoso desapegou-se de sua história de perdas e frustrações para empreender e impactar sua comunidade

Texto Rejane Martins Pires
Foto(s) Bruna Scheidt

Publicado em 23/01/2019


O que você diria de uma mulher que teve uma onça de estimação na infância, que perdeu o pai assassinado e que deixou de viver um conto de fadas para recomeçar a vida com uma mudança em cima de um caminhão? Esta é Marizete Cardoso, 48 anos, empresária, corretora de imóveis, presidente do Núcleo Região Norte da Acic e conselheira da Sicredi Vanguarda.

Se o currículo parece valoroso, imagine a história até chegar aí. Muito antes dessa ascensão vigorosa, Mari passou poucas e boas. A começar pela mudança dos pais de São Miguel do Iguaçu, onde nasceu, para os confins do Mato Grosso, há 43 anos. Lá, na terra prometida, nada nascia e, para sustentar a família, o pai improvisou um serviço de reboque para puxar carros e caminhões atolados na BR 364. 

Distante de tudo, o pai montou também um restaurante e um hotel às margens da rodovia.  “Me criei ali naquela vida, longe de tudo. O vizinho mais próximo ficava a 100 km”, conta Mari, para quem a infância foi das melhores, cercada de bichos de toda espécie, como a onça de estimação que virou lenda em Cuiabá. Isso aos oito anos. Após o assassinato do pai, a mãe juntou os quatro filhos e migrou para a capital. Lá se foi Mari, com a onça à tiracolo. “Virei assunto no bairro e todo mundo ia lá em casa ver a tal onça”, lembra.

Até o dia em que a mãe consegue resolver as pendências de terra e muda-se para Dourados. Nova vida aos 14 anos. Na pequena cidade, trabalhava no mercadinho da família, estudava e sonhava com uma carreira artística. Ela queria ser bailarina. Os projetos estavam indo bem. Com um dos irmãos morando em Cascavel, resolvem vir para o Paraná. “Aqui, perdemos tudo de vez. Minha mãe comprou uma casa e foi buscar a mudança. Quando chegou, já havia sido vendido para outro. Ficamos com a mudança em cima do caminhão, sem rumo”.

Começa então a jornada da jovem por trabalho e, consequentemente, a desistência de alguns sonhos. Até tentou. Sem dinheiro para pagar pelas aulas de balé, foi ministrar jazz, modalidade que fazia em Dourados. “Mas aí precisei trabalhar e complicou”. O trabalho na Rádio Cidade exigia presença também em eventos e, para ganhar uns troquinhos, desfilava aos fins de semana. Da Rádio Cidade foi para a Rádio Táxi e sua voz era ouvida por milhares de passageiros.

Casada em 1989 e, após um ano de experiência frustrada em Francisco Beltrão, Mari e o esposo Valdair voltam para Cascavel. Grávida do primeiro filho, Wellington, virou dona de casa. Aí veio o segundo filho, Vinicius, e a comodidade tomou conta. Um certo dia, durante uma visita, a irmã dá-lhe um puxão de orelha. “Nunca imaginei você dona de casa, sempre tão batalhadora!”, disse. “Aquilo mexeu comigo, refleti muito e concordei que precisava voltar a ser a Mari”.


VOO SOLO

Empreender com duas crianças pequenas exigiu esforço, mas ela foi adiante. Em sociedade, montou uma loja de assistência técnica e locação de máquinas. Numa certa ocasião, quando mais precisou do sócio, ele sumiu. “Só mandei o aviso para vir retirar a parte dele e continuei o negócio. Aí me vi sozinha no meio de parafusos e uma parafernália de máquinas”.

Sem poder recuar, seguiu sua intuição e transformou uma portinha – na antiga rodoviária – numa loja estrategicamente montada no Bairro Floresta. “Me descobri uma empreendedora e isso aflorou em mim de tal maneira que não perdia uma oportunidade”, frisa. Quando um amigo lançou um loteamento e pediu para Mari vender, ela não pensou duas vezes. Antes mesmo de ele abrir para a venda, ela comercializou 22 terrenos. Nascia a corretora, com Creci e tudo. “Fiz o curso de dois anos em seis meses”, orgulha-se.


REPRESENTAÇÃO FEMININA

Com o crescimento da Região Norte, inevitavelmente, Mari foi se destacando como liderança. “O associativismo foi aflorando e minha visão de coletivo mudando também”. Como conselheira do Sicredi, instituição financeira que ela ajudou a levar para o bairro, e presidente do Núcleo Região Norte da Acic, tem desbravado outras fronteiras também: a participação feminina. “Falta muito ainda. Às vezes me sinto sozinha nestas representações, mas estou sempre incentivando outras mulheres”.

Formada em Serviço Social e em Marketing Cooperativo, ela se angustia com o que chama de “timidez e medo” nas mulheres. “Não se trata apenas de incentivar as mulheres a montar um negócio, mas de mostrar que elas são capazes de realizar seus sonhos” diz. “Escuto muitas histórias e percebo que há muita submissão ainda. Eu procuro ser um espelho, pois dei meu grito de liberdade”, conclui.

Marizete Cardoso: “Basicamente, em todas as entidades que participo, quero inspirar outras mulheres”
 

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6 COMENTÁRIO(S)

Parabéns menina linda. Você é merecedora de todo sucesso !!!! Deus te abençoe e cuide sempre 😍
comentado por Arlete Martins Sosnowski em 25/01/2019
Parabéns menina linda. Você é merecedora de todo sucesso !!!! Deus te abençoe e cuide sempre 😍
comentado por Arlete Martins Sosnowski em 25/01/2019
Parabéns por toda essa beleza. De fato és um guerreira, que conquistou cada espaço com bravura. Amei ouvir você e te conhecer melhor. Continue sendo a Mari estilo "Onça". Bjão querida!!!!
comentado por Rejanete Beatris Schons em 25/01/2019
Mari voce realmente é uma guerreira te conheci na fase dona do lar, mais ate como dona de casa voce se destacava, e ainda conseguia ser uma vizinha top, nossas familias tomaram rumos diferentes mais sem deixar de vivenciar momentos felizes juntos. Felicidades e muito mais realizaçoes pra você o Valdair e seus filhos.
comentado por Kelly Cristina Moreira chervinski em 25/01/2019
Mari voce realmente é uma guerreira te conheci na fase dona do lar, mais ate como dona de casa voce se destacava, e ainda conseguia ser uma vizinha top, nossas familias tomaram rumos diferentes mais sem deixar de vivenciar momentos felizes juntos. Felicidades e muito mais realizaçoes pra você o Valdair e seus filhos.
comentado por Kelly Cristina Moreira chervinski em 25/01/2019
Linda história parabéns pela visão cooperativa e mais ainda por ser exemplo de mulher batalhadora!
comentado por Cássia Salvalaggio em 23/01/2019
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