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Edição 124
VIDA

Opa!

História nunca é demais. E quando a história está presente nas paredes, nos móveis, nos objetos de decoração e em cada espaço do lar, tudo é ainda mais incrível

Texto Rejane Martins Pires
Foto(s) Bruna Scheidt

Publicado em 25/01/2019


Imagine uma casa conceitual, feita de materiais “catados” por aí. Paredes com madeira de demolição, bancada de tijolo aparente, janelas de época e assoalho de ipê. Agora, imagine esta mesma casa sem televisão e cheia de livros. No lugar de um rack, duas caixas de hidrante servem de biblioteca. A mesa de centro idem. No sótão, cantinho da leitura. E, no quarto das crianças, livros e mais livros. 

Pode parecer fantasia, mas esta casa existe. E, bem pertinho: em Marechal Cândido Rondon. É o “lar encantado” da família de Zaqueu, Kaci, Maria e Miguel, mas poderia facilmente ser a morada de fadas e duendes. Tudo ali tem cheirinho de conto de fadas e não há nada, nada mesmo, que não faça sentido para a família.

Se um quadro está na parede, há um valor simbólico muito maior que uma simples decoração. Se um arranjo está no teto, há uma lembrança. Se o tijolo está na parede, há uma história. Mas não pense que as coisas por lá são um amontoado de cacareco. Nada disso. A casa é um mimo e foi projetada com carinho pelo casal.

Eles queriam uma casa conceitual, ao estilo da família. “A ideia sempre foi fugir do consumo e dos modismos. Nós queríamos uma casa nossa, com personalidade, não apenas um show room onde qualquer um mora”, diz Zaqueu. Pensar o projeto foi fácil. “Difícil foi encontrar alguém para executar, seguindo à risca o nosso desenho”, conta. 
 

A casa, que começou com previsão de 60 dias, passou para 90 e só foi concluída com eles já morando, despertou muita curiosidade. Entre tantos burburinhos o mais recorrente era a falta de dinheiro para fazer uma casa convencional, por isso a opção pelo projeto alternativo. “Quando na verdade, só queríamos algo que contasse a nossa história e refletisse nosso jeito de ser”, diz Zaqueu.  

Só para situar, a casinha da família fica no terreno em que Kaci nasceu e cresceu. “Aqui está a minha raiz”, diz ela, lembrando que o tijolo (sem acabamento) colocado de propósito na bancada da cozinha era do bar de sua mãe. “As crianças amam todas estas histórias e fazemos questão de contar tudo. É uma forma de eles valorizarem o lar e a família que tem e, principalmente, quem são”, acrescenta Zaqueu.


E o opa?

Se a casa é diferente, imagine o casal. Basta dizer que eles se conheceram com um “opa!”. Isso mesmo. Assim começou o namoro que dura 14 anos. Ambos moravam a poucas quadras um do outro, mas não se conheciam. Numa bela noite de verão, após o trabalho, Kaci estava descendo a rua de bicicleta, quando ouviu um “opa!” do outro lado da rua. Era Zaqueu. Um pobre vendedor de tapetes, barbudo e sem um tostão no bolso.

Mesmo assim, a jovem parou e foi conversar. Sentaram na varanda da casa e lá ficaram, proseando e tomando um sorvete derretido. No outro dia, eis que ela volta procurando um tal de Maxwell. “Aqui não tem ninguém com este nome”, disse a sobrinha. “Hummm, deve ser o Pelé, ele já volta”, repetiu. 


Casquinha de baunilha

“Maxwell, Pelé... que historinha mais estranha!”, pensou Kaci. Mesmo assim esperou. Lá pelas tantas aparece o rapaz de cabelo aparado, barba feita e sorriso largo. Realmente, não tinha nenhum Maxwell. Era uma brincadeira. Zaqueu achou que a jovem nunca mais iria voltar e inventou um nome. Como voltou, convidou-a para um sorvete. Detalhe: ele só tinha dinheiro para uma casquinha. “E o pior, eu detestava baunilha e ela só pedia esse”, brinca. 

De sorvete em sorvete, veio o pedido de casamento. “Você topa?”, perguntou Zaqueu. “Você está louco, não temos um centavo no bolso, como vamos casar?”, exclamou Kaci. Num passe de mágica, afinal eles são mágicos, tudo aconteceu. Zaqueu fechou uma grande encomenda de tapetes com uma cooperativa local, ganhou uma recepção para os convidados do casamento e, na correria para improvisar um vestido de noiva, eis que uma empresa doa tudo, do vestido à sandália. 

Milagre? Nenhum. Zaqueu apenas colheu o que vinha plantando há anos. As doações vieram de gente que sabia de seus valores pessoais e de seu esforço e o reconhecia por isso. “Eu acredito na lei do retorno. Se você plantar, você vai colher. É simples. Se você plantar pequi, vai colher pequi!”, filosofa, ensinando aos filhos. Outra lição diária por lá é gratidão. “É preciso valorizar cada coisinha”, diz.


Livro para matar a fome

Quando criança, na panela chamuscando em cima do fogão, Zaqueu sabia o que encontrar: mandioca. Era o que tinha para o almoço. Um miserê total. Engolia aquilo a seco e corria para a biblioteca a duas quadras de casa. Lá sim matava a fome. Sumia entre os livros. “Li muito nesta época. Por conta de trabalho e sobrevivência, consegui terminar o ensino médio. Mas nunca parei de ler. Virou hábito”.
 
A pequena Maria seguindo os passos do pai: "Gosto de todos os livros"
 
Tanto é que os filhos se sobressaem na escola. Aos nove anos, Miguel já pesquisa sua futura profissão: paleontologia. Maria, por sua vez, não desgruda de seus livros. E não há um preferido. “Gosto de todos”, diz, recusando a escolher apenas “um” para a foto. Tudo isso, reflexo nítido de uma boa educação. “Educação esta que dá trabalho, que exige tempo, diálogo, olho no olho”, resume Zaqueu. “Aqui, temos hábitos diferentes. Jantamos, lemos muito, conversamos bastante e 21h30 todo mundo está dormindo”. Ah, tem wi-fi com horário limitado e um cafezinho da hora!


PEQUENAS LIÇÕES

“Muita gente não tem um lar, tem uma casa. Nós temos um lar”

“Minha casa é meu reino. Eu sou a soma de tudo o que vejo” 

“Eu paro e fico olhando para eles: tudo tão simples e uma felicidade imensa”

“Nunca gostei de TV. Sempre fui mais de entender as nuances do jornalismo e da informação pela leitura”

“Sempre vejo um potencial em alguma coisa. Coloco o olho numa peça catada e já mapeio”

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2 COMENTÁRIO(S)

LINDA A HISTÓRIA... DE MUITO SOFRIMENTO MAS TAMBÉM DE GRANDES ALEGRIAS DIGO ISSO PORQUE CONHEÇO ELES E A SUA HISTÓRIA TBEM PARABÉNS... VCS ESTÃO VENCENDO DIA APÓS DIAS...
comentado por Ezequiel de Souza em 26/01/2019
Amei a história ,embora conheça os personagens, não conhecia esses detalhes.Show!
comentado por Valdete em 25/01/2019