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Edição 125
Vida

Diego & Izaque

Casados há 13 anos, Diego Knebel e Izaque de Souza ensinam como o amor é maior que qualquer preconceito

Texto Rejane Martins Pires
Foto(s) Bruna Scheidt

Publicado em 14/03/2019


“Olá, este é Izaque, meu esposo!”. É assim que, costumeiramente, o empresário Diego Knebel apresenta seu marido, Izaque de Souza. E pronto. Juntos há 13 anos, eles fazem parte de um grupo que vive todas as singularidades existentes em qualquer relação homoafetiva. Não deveria, mas ainda têm seus enfrentamentos. O maior deles: preconceito. “Descontruir o preconceito é tão difícil quanto descontruir qualquer outro hábito”, diz Izaque.

Isso é fato. Escancarado há alguns anos, o preconceito passou a ser velado, assim como o preconceito racial o é. Sentimentos homofóbicos continuam latentes, na medida em que homossexuais são assassinados única e exclusivamente por suas orientações sexuais. E não pense que para Diego e Izaque o caminho foi fácil; mas, independentemente da opinião de terceiros, eles conseguiram ‘sobreviver´ sem validar o discurso da opressão e, mais, fazendo o que se propuseram a fazer.

 
Diego
Os primeiros enfrentamentos, naturalmente, na infância e adolescência. “Não tenho boas lembranças da infância. Foi uma fase de muito medo e insegurança. Aos sete anos eu percebia algo diferente, mas não sabia o que era. Na adolescência, me sentia totalmente fora do padrão”, conta Diego, hoje com 35.  Na pequena cidade de Medianeira, onde nasceu, as chacotas eram diárias e a dor do bullying sufocada. “Na pré-escola eu tinha vergonha de ir para o recreio. Eu era o diferente, o afastado. Ninguém percebeu isso em mim e ninguém veio me ajudar. Eu odiava recreio”.

Na quarta série, conta, as perseguições aumentaram e o termo “viadinho” soava como uma lança afiada dilacerando não o corpo, mas a alma. “Da 5ª à 8ª série, o bullying se acentuou e, para me destacar, me tornei um aluno aplicado, como uma espécie de compensação. Eu tinha que ser bom no que fazia”. Até os 18 anos viveu assim, numa espécie de gangorra emocional. “Era uma pessoa insegura, medrosa e com muitas dores”, reflete.

Quando se apaixonou pela primeira vez por um menino, isso aos 14 anos, o mundo virou de pernas pro ar. Mas passou. Aos 18 anos, numa paixão mais intensa, entrou em crise, foi para o fundo do poço e até pensou em suicídio. “Nesta época, conheci o espiritismo e recebi um bálsamo, coisa que o catolicismo não ajudou; aliás, me culpava ainda mais. Ciente de que eu não era um monstro, renasci para a vida”. 

Paralelo a isso, o empoderamento pela oratória. Aos 18 anos sagrou-se campeão paranaense de Oratória pela Junior Chamber International. “Ali eu descobri que poderia ter orgulho de mim e viver do jeitinho que eu era”. 

Assumida a homossexualidade para si, faltava assumir para os pais, o que aconteceu aos 22 anos, quando conheceu Izaque. A convivência em casa tornou-se carregada e, lá pelas tantas, Diego juntou suas tralhas – um colchão, duas cadeiras de praia, o computador e roupas – e veio para Cascavel. “O Izaque me ajudou muito. Comecei a viajar mais e ampliar minha visão de mundo e, tudo isso, fez o Diego de hoje”.

Formado em Administração de Empresas e sócio-proprietário da Kasulo Desenvolvimento Humano, Diego ainda tinha um receio. O mundo corporativo, em que ambos atuam, ainda representa desafio para os homossexuais.

“Tínhamos medo, sim, de que as portas se fechassem, mas aí refletimos muito e focamos no nosso trabalho. Somos contratados para gerar resultados e ponto final”. 

E, se na infância o medo era de perseguição, hoje é bem diferente. “Só tenho medo de ser medíocre, de passar pela vida sem construir nada, sem deixar um legado positivo. Este é o meu medo. Quero impactar muitas vidas ainda”, diz.


A FLUIDEZ DE IZAQUE
 
Izaque
Advogado e doutor em Educação pela Universidade Estadual de Maringá (UEM), Izaque de Souza usa o termo “fluido”. Contrário a ideia de binarismo, entende a sexualidade como algo em construção. “É algo que eu tenho muito bem definido para mim. Eu me aceito, eu me reconheço e eu me assumo. Agora, se você me pergunta como é assumir-se para o todo, ele ainda é uma construção”. 

Um exemplo claro disso é no âmbito familiar. Para os pais sexagenários, de outra geração, é importante que ele não diga explicitamente. “Eles ficariam desconfortáveis com esta situação. Mas, implicitamente, eles têm total certeza de como é a minha relação. Nossa situação na condição de casal é muito tranquila; então, algumas situações têm de ser descontruídas e reconstruídas naturalmente”.

O enfrentamento se dá de várias maneiras, explica, e, talvez, aquela que se dá de uma forma muito agressiva não é a melhor delas. “O processo de reconhecimento é um processo de alteridade”, ensina. “Numa sociedade que normaliza tudo, o ser diferente incomoda. Grande parte das pessoas enxerga o diferente como algo que transgride. Ninguém quer a transgressão”, reforça.

 
NEGRO E POBRE

Aos 41 anos, Izaque lembra que foi mais difícil assumir a negritude do que a orientação sexual. “Ser negro salta aos olhos. Me doeu mais, bem mais”, diz. “Eu queria ser aceito, mas não me enquadrava em grupo nenhum. Primeiro porque eu era negro num núcleo de pessoas não negras. Segundo, pela classe social e, terceiro, pela orientação sexual”. 

Em sua análise, a sexualidade incomoda, mas, com algumas exceções, há a opção de se esconder por trás de uma postura. “Para o negro não há esta possibilidade. Os espaços se fecham. Eu sou aquilo que eu sou e pelo fato de sê-lo eu não posso estar neste ou naquele lugar. As pessoas vulgarmente chamadas de afeminadas ou os andróginos enfrentam isso”.


MARIDO E SÓCIO

Com altos e baixos comuns a qualquer casal, a perenidade no relacionamento dos dois está mais ligada ao companheirismo, amor, cumplicidade. “Isso independe da escolha sexual. São valores que vêm antes do sexo”, explicam. 

Em casa, ambos têm um trato. A regra é não falar de trabalho. “É desafiador, mas é possível. Muitas vezes tem que respirar fundo”, diz Izaque, que concilia o emprego de consultor jurídico na Caixa com a sociedade na Kasulo. 

Com uma carga de horária de 80 horas por semana, sobra mesmo pouco tempo para rotinas domésticas. “Quando estamos em casa, os assuntos devem ser cachorro, cardápio da semana, viagem de férias, enfim, coisas leves”, complementa Diego, lembrando que na última crise de quase término (foram três), ele se perguntou se não estavam juntos por pressão social. “Parece engraçado, mas é isso mesmo. Todos os amigos acham o máximo ter um casal gay vivendo tanto tempo juntos”.

 “Assumir-se não é levantar bandeira. É simplesmente fechar os seus olhos e falar assim: eu me aceito. Se me aceito, não vou mudar nada no meu dia a dia por isso. Não preciso me esconder. Não preciso mudar minha rotina e deixar de fazer coisas por isso”

 
Diego e Izaque, juntos há 13 anos: companheirismo, amor e cumplicidade são valores que vêm antes do sexo

 

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5 COMENTÁRIO(S)

Fiquei impressionada com a história de vida dos dois... Parabéns pela determinação.. fiquei emocionada... Foi um prazer te conhecer no trabalho Diego..
comentado por Marcelli em 19/03/2019
Ao ler detalhes a respeito de pessoas que admiro, além do carinho, há muito a elas dedicado, sinto as lagrimas rolarem ao meu rosto, talvez pela satisfação em ser testemunha da força do amor no enfrentamento das inúmeras barreiras impostas pelo preconceito. Registro aqui a sensação de felicidade pela vitória do casal nessa caminhada de 13 anos, apesar de todas as pedras e tropeços encontrados pelo árduo caminho. Um grande beijo Di e Izaque.😍
comentado por Angela Barroso em 19/03/2019
São meus amigos. São pessoas dignas e maravilhosas. Eu amo, respeito e admiro muito. Bjubju da Jay.
comentado por Jaine sábio Pochmann em 19/03/2019
Eu e minha namorada, Bianca, tivemos o prazer de conhecer Izaque e Diego em uma viagem, na Argentina! Tenho certeza que será o início de uma grande amizade. São pessoas maravilhosas e estamos muito felizes por termos conhecidos eles! Parabéns e sucesso!!!!
comentado por Joster Barbosa em 15/03/2019
Isaque para mim é minha família é exemplo de dignidade e honradez, pessoa querida e com muito amor no coração, o Diego ter e traço em sua vida não pode ser diferente pois não estariam juntos se ele não fosse digno e honrado também, tive o prazer de co te ver os dois e digo q são pessoas de bem que eu gostaria que se eles tivessem tempo de conviver um pouco mais com eles, toda felicidade do mundo do ao casal. Bjs.
comentado por Silvia Regina em 15/03/2019