Matérias

Edição 126
Entrevista

A retidão de Mariana

Texto Rejane Martins Pires
Foto(s) Bruna Scheidt

Publicado em 02/04/2019


Quando a delegada Mariana Vieira entrou na polícia há dez anos, apenas 10% do quadro de delegados eram mulheres. Hoje, quase dobrou. Mesmo assim, dos 397 delegados, apenas 74 são mulheres. Agora, como primeira mulher a assumir a 15ª SDP de Cascavel, Mariana tem um grande desafio pela frente: implantar uma gestão horizontal e colaborativa numa área de atuação que abrange 22 municípios, mais de 523 mil habitantes e uma equipe de 130 pessoas. Passados dez anos da primeira entrevista que a Revista Aldeia fez com Mariana, trazemos uma nova reportagem. O que mudou? O que ela pensa? Qual sua angústia? Como conter a violência? Com a palavra, Mariana...

Primeira mulher a assumir o Comando da 15ª SDP? Isso assusta? Estar nesta posição não me assustou tanto, não teve um impacto tão grande como foi ter assumido a Delegacia de Homicídios. Naquela época, há cinco anos, foi mais impactante. Eu tinha passado por algumas delegacias pequenas, depois fiquei na Delegacia da Mulher e fui para a Delegacia de Homicídios, que tem um perfil mais operacional e é predominantemente ocupada por homens. Para o pessoal se acostumar com uma mulher ali, naquele espaço, demorou um pouco.

E qual o seu primeiro impacto aqui na 15ª SDP? Digamos que na Delegacia de Homicídios era um universo micro, um número menor de pessoas, que ao longo de cinco anos e meio as coisas já estavam consolidadas. Aqui, a primeira ação foi fazer um diagnóstico. Tem muita coisa para fazer, para organizar, para melhorar. Isso começa melhorando internamente. É um universo muito mais amplo, com tarefas não mais na linha de frente de investigação, mas na parte de coordenação e gestão. Foi uma surpresa ser chamada, mas estou entusiasmada.

A equipe é suficiente ou há déficit de funcionários? Sempre há déficit. São 22 municípios, uma população de mais de 523 mil habitantes e 130 servidores. Este número não é ideal, mas os policiais civis tem uma característica muito peculiar. Eles fazem isso por vocação. Fazem muito além do que prestaram concurso para fazer. Eles dão o sangue e isso acaba compensando este déficit. É claro, este esforço, muitas vezes, é sobre-humano.

O modelo de gestão será o mesmo? Ali na Delegacia de Homicídios sempre foi uma gestão horizontal e colaborativa, buscando fazer o nosso melhor para cada um dos casos que chegassem. Tínhamos a certeza de que o resultado era uma consequência do trabalho, ou seja, de seguir o processo. Esta é a ideia que pretendo trazer para cá. Discutir em conjunto e buscar a profissionalização e a excelência no trabalho policial. Nossa atividade fim é fazer com que o inquérito policial, vindo das investigações, chegue ao juiz e ao promotor de forma que eles possam fazer a parte deles, buscando a verdade. 

Mas o trabalho da polícia civil não se restringe a isso... Não. Tem o atendimento à pessoa que busca a delegacia como a última portinha que ela encontra aberta e isso tem que ser feito de forma satisfatória também, pois, muitas vezes, aquele atendimento vai fazer a diferença na vida da pessoa. 
 
Como alcançar esta profissionalização? Muito se fala e se cobra dos policiais, mas para fazer estas exigências é preciso oferecer condições mínimas. Vamos passar por algumas reorganizações internas e estruturais, coisas pequenas, mas de modo que o policial tenha dignidade no seu trabalho. Quanto melhor ele estiver, mais ele vai conseguir desenvolver seu trabalho.  Como fazer isso? Treinamento constante, seja em aspectos técnicos, aspectos de investigação e proficiência de tiro, além de conversas com os delegados titulares. Cada grupo de policiais estará sendo conduzido por um delegado de polícia, cuja responsabilidade será transmitir isso para sua equipe. 

Hoje, quais os crimes mais preocupantes? Como eu vejo Cascavel e região: temos uma proximidade com a fronteira, mas não estamos na linha de fronteira. Muitas vezes a gente tem o ônus e não tem o bônus de ser a fronteira. A partir desta nossa localização geográfica alguns crimes se tornam mais preocupantes. Esses crimes fomentam outras práticas criminosas, por exemplo, os grupos criminosos organizados, não necessariamente de facções criminosas, mas grupos que se articulam e se fortalecem, como o tráfico de drogas. Ao redor destes crimes orbitam inúmeras outras práticas. Tem que ter este combate com estratégia e inteligência para a gente talvez conseguir reflexos nos outros com estas ações indiretas. 

Quais medidas pretende adotar? Mapeamento de áreas críticas? Sim, este mapeamento já começou. A partir desta leitura vamos traçar diretrizes. Sempre tem espaço para evoluir. É nisso que eu acredito e foi por isso que eu aceitei este desafio. 

Que valores da sua vida você traz para dentro da delegacia? Eu acredito que existe um só caminho. O caminho reto. O que é certo é certo e o que é errado é errado. Em razão disso que eu estou aqui hoje. Isso eu devo aos meus pais. Eles me educaram assim e formei minha personalidade desta forma. 

Por que a polícia? Eu escolhi isso porque aqui nós temos condições de fazer a diferença na vida das pessoas. Eu sou idealista. A Mariana que você conversou anos atrás é a mesma. Fico feliz que eu não tenha perdido meus ideais num ambiente tão duro em que eu passei. E quando falo em fazer a diferença, pode ser no bom atendimento de quem procura a delegacia como último recurso e também numa investigação complexa de meses, com várias ferramentas de inteligência e várias equipe de trabalho. Eu fico muito grata pelo meu trabalho me proporcionar isso e, agora, poder expandir ainda mais. 

O que lhe angustia? Nestes primeiros dias o que tem me angustiado é a falta de tempo para fazer as coisas, colocar em prática todas as ideias. Mas eu procuro focar no meu plano de trabalho e na equipe que montei, tendo a certeza que vou fazer o melhor com estas pessoas. A ideia é seguir o plano. Seguindo isso, o resultado vem. Se ele não vier por qualquer outra circunstância, tenho consciência que fiz o melhor. Às vezes tem um desgaste, tem dias mais pesados que os outros, mas vamos respirar fundo e seguir. Amanhã é mais um dia de trabalho.

Existe crime perfeito? Vou falar da minha experiência. Sempre vai existir alguém procurando solucionar. Algum vestígio fica, basta você achar um fiozinho para puxar. Isso não significa que todos os crimes serão solucionados. Aí falando no aspecto literal do crime perfeito... 

O que sente quando consegue puxar o fio da meada? Eu esqueço das angústias, das noites sem dormir, dos desgastes, de todo aquele sacrifício pesado que foi uma investigação. Quando você chega no esclarecimento dela, aquilo se apaga. É a sensação de missão cumprida.

Este fio lhe perturba no meio da noite? Muito. Inúmeras vezes acordo no meio da madrugada, pego o celular e mando mensagem para alguém ou anoto para não esquecer. Apesar de eu seguir em busca deste equilíbrio entre o pessoal e o profissional não dá para dizer que eu consigo chegar em casa e desligar totalmente. 

Já “desmoronou” diante de algum caso? Teve um caso que por uma questão pessoal foi bem significativo. Durante um período da faculdade, fiz estágio no setor jurídico da Copel e o chefe do departamento era o Dr. Luiz Carlos Pasqualini. Em 2016, quando eu ainda estava na DH, fui chamada para um ocorrência num prédio na região central em que um morador atirou e matou duas pessoas. Quando cheguei e me deparei com o Dr. Pasqualini, foi muito difícil. Não consegui separar o pessoal do profissional por alguns instantes. Ele era realmente uma pessoa especial. 

Outros crimes... Sim, crimes que envolvem crianças sempre chocam. Também foi muito marcante algumas coisas que aconteceram durante a rebelião da PEC. Ali, vi a barbárie de que o ser humano é capaz. Se comportam como selvagens. Eu me dediquei muito com minha equipe naquela investigação, conversei com as pessoas que foram torturadas e aquilo mexeu muito comigo.

Você chora com frequência? Eu choro sem lágrimas. Se conseguisse chorar mais seria melhor. Tenho tentado buscar o equilíbrio nas orações que faço para mim, minha equipe e todos os envolvidos. 

Qual sua opinião sobre a liberação de armas? Vou falar do que vivi nestes anos na DH. Grande parte dos crimes são praticados por armas de fogo, mas de todas as situações, eu conto nos dedos as que foram praticadas com armas legalizadas. Então, fala-se muito que a liberação da posse de armas pode trazer um número maior de homicídios. A minha experiência ali mostrou que grande parte não acontecia com armas regularizadas. Essas armas eram as que estavam no mundo do crime e vão continuar existindo. Hoje, o que aconteceu foi uma regulamentação com critérios objetivos, e antes eram critérios subjetivos. Mas o impacto disso no nosso cenário de segurança pública só o tempo vai dizer. De qualquer forma trago esta experiência para uma reflexão, em especial nos casos de violência letal.  

Qual é o seu maior aprendizado em relação ao ser humano? O ser humano é capaz de tudo. Para o bem ou para o mal. Tem potencial excelente para o que ele quiser. Eu vivenciei isso nas duas situações, o bem e o mal. 

Bandido bom é bandido morto? Não podemos colocar isso como uma máxima. Isso é repetido pela própria sociedade. Quando existem situações de confronto, o bandido, muitas vezes, passa a ser a polícia que fez esta ação. Qualquer pessoa morta é uma vida ceifada. Existem situações que a lei te autoriza a agir; nesta situação, ok. Mas não estamos num país e numa legislação, para não entrar em outras discussões, que autorize fazer isso. O próprio policial é cobrado para fazer isso, quando nossa realidade não pode ser essa. Tem que se refletir sobre replicar este pensamento.

Acredita na humanidade? Sim. Acredito. Eu sigo a ideia de que se não é possível transformar o mundo em um lugar melhor, podemos transformar nossa aldeia em um lugar melhor. A gente não pode desistir de acreditar no ser humano.  Temos que buscar fazer as coisas que nos levem a um caminho diferente, com resultado diferente. Nestes dez anos continuo achando que é possível. 

Por que o ser humano gosta de tragédia? Eu sinto isso também, mas não sei explicar. Talvez um psicólogo, um antropólogo ou sociólogo possam nos explicar melhor. Lá na DH eu percebia que as ações que se buscavam eram as que tinham mais sangue. É natural isso se você observar somente por uma ótica. Mas se você quer fazer a diferença, tem que começar a mudar este sistema. A gente tem feito algumas ações para divulgar que a polícia não é só aquela polícia que corre atrás de bandido. Precisamos mudar esta concepção. Cada um dando um passinho é possível sim! 

Por fim, o que é o amor? O amor deveria ser a cola entre todos nós. Se todas as nossas ações fossem pautadas pelo amor, pela caridade de um com o outro, o mundo seria melhor. De repente, antes do amor um pelo outro, começar pelo amor próprio. Porque às vezes a gente não tem condições de amar uma outra pessoa, de ter empatia com o outro porque a gente não tem com a gente mesmo.
 
 
“Tem que se refletir sobre replicar este pensamento de que bandido bom é bandido morto”
 
“O amor deveria ser a cola entre todos nós. Se todas as nossas ações fossem pautadas pelo amor, o mundo seria melhor”

“Eu acredito que existe um só caminho. O caminho reto. O que é certo é certo e o que é errado é errado”

 

DEIXE SEU COMENTÁRIO

Importante: Comentários com conteúdo sensível, impróprio ou que for considerado inadequado – por qualquer motivo, a critério do moderador – serão sumariamente deletados.

Deixe seu comentário.