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Edição 126
IFPR

A elite das escolas

Enquanto as escolas públicas de ensino médio padecem, os institutos federais, apesar dos cortes, lideram as notas do Enem. Mas, afinal, o que há por trás deste bom desempenho?

Texto Rejane Martins Pires
Foto(s) Bruna Scheidt

Publicado em 09/04/2019

“Eu sinto orgulho de ter participado da construção do IFPR em Cascavel”

“Trabalhar com as mãos ensina muito”. A frase é de José Saramago e estampada no muro de entrada do Instituto Federal do Paraná (IFPR), campus de Cascavel. Não é uma frase aleatória. Ela foi pensada especialmente por ele, seis meses antes de falecer, para esta escola. O pedido para Saramago foi feito via e-mail por um dos “pais” do instituto em Cascavel, o professor Irineo Colombo. 

Outro grande responsável pela implantação do projeto aqui foi o também professor Eliezer Pacheco que, à frente da Secretaria de Educação Profissional e Tecnológica do Ministério da Educação (Setec/MEC), defendeu a ideia.

O ano era 2010, o espaço físico emprestado de outra escola e o número de alunos limitado a 20. Somente em 2014, o IFPR ganhou estrutura própria. Atualmente, são 500 alunos, dois cursos técnicos, dois cursos de nível superior, duas pós e três cursos de ensino à distância. 

Espécie de orgulho da Região Norte, o IFPR alcançou seu estrelato em tão pouco tempo com uma receita bem simples: cuidar bem das pessoas. Por trás disso, um gesto rotineiro do diretor do campus, Luiz Carlos Eckstein. Cumprimentando um a um, ouvindo um a um, ele transformou a escola num templo sagrado de conhecimento e respeito.


A intuição do padre

Como tudo tem uma caminhada, Eckstein não surgiu ali do nada. Sua história começa com sua própria transformação pessoal. Filho de pais analfabetos e muito pobres, só lhe restava um único meio para ascender socialmente: a educação. Da primeira escolinha num distrito de Marechal Cândido Rondon, fez um curso técnico no Colégio La Salle. 

Os cursos de Filosofia e Teologia vieram na sequência, acalentados pelo desejo de ser padre. Após um estágio em Jesuítas, Eckstein entrou em crise existencial e em 05 de julho de 1989, após um longo acompanhamento espiritual, decidiu seguir a carreira do magistério.

A herança de toda esta formação se reflete hoje no IFPR. “A educação foi o grande pilar da minha vida. Foi através dela que eu consegui conhecer um mundo que teoricamente não teria condições de conhecer. Sou um defensor deste espaço” afirma.

Das lições aprendidas com Dom Odilo Scherer e Dom Geraldo Magela, entre outros, vem a segurança para gerir, diariamente, pessoas com diferentes histórias, visões de mundo e expectativas. “Quando se fala em formação humana, devemos ver a pessoa como um todo. É preciso alcançar algumas dimensões, como a intelectual, profissional, física e transcendental”.


Trabalhar com as mãos

Doutor em Educação pela Universidade Tuiuti, Eckstein sabe muito bem o longo e sinuoso caminho da pesquisa científica. Daí o entendimento de trabalhar isso no dia a dia dos alunos. “Historicamente, as pessoas conhecem a pesquisa quando vão fazer o mestrado, e nós entendemos o contrário”, explica. “Acredito muito na pesquisa enquanto espaço de construção e aqui todos os projetos têm que envolver os alunos. O professor não faz pesquisa somente pra ele”.

O impacto primeiro é no aluno. Projetos na área de robótica, artes, música, biologia e meio ambiente são exemplos desta interação. “O desenvolvimento é nítido em vários aspectos, seja do próprio conhecimento ou das competências socioemocionais. O resultado é a conexão do indivíduo ao mundo onde vive”.


Impacto na Região Norte

Com uma política de inclusão – 80% das vagas são para cotistas -, o IFPR teve um impacto positivo na Região Norte. O primeiro foi elevar a autoestima da comunidade, cuja imagem negativa espelhava uma desvalorização coletiva e, consequentemente, uma discriminação externa. 

Com isso, veio a valorização imobiliária e o melhor, a promoção humana pelo conhecimento. Embora o viés do instituto seja tecnológico, alunos têm conseguido ótimo desempenho em universidades públicas. “Não perdemos para nenhuma instituição privada”, diz. Não por acaso. Mais de 50% dos professores do IFPR são doutores. "Em vários aspectos, somos muito superiores à rede privada".


Um espaço solidário
 


A escola como uma morada. É assim que a direção, professores, colaboradores e alunos veem o instituto. O trabalho educativo não se limita à sala de aula. E isso não é discurso. “O espaço tem que ser todo pedagógico”, frisa o diretor. Ele destaca a solidariedade como uma das riquezas do local. “Alguns alunos e até os professores dividem marmita quando veem um colega sem almoço. São pessoas de diversas origens que convivem em um espaço de conhecimento coletivo, o que enriquece a experiência de cada um”.
 


O zelo pelo espaço é outro aspecto. Cada um lava a sua louça, separa o lixo reciclável e deixa tudo organizado. Outro detalhe: é proibido fumar no local. E a regra é para todos. “Sempre digo que os institutos federais são um modelo de ensino médio que deram certo. Quem estuda aqui, sai com uma rica formação humana”.
 


Para o professor, a experiência dos institutos federais deveria ser melhor aproveitada para a implementação de mudanças no ensino médio. 


A frase de José Saramago na entrada do IFPR foi reproduzida em outros campi:  ideia de teoria e prática


O que dizem os alunos
 


Analia Fariña de Oliveira, estudante do 2° ano de Análises Químicas


“Eu escolhi o IFPR pela qualidade de ensino, pela formação que vou ter quando concluir e pela preparação para as universidades públicas. Aqui o aprendizado é constante. Mudei meus conceitos sobre muitas coisas que hoje me fazem uma pessoa mais consciente”.
 


Hellen Ramos do Prado, estudante do 4° ano de Análises Químicas 

“Escolhi o IFPR por conta das recomendações que recebi de familiares e a oportunidade de sair do ensino médio com uma profissão. Aprendi a ter responsabilidade, pois a instituição incentiva os alunos a irem atrás do que precisam. Conhecer pessoas diferentes e debater assuntos considerados tabus também me ensinou a ver ambos os lados de uma situação, a pensar antes de falar”.
 
 

Guilherme Deitos, estudante do 1° ano de Técnico de Informática 

“Apesar do pouco tempo que estou aqui aprendi que sem esforço você não consegue nada. Eu senti bastante diferença quando cheguei aqui. A exigência é muito grande. Eu saio de casa todos os dias às 5h45 da manhã para estar aqui às 6h50, mas estou construindo o meu futuro. E eu já me vejo daqui a um tempo iniciando uma faculdade, fazendo uma pós, um mestrado e me tornando doutor, para assim ter uma vida tranquila com um bom salário e talvez até casado”.
 
 


Isadora Menezes, estudante do 1° ano de Técnico de Informática 

“Eu acredito que no IFPR terei uma oportunidade de ampliar meus conhecimentos e ter uma melhor escolha profissional. O maior aprendizado até o momento tem sido a mudança que tive em minha vida, pois precisei vir pra uma cidade maior, morar longe dos meus pais e ser responsável por mim mesma”.

 



Aprovações na Unioeste, USP e Unicamp

“Ingressei no IFPR em 2015 e logo percebi inúmeros benefícios, como professores muito qualificados, em sua grande maioria mestres e doutores. Outro diferencial é  a excelente estrutura apresentada, com salas de aula e laboratórios equipados, o que favorece a pesquisa e a extensão. Como recompensa destes quatro anos desfrutando dos benefícios dessa instituição, somado a meu esforço pessoal, fui aprovado em algumas universidades, como Unioeste (Engenharia Elétrica), USP (Física), Unesp (Engenharia Elétrica) e na Unicamp (Engenharia Física)”.

Gabriel Wolschick de Oliveira, ex-aluno do IFPR e acadêmico de Engenharia Elétrica na Unioeste


“Sobre o IFPR, posso afirmar que quando você está lá dentro você sente que o estudo é algo valioso. Você estará num lugar cheio de pessoas que buscam aprender sempre. Aqueles que não têm isso em mente, logo aprendem que é assim que funciona. O IFPR possui uma estrutura e um ambiente que estimulam o aprendizado, bem como professores altamente capacitados. Ao vivenciar isso por quatro anos, consegui aprovações em alguns vestibulares como o do próprio IFPR e o da Unioeste para Ciência da Computação. Com a nota do Enem fui aprovado na Unicamp também para Ciência da Computação e garanti uma vaga na UTFPR, de Curitiba, para Engenharia da Computação, onde pretendo realmente cursar”.

Anderson Nogueira, ex-aluno do IFPR e acadêmico de Engenharia da Computação na UTFPR

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