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Edição 127
PÁGINAS AMARELAS

Dá pra acreditar em renovação política?

com Eduardo Mufarej

Texto Rejane Martins Pires
Foto(s) Divulgação

Publicado em 15/05/2019

Eduardo Mufarej: “Não existe atalho para renovar o Brasil. A renovação não é uma tarefa fácil e não vai acontecer do dia para a noite” 
 

O empresário paulistano Eduardo Mufarej é o entrevistado deste mês da Revista Aldeia. Sócio do fundo Tarpon Investimentos, Mufarej é o fundador do instituto de formação política RenovaBR, movimento criado para capacitar candidatos ao Legislativo. Com apoio de empresários como Jorge Paulo Lemann, Nizan Guanaes, Abílio Diniz e Armínio Fraga, o RenovaBR também tem a missão de estimular novas lideranças que queiram se engajar de forma ética na política. É deste sonho de renovação e desta esperança que Mufarej fala. 

O que lhe motivou a criar o RenovaBR? Desde 2013 a gente vem acompanhando um crescente interesse da população pela política e muita gente entendendo que só vamos conseguir construir um país diferente a partir da mobilização da sociedade. Nunca antes a sociedade brasileira desejou tanto a renovação de quadros e práticas. A população quer novos nomes, mas não sabe muito bem o caminho. Iniciativas como o RenovaBR e vários movimentos de renovação nasceram por isso. Grande parte do conceito de criar o RenovaBR foi para oportunizar uma rede de apoio, de sustentação para que pessoas que tradicionalmente não participavam da política pudessem, através dessa iniciativa, ter um aparo de treinamento e formação. 

Na prática, como funciona?  Mais de 4 mil pessoas de todos os estados se inscreveram pelo site do RenovaBR entre outubro e novembro de 2017. Os inscritos passaram por etapas de teste online, vídeos de apresentação pessoal, entrevistas e banca avaliadora com especialistas em gestão pública e política e avaliações de ética. Em dezembro de 2017, foram selecionados os 133 com visões, ideologias e causas diversas, seguindo o princípio do diálogo, diversidade e convergência de ideias. A formação durou seis meses, entre janeiro e junho de 2018. Dos 133 formados, 120 disputaram a eleição e 17 foram eleitos (dez ao Congresso Nacional e sete para Assembleias Estaduais).

Existe alguma bolsa? Para que os integrantes da primeira turma de líderes RenovaBR pudessem se dedicar exclusivamente ao processo de formação, eles receberam uma bolsa mensal entre R$ 5 mil e R$ 12 mil, calculada com base no rendimento médio nominal mensal, de acordo com a Pesquisa Nacional de Amostra por Domicílio (PNAD), divulgada pelo IBGE. Alguns abriram mão da bolsa e mantêm suas despesas por conta própria. A bolsa é oriunda de doações de pessoas físicas interessadas em patrocinar um programa de renovação política feito com qualidade.  Qualquer pessoa pode se inscrever pelo site www.renovabr.org.

Há algum direcionamento político ou ideológico? Nossas lideranças têm liberdade de pensamento e ideologia. Os líderes são empreendedores cívicos, gente que está com disposição e vontade de fazer a política do jeito certo.

Eles precisam apenas ser comprometidos com os valores da honestidade, do diálogo e da realização. Entre os 133 talentos que nossa iniciativa já formou, teve gente de 22 partidos políticos diferentes. Desenvolver a capacidade de dialogar é fundamental para que, quando eleitos, as lideranças consigam se articular e fortalecer a democracia.

Alguns endossadores do Renova têm uma visão mais liberal. Isso influencia de alguma forma? Conforme eu expliquei, o RenovaBR conta com lideranças de diferentes posições ideológicas. Entre os 17 eleitos, por exemplo, temos parlamentares do PDT, NOVO, DEM, REDE e PSB. Eu enxergo o RenovaBR como uma ponte entre o curso de qualificação para pré-candidatos e a sociedade que quer novos quadros, novas práticas. Foi daí que surgiu essa ideia, uma iniciativa de preparar novas lideranças políticas e estimular a presença do cidadão comum no Congresso Nacional.

O país está dividido entre “esquerda” e “direita”. Qual a proposta do Renova para avançar este debate? No RenovaBR a gente tenta criar um consenso, uma convergência de diferentes grupos, com diferentes ideologias, sempre na perspectiva de fomentar o diálogo. Preferências partidárias sempre vão existir e fazem parte do jogo. O fundamental é ouvir o outro lado. Quando fundei o RenovaBR eu decidi que a única contrapartida aos líderes é um compromisso com quatro regras fundamentais: trabalhar até o último dia de mandato, prestar contas ao eleitor, abrir mão e combater privilégios do cargo e trabalhar por uma transformação política de larga escala que priorize o interesse público. O discurso ideológico só faz com que a gente se afaste.

No ano passado, o recado da sociedade foi cristalino: a busca pelo novo. Como avalia este cenário? O eleitor brasileiro precisa recuperar a esperança de se sentir representado. A gente acredita que ser representante da população deve ser missão e não privilégio. Só quando o cidadão comum entrar de verdade na política teremos um governo que atue pelo interesse comum. A política funciona melhor quando temos mais gente envolvida. Por isso é nosso papel votar e apoiar para depois cobrar. E a função deles é mostrar comprometimento e trabalho duro.

Acredita mesmo que é possível enterrar a política do compadrio no Brasil? No que depender do RenovaBR, sim. Entre as lideranças que ajudamos a eleger, hoje eu diria que a gente tem a melhor safra de candidatos a deputado federal e estadual que o país viu em muito tempo. Temos pessoas formadas em Harvard e Yale, com projetos sociais relevantes, com histórico de honestidade e realização. A Tábata Amaral, aos 24 anos, já construiu uma história de sucesso frente às adversidades. Representou o Brasil em cinco Olimpíadas Internacionais de Ciências, conquistou uma bolsa de estudos nos EUA e graduou-se com honras máximas em Harvard. O mesmo vale para o Daniel José, que é economista pelo Insper e Mestre em Relações Internacionais por Yale; o Heni Ozi Cukier, que atuou em organizações como a ONU e a OEA; entre outros. 

Com este novo pensamento, podemos vislumbrar um país menos corrupto? Com menos ódio? Precisamos fazer com que os bons talentos que temos no Brasil sintam-se amparados para entrar nesse meio. Entrar para a política não é a decisão mais óbvia para pessoas capacitadas e atuantes, por isso muitas vezes a política é ocupada por pessoas que a gente não deseja. É fundamental que a gente construa esse ponto em comum para renovar a política de verdade.

Na sua opinião, por que o Brasil tornou-se um país difícil, complexo, burocrático? O Estado brasileiro como está desenhado hoje, complexo e caro também para a população, além de estar entregando muito pouco, precisa entregar mais para o cidadão, principalmente para o cidadão pobre, que é quem mais precisa. É ele quem está completamente desassistido. Ele não tem educação boa perto de casa, o posto de saúde é ruim, quando liga para a polícia, ela não vai. Esse é o nível. Às vezes, vejo o Brasil em uma agenda de capricho, de não querer enxergar a realidade.

Vivemos uma crise de representatividade. Isso afasta os brasileiros da política?  Nossa crença é que a política funciona melhor quando mais gente comum se envolve nesse processo. O Brasil acabou virando um país onde o clientelismo prevalece. Há cooptação de candidaturas com financiamento e contrapartidas de execução de mandato. Na minha opinião, esse é o maior problema estrutural do Brasil. O sistema estimula isso. Por mais bem intencionada que seja uma pessoa para servir a sociedade e o público, ela não tem recursos para financiar sua candidatura. 

Qual a saída? Veja bem, há um distanciamento do eleitor junto ao seu representante. Hoje temos dois critérios para a distribuição do fundo eleitoral: tamanho de bancada e votação na última eleição. Isso faz com que os maiores partidos detenham a maior parcela do fundo, independentemente se eles fazem um bom trabalho de governança. Temos um financiamento público, mas sem nenhum critério qualitativo de distribuição. Para 2022, o voto distrital misto seria um grande ganho para o processo democrático do país. Primeiro, porque reduz os custos de campanha. Depois, faz com que o eleitor se aproxime do seu representante.

Criou-se uma cultura de focar nos partidos e não nas pessoas? Concorda que existe gente boa em todos os partidos? Sim. No caso das lideranças do RenovaBR, apesar de pertencerem a campos políticos diferentes, eles estão lutando pelas mesmas coisas. Têm um sentimento de unidade grande. Na eleição de outubro tivemos a melhor safra de candidatos da história do Brasil, do ponto de vista de formação e intenções. 

Vivemos uma crise de líderes?  O RenovaBR veio para mudar essa história. Não podemos nos omitir da formação das futuras gerações. E o Brasil tem sido omisso ao não investir, principalmente, nas crianças, nos jovens.

Nosso ensino básico tem uma qualidade muito aquém da desejada e isso nos distancia do sonho de país que todos temos. Na política, não é diferente. Não estamos investindo na formação de lideranças públicas, e acho que, de certa forma, isso nos levou a ser governados por pessoas com as quais não nos sentimos conectados. O RenovaBR foi criado para suprir esse vazio. Precisamos olhar com carinho para jovens lideranças e fazer com que consigam desenvolver seu repertório – para que gente honesta e competente possa ocupar espaço dentro da política.       

O Renova também se compromete em dar suporte aos candidatos eleitos para que não desistam de seus ideais? Sim. Queremos fazer com que os eleitos, quando chegarem nas suas respectivas funções, possam produzir o maior volume de impacto possível e, dessa forma, horarem seus votos. 

Como manter a imparcialidade? Não cabe ao RenovaBR interferir na elaboração de pautas específicas dos parlamentares. O RenovaBR fará apenas um acompanhamento dos quatro compromissos assumidos pelas lideranças: cumprimento do mandato, responsabilidade com as contas públicas, transparência e atuação para uma reforma política que aproxime os políticos da população.

Dezessete alunos do Renova se elegeram ano passado. Isso mostra que há um posicionamento diferente até mesmo durante a campanha, correto? Tivemos um desafio importante de convencer as pessoas de que o RenovaBR não era um instituto que defendia pautas específicas ou agendas específicas. O que queríamos e queremos são políticos éticos, com vontade de servir e histórico de realização.

Como avalia os resultados desde a sua criação? O RenovaBR sai desta eleição com dados importantes, sobretudo quando se compara os votos totais com o número de partidos. Os 64 líderes formados pelo RenovaBR e que disputaram uma vaga para deputado federal somaram 1.696.029 votos. Se o RenovaBR fosse um partido, somente os votos para deputado federal nos colocaria como a 20ª legenda mais votada, ficando à frente de outras 15.

Na falta de confiança na política institucional, são iniciativas da sociedade civil, como o RenovaBR, que estão permitindo alguma esperança de que é possível um cidadão comum, conectado a outros, fazer a diferença e mudar a política do Brasil.

Quais os projetos futuros? Nosso próximo projeto será a segunda turma de formação de lideranças políticas. Já estamos com mais de 8 mil inscritos, mais do que o dobro dos “aspirantes” ao Congresso Nacional da primeira turma. Temos representantes dos 26 estados, além do Distrito Federal. 

Há intenção de trabalhar em âmbito municipal também? Sim, a tendência é que o âmbito municipal também seja incluído nessa próxima turma. 

Em que momento da sua vida o rugby e a política se convergem? Assumi a responsabilidade com a intenção de melhorar não só o rugby, mas deixar um legado para outros esportes, espalhando as melhores práticas. O mesmo vale para o RenovaBR. A renovação não é uma tarefa fácil e não vai acontecer do dia para a noite. Mas desistirmos e acreditarmos que a renovação da política não é possível é exatamente o que os velhos políticos querem. Precisamos ter a coragem de acreditar e renovar de verdade. Não sozinhos, mas unindo esforços com todos que têm esse mesmo objetivo. Se não nessas eleições, quando? Nosso objetivo é simplesmente encorajar pessoas comprometidas e realizadoras.

Por fim, qual é sua utopia? Todos nós temos responsabilidade sobre o futuro e o legado. Não queria chegar a uma idade mais avançada na minha vida e ver que o Brasil está em uma situação difícil como a que vemos agora, em 2019, e que eu não fiz nada a respeito. O caminho que encontrei para agir foi investindo em lideranças, apostando em gente boa que valia a pena apoiar, estar próximo e contribuir para mudar essas realidades. Tenho um histórico de interesse político, sempre foi algo costumeiro para mim. Minha mãe era professora da rede pública. Sempre fui um cara com um grau de inquietação maior pela situação das coisas, mas pensava nas prioridades de cada momento, como ter uma sustentação financeira. Tenho três filhos, pensava em garantir o mínimo de segurança a eles. Chegou a hora de oferecer mais.

FRASES

Entrar para a política não é a decisão mais óbvia para pessoas capacitadas, por isso, muitas vezes, é ocupada por pessoas que a gente não deseja.

Só quando o cidadão comum entrar de verdade na política teremos um governo que atue pelo interesse comum.

O Brasil acabou virando um país onde o clientelismo prevalece. Há cooptação de candidaturas com financiamento e contrapartidas.

Desenvolver a capacidade de dialogar é fundamental para que, quando eleitos, as lideranças consigam se articular e fortalecer a democracia.


QUEM É ELE

Eduardo Mufarej, 41 anos, é sócio da Tarpon Investimentos. Atuou até outubro de 2017 como CEO da Somos Educação, empresa da qual é atualmente Presidente do Conselho de Administração. É presidente do Conselho da Confederação Brasileira de Rugby, além de ser membro dos Conselhos do Centro de Liderança Pública, Ranking dos Políticos e da Escola de Negócios da Universidade de Yale.

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