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VIDA

Os 100 anos do soldado

Esta é a segunda entrevista do pracinha da Força Expedicionária Brasileira (FEB), Mario Ferroni, à Revista Aldeia. Prestes a completar 100 anos, ele sorri para a vida, bem longe de guerra!

Texto Rejane Martins Pires
Foto(s) Silvia Prado

Publicado em 11/06/2019


“Felicidade é poder voltar”. É assim que o pracinha da Força Expedicionária Brasileira (FEB), Mario Ferroni, define felicidade, referindo-se à guerra e à coragem necessária para voltar forte, sem sequelas. Prestes a completar 100 anos, no próximo dia 05 de julho, Ferroni está mais doce do que nunca. 

Chegar aos 100 é, para ele, uma graça divina. E o soldado tem os seus segredos. Claro, não pode faltar vinho, bom sono, comida boa e companhia. Também é preciso sorrir para a velhice. E isso, é o que mais faz seo Ferroni. Com problemas de audição (devido aos ruídos e pressões durante a guerra), ele ri. Ri de tudo. E ainda não perda a chance de “trolar” os netos. 

Todas as quartas-feiras, recebe filhos e netos para o jantar. É sagrado. “Cada semana um fica responsável pelo cardápio e ele espera ansioso por este dia”, conta a filha Ivone Maria Ferroni. “Meu pai é uma figura indescritível.

Sempre foi regido pela honestidade, pela positividade e pelo amor. Nunca deixou um filho sem resposta e sempre nos orientou para o caminho do bem”, acrescenta.

Tudo isso, diz, se reflete hoje em sua velhice. É um idoso dócil e concordado. Sabe de suas limitações e vive os dias em paz, bem longe de guerras!

 
Mario Ferroni em seu pequeno museu: até pouco tempo fantasiava “trabalhar” ali, inclusive, cumprindo horário
 

*Abaixo, matéria na edição 46 da Revista Aldeia publicada em dezembro de 2011 

Soldado Ferroni

Aos 92 anos, o pracinha da Força Expedicionária Brasileira (FEB), Mario Ferroni, ainda guarda na memória os dias de aflição e desesperança da Segunda Guerra

"As guerras são execradas pelas mães". A frase é do filósofo Horácio, mas poderia ter sido dita pelo aposentado e pracinha da Força Expedicionária Brasileira (FEB), Mario Ferroni. Quando soube de sua convocação para a Segunda Guerra Mundial, no ano de 1944, pegou o primeiro trem de Caçador com destino a Luzerna, no oeste catarinense, para avisar os pais sobre sua partida.  

A missão foi dolorosa. Na época com 24 anos, ele não sabia como falar. Desceu do trem, andou por uma estradinha deserta até chegar ao sítio dos pais e, lá, emudeceu. Aflito, só conseguiu dar a notícia no outro dia, na hora da partida. Os pais igualmente silenciaram. Ir para a guerra era a morte pré-anunciada. Só restava um caminho: a fé. Dona Rosa, num último gesto de esperança, colocou uma medalha do Sagrado Coração de Maria no pescoço do filho e, da janela da casa, acompanhou-o com o olhar lacrimoso até a curva da estrada. De vez em quando, o jovem soldado olhava para trás, e lá estava a mãe, imóvel, presa em seu sofrimento.

De volta a Caçador, onde trabalhava em uma fábrica de caixas, mal teve tempo de organizar o pensamento. Logo foi para o Batalhão de Infantaria de Joinville e depois Blumenau. Fez inspeção de saúde, e, declarado apto, incorporou-se ao 11º Regimento de Infantaria, o São João Del Rey. “Com este regimento, fui para o teatro de operações na Itália. Embarcamos no Rio de Janeiro diante de uma multidão de pessoas acenando lenços brancos. Um momento marcante, muito triste”, conta.


ATAQUE NOTURNO

Assustado com tudo aquilo, Ferroni, já dentro do navio, não dormiu à noite. “Eu sentia o navio ondular sobre as águas e fiquei com muito medo, pois imaginava que os inimigos estariam aproveitando a noite para nos atacar”, diz. Ao amanhecer, a surpresa. “Deram permissão para subirmos no convés e quando olhei, não acreditei no que vi. O navio ainda estava atracado de frente para a Baía de Guanabara e, novamente, uma multidão nos assistindo de longe”.

Com o navio zarpando, olhares incrédulos diante da bela paisagem carioca. “Tive muitas impressões. Olhava para o Corcovado e para o Cristo Redentor e achava que não ia mais voltar. Naquela aflição, baixei a cabeça e fiquei beijando a medalha”, lembra.

Após 20 dias de travessia, atracaram no Porto de Nápoles. A ordem para desembarcar veio somente após três dias. De lá, os soldados brasileiros seguiram em pequenas barcaças até o Norte da Itália. Num acampamento nas proximidades de Pisa, receberam as primeiras instruções antes de ir para o “front”. Na formatura geral, o choque de realidade veio pelas palavras do comandante. “Nunca esqueci daquela fala. Ele disse que a instrução em tempo de paz havia terminado, e, daquele momento em diante, era guerra”.


MONTE CASTELO

O primeiro combate do jovem catarinense foi Monte Castelo, batalha que marcou a presença da Força Expedicionária Brasileira (FEB) no conflito. “Ali, minha companhia teve os primeiros mortos e feridos. Os alemães estavam muito bem entrincheirados e muitos ataques não tiveram êxito, por falhas de estratégia”, afirma. 

Para conquistar Monte Castelo, foram três meses de muito sofrimento, suor e sangue, além de um frio de mais de 18 graus negativos. Lá passaram o restante do inverno na defensiva sob as bombas dos inimigos. Quando veio a primavera, outra grande ofensiva. Desta vez, Monte Castelo Novo. “Fomos avançando, sem muita resistência até chegar ao Norte da Itália, onde recebemos a notícia do fim da guerra. Foi um alívio, eu nem acreditava”.


MEDO DA MORTE

Ferroni ficou um ano na tropa e seis meses em ações de combate, tempo suficiente para transformá-lo profundamente. Os sonhos pueris da juventude deram lugar ao medo e a um sofrimento sem nome. Dentre tantas tragédias que viu, uma ele nunca esquece. Ainda em Monte Castelo, um grupo de pracinhas – em condição de defensiva – estava almoçando perto de uma colina. Protegido por uma casamata, ele ouviu o estrondo de uma granada e correu para ajudá-los. “Entre muitos mortos e feridos, o que mais me impressionou foi um pracinha (ainda com rosto de menino), clamando pela mãe. Aquela cena me tocou muito e percebi o quanto era triste morrer longe da família e, o pior, naquelas condições”.

Outro fato foi na noite de Natal. A companhia recebeu ordem para descansar e o seu pelotão improvisou uma árvore de natal. “Enfeitamos com chocolate e bombons e passamos a noite cantando e contando histórias como se nada de ruim pudesse acontecer. Inesquecível”.


CAMAS VAZIAS

De volta ao alojamento no Rio de Janeiro, mais uma vez se deparou com uma cena que o tocaria para sempre. As camas vazias retratavam a crueza da guerra. “Muitos amigos ficaram no Cemitério de Pistóia, outros estavam aleijados e outros ainda, loucos. Nem todos conseguiram suportar tamanha dor”.

Paciente, “seo” Mário foi aos poucos colocando a vida nos eixos. Voltou para Santa Catarina e, da mesma janela, que viu sua mãe chorando, adoçou o seu pranto. “Ela estava arrasada, sofrida. Fiquei um tempo no sítio até as coisas se acalmarem, mas logo saí”.


PESTE SUÍNA

Para quem pensava que tinha visto tudo na guerra, não sabia o que viria pela frente. Caçula de quatro irmãos, Ferroni mudou-se para Vargem Bonita. A engorda de porcos era uma atividade promissora e, em sociedade com o cunhado, montou o negócio. Compravam porcos da vizinhança, engordavam com milho e vendiam para o Frigorífico Pagnoncelli de Joaçaba. 

Já casado com Cacilda, a vida parecia estável. Em 1948, mais uma obra do destino. A peste suína aniquilou toda a criação. “Fiquei desanimado, vendi tudo o que sobrou para pagar dívidas e vim para Cascavel. Cheguei aqui em 1953. Minha esposa sofreu um pouco. Para mim, era um paraíso”. 


PLENITUDE

Recomeçar não foi tarefa difícil para o “pracinha”. Com um pouco de estudo e até um curso de contabilidade (feito por correspondência), arrumou vaga na Industrial Madeireira do Paraná, emprego que ficou por mais 34 anos. Em Cascavel, criou os quatro filhos Eldi Marisa, Cleuza, Ivone e Pedro, e, hoje, aos 92 anos vive a plenitude de quem aprendeu com o sofrimento. Canceriano teimoso, diz que ainda não se cansou de viver e arrisca um palpite para quem quer chegar aos 90. “Ter um bom acompanhamento médico, alimentação saudável, paz de espírito e muita caminhada”, diz. 

Caminhar é com ele mesmo. Até a pouco tempo dava a volta no lago todos os dias. “Tive um probleminha de saúde e parei, mas vou voltar”. Já a paz de espírito, segundo sua esposa, tem outra explicação. “Ele é feliz porque não ouve direito”, brinca. De fato, Ferroni perdeu parte da audição na guerra, mas isso, para ele, é só um detalhe. “Estou vivo ainda”, sorri.

“Sofri muito. Foram dias difíceis, patrulhas perigosas na escuridão da noite, frio intenso. Ou atirava ou morria”
 “Na guerra aprendi a sofrer, ter paciência e vencer as dificuldades com calma”


*Fotos da guerra cedidas pelo Museu da Imagem e do Som (MIS)

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3 COMENTÁRIO(S)

Parabéns tio Mario, exemplo de vida correta, orgulho para todos nós , abraço p/ todos da família.
comentado por Geraldo Anzollin em 21/06/2019
Excelente matéria do nosso herói Rejane, parabéns, você explorou o máximo num resumo interessante. Você vai ter outras oportunidades de entrevistá-lo, pois sua saúde está muito perfeita. Parabéns a família.
comentado por Celso Benedito Bevilacqua em 13/06/2019
E uma bênção para essa família. Sei que ele é muito amado
comentado por Maria Dorothea miranda em 12/06/2019
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