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Edição 129
AGROECOLOGIA

O doce milagre da terra

Texto Rejane Martins Pires
Foto(s) Bruna Scheidt

Publicado em 01/07/2019


 
Como a terapeuta Elaine Marchioro, o marido Sérgio e a pequena Ana Clara transformaram uma área de três alqueires, sem nenhuma árvore, num verdadeiro oásis verde. Até os passarinhos voltaram a cantar por lá...


Quem chega ao sítio da terapeuta Elaine Marchioro, no Assentamento Valmir Motta, a 20 km de Cascavel, logo percebe que as coisas por ali não são nada convencionais e que a terra, desde que bem cuidada, é, sim, milagrosa. Basta dizer que em três alqueires a família tem mais de 87 espécies de árvores frutíferas. 

Uva, cereja, manga, banana, framboesa, laranja kinkan, physalis, guabiju, mexerica, fruta do conde, laranja comum, limão siciliano e outras tantas. A lista é grande. Isso sem falar das verduras, legumes e cereais, a exemplo do arroz orgânico recém-colhido. E, claro, da produção de leite e criação de animais para consumo próprio. O sítio é um verdadeiro oásis autossustentável. 

O mais curioso é que apenas há quatro anos a área estava toda degradada. “Não tinha uma árvore aqui, era tudo pasto. Hoje, acordamos com o canto dos pássaros”, diz o marido de Elaine, Sergio Verlindes. No sistema agroflorestal, eles fazem verdadeiros milagres no pequeno lote de terra. Só para ter uma ideia, são 12 variedades de mandioca, 12 tipos de banana e sete de cana-de-açúcar. Até café vão produzir em breve. 

Agora, a pergunta: como conseguiram? “Trabalhando das seis da manhã às 9 da noite”, diz Elaine, que nunca para de estudar e pesquisar. A participação em feiras voltadas à agricultura familiar é outra fonte de inspiração. Parte da produção é vendida na feira orgânica de Cascavel com o selo da Rede de Agroecologia Ecovida. Outra parte vai para a mesa farta. E põe fartura nisso. Pão, bolacha, bolo, queijo, leite, manteiga e doce, tudo produzido ali mesmo, sem nenhum agrotóxico, sem nenhum conservante. 

Pé na terra

Formada em Ciências Econômicas pela Unioeste, Elaine sempre esteve envolvida nos movimentos sociais em Cascavel. Após a atuação na Associação Nacional de Cooperação Agrícola, morando inclusive nas capitais Curitiba e São Paulo, voltou à região para ministrar curso de formação, mais voltados para a área de saúde. Foi aí que descobriu a agroecologia.

Neste período, conheceu o marido num dos muitos acampamentos que visitava e decidiu voltar às raízes rurais. “Eu sou filha de agricultores e saí do sítio aos 16 anos dentro daquela perspectiva de trabalhar e estudar, sempre acreditando naquele conceito de que viver na cidade é melhor”, conta Elaine. “Mas com o que a gente se depara? Trabalha o dia todo, com horário fixo, paga aluguel, compra tudo e, no final do mês, não sobra nada”.

Isso a fez refletir muito quando a família foi contemplada com o lote. Era preciso pensar em algo diferente. Em outro conceito de vida, outras simbologias. “Começamos a olhar a natureza com outros olhos. Não como seres superiores à ela, mas como parte. Nós somos responsáveis pela construção e pela destruição dela. Então, como é que se faz este resgate de cuidar da terra e da natureza? Não tem outra saída senão com a agroecologia”, reforça. 

Políticas públicas

E agroecologia significa diversidade, que se reflete em fartura na mesa e numa vida mais saudável e tranquila. Seguindo a mesma lógica, outras famílias do assentamento se inspiraram no modelo e tem um grupo de certificação participativa. Um é fiscal do outro. São realizadas reuniões mensais para discutir toda a cadeia produtiva, desde o plantio à comercialização. Um dos grandes desafios, ainda, está na falta de políticas públicas. “Para fazer agroecologia com mais tranquilidade e com menos trabalho braçal, nós precisamos de políticas públicas que garantam, por exemplo, a aquisição dos produtos e a de compra de equipamentos. Existem linhas de crédito, só precisam ser mais acessíveis”.

A terapeuta Elaine

Do vínculo com a terra e com as plantas, nasceu a terapeuta. Além de agricultora, Elaine tornou-se terapeuta integrativa. Foram quatro anos de estudo até se especializar em iridologia e acupuntura auricular. “Quando me vi dentro da natureza, cuidando melhor da alimentação, do corpo e do espírito, senti que devia fazer algo a mais. Aí surgiram as terapias em que procuro olhar para o ser humano em sua totalidade”.

Assim como na agroecologia, as terapias exigem técnica e conhecimento. Em resumo, muito estudo. “São áreas específicas que me ajudam no autoconhecimento e na minha evolução como ser humano. Esta bagagem pessoal ajuda muito quando trato alguém, quando faço este resgate da essência do ser. Os resultados são muito positivos”.

Ao fazer as pessoas voltarem-se para si e para os seus sonhos, Elaine provoca uma reflexão sobre alguns conceitos arraigados. “As pessoas começam, então, a se reinterpretar, a se olhar e perceber a forma que estão encarando a vida. Nem sempre é a melhor forma. A felicidade verdadeira está na simplicidade, no estar com a família, no viver de forma mais natural”.

Muitas dores do corpo, explica, são dores da alma. “Vivemos numa sociedade distante da natureza, de consumismo exacerbado e com vazio existencial imenso. Tudo isso leva a um processo de adoecimento, pois se eu não consigo atingir um determinado padrão, eu me frustro e adoeço. Aí vem a depressão, a ansiedade e tantas outras síndromes”.

Sempre há uma esperança. Na visão da terapeuta, está acontecendo um movimento inverso. As pessoas estão percebendo que a produção de alimentos de maneira convencional, por exemplo, não está dando conta da saúde. Os alopáticos não estão dando conta da saúde. “É simples, basta analisar que grandes multinacionais como a Bayer e a Novartis produzem o veneno e produzem o remédio também. É um comércio. E nesta perspectiva somente do lucro alguém vai ser prejudicado”.

Nos próximos anos, assinala, haverá um grande despertar. “Existe no ser humano uma chama de humanidade, de valores, do cuidar de si e do outro”, afirma. “Não é possível acreditar num processo de destruição em massa. Nós sempre vamos ter a luta dos contrários. O que vai acontecer lá na frente a história vai dizer, mas de uma coisa tenho certeza: estou fazendo a coisa certa, plantando a minha sementinha”.

FRASE

“Felicidade é ouvir da minha filha que ela ama viver aqui”

“Saúde é isso: ou a gente cuida da natureza ou a gente se autodestrói”
“O que me faz não desistir é a mesa farta, a paz de espírito e a qualidade de vida”

Legendas:

Elaine, o marido Sergio e a pequena Ana Clara na colheita do arroz orgânico
Em quatro anos, a família transformou o sítio de três alqueires em modelo agroflorestal: fartura na mesa


 

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1 COMENTÁRIO(S)

Parabéns Preta. Fico feliz em te ver Feliz.
comentado por Neuza Maria em 01/07/2019