Matérias

Edição 130
ENTREVISTA

Traduzindo a Acic

Texto Rejane Martins Pires
Foto(s) Bruna Scheidt

Publicado em 31/07/2019

Presidir uma associação comercial como a Acic é tido como um dos mais seguros termômetros de brilhantismo empresarial. Igualmente, estar à frente de um sindicato como o Sescap-PR, na função de vice-presidente de Integração Regional, é conquista de poucos. Ainda mais quando se é jovem. Muito jovem. Aos 36 anos, Michel Lopes está nesta condição. 

Até tentou quebrar a tradição familiar iniciada com os avós e seguida pelos pais (Nelson e Olga) na contabilidade. Ousou prestar um vestibular para Medicina em Curitiba, mas antes mesmo do resultado, acompanhando um tio médico nos hospitais da capital, viu que não tinha vocação. Em seu sangue, corriam números.

Voltou às origens e cursou Ciências Contábeis na Univel. Assim que começou a faculdade, sentiu-se à vontade para propor (e fazer) mudanças no escritório da família. Modernizar era preciso. Quase urgente. Formado em 2006, entrou para a sociedade, implantou uma nova forma de gestão e, aos 22 anos, descobriu o associativismo participando do Sincovel.

No sindicato, ajudou outras empresas que padeciam dos mesmos problemas, conseguiu enxergar parceiros entre “concorrentes” e, pelo trabalho desenvolvido, foi convidado a assumir a diretoria regional (53 municípios). Num trabalho intenso, esquadrinhou cada município, trazendo soluções da capital para o interior.

Em meados de 2013, criou a Comissão de Precificação dos Serviços Contábeis e viajou por todo o País difundindo a metodologia que culminou numa palestra durante o Congresso Brasileiro de Contabilidade. Esta presença no meio corporativo chamou a atenção do empresário José Torres que o convidou para compor sua diretoria. Pronto. Lá estava Michel para mais um desafio que, após cinco anos, agigantou-se...  

Como está sendo suceder o Edson?
Difícil. O Edson é um visionário. Ele é uma referência no que tange a conhecimento. Tem uma capacidade para projetar o futuro muito facilmente. Isso é para poucos. Algumas vezes, confesso, tenho dificuldade de acompanhar o raciocínio do Edson, onde ele quer chegar lá na frente. Mas a experiência como vice-presidente foi muito valiosa. Eu consegui, dentro deste pouco espaço de tempo, entender a visão da Acic e como ela deve ajudar o empresário a olhar o futuro. Este foi um dos grandes ensinamentos do Edson.

E, como presidente, qual a sua grande missão?
Historicamente, a entidade tem uma continuidade política, por isso o vice assume a cadeira da presidência. Dentro desta continuidade, planejamos trazer para a entidade grandes soluções empresariais. E esta será minha grande missão. O que isso quer dizer? Trazer soluções empresariais pensando neste novo modelo de mercado e nesta nova experiência do consumidor. Dentro deste contexto, lançamos o Acic Mais, que é um guarda-chuva de todas estas soluções que esperamos oferecer. 

E quais seriam estas soluções?
Bem, nossa ideia é dar suporte tanto aos empreendedores quanto àquela pessoa que tem uma ideia, mas ainda não sabe como desenvolver. O primeiro passo é fazer um diagnóstico para saber se a pessoa está no caminho certo ou não. Após o diagnóstico, vamos direcioná-la dentro da entidade. 

Algum trabalho específico com jovens?
Sim, dentro do Acic Mais, criamos o Acic Membro, em que o jovem fará um cadastro (de forma bem facilitada) e poderá conhecer e participar da associação. Depois, vem o Acic Start, já pensando na empresa futura, em que ele terá todo o suporte para saber o que precisa para abrir uma empresa, o que vai enfrentar e como gerir. Entram aí as mentorias específicas. Hoje, a Acic tem um clube de mentores capazes de atender diversas áreas.

E o Acis Labs, está dentro destas soluções?
Sem dúvida. O Acic Labs foi pensado para ajudar seus associados a acompanhar o avanço tecnológico de forma inovativa. Primeiro é feita uma análise de possíveis ideias e soluções, seguida de uma avaliação e aprovação, e o terceiro passo é a aceleração para materializar estas soluções. O Acic Labs vai trabalhar com duas linhas: tanto para startups como para empresas que já estão no mercado, mas ainda não conhecem muito deste universo digital.

E a participação feminina na Acic? 
Por onde eu passei, procurei trazer as mulheres para participar dos movimentos associativistas. Muitas vezes, tive até negativa por parte delas. Eu defendo a participação feminina e quero incentivar isso, criando formas de facilitar. Gostei muito da ideia da OAB aqui em Cascavel. Após um diagnóstico, perceberam que as mulheres não iam nas reuniões depois das 18 horas em função dos filhos (é fato, as mulheres têm esta sobrecarga). Aí nasceu o espaço kids e já está dando resultado. Inclusive, eu vejo, num curto espaço de tempo, uma mulher presidindo a Acic.

Como analisa os eternos “gargalos” da cidade e região?
É algo que incomoda. Mas há alguns avanços. A criação do Programa Oeste em Desenvolvimento (Pode) é um deles. O Pode abraçou estas grandes demandas e tem fortalecido muito este movimento focado em juntar forças. No que tange às grandes bandeiras, estamos caminhando. Um exemplo é o Trevo Cataratas. É algo que tem sido discutido há mais de 20 anos, mas, hoje, a solução está próxima. Além da possibilidade de termos todos os contornos rodoviários, temos, sim, com a nova licitação do pedágio, a perspectiva de um novo trevo. Estamos trabalhando fortemente nisso e vemos como possível.

E o aeroporto regional, você vê como algo possível?
Sim, porém, nada a curto prazo. Aeroporto é coisa para 15 ou 20 anos. O Conselho de Desenvolvimento juntou-se ao Pode para mostrar que precisamos de um aeroporto de grande porte para recebermos aviões cargueiros, o que trará um diferencial competitivo para a cidade e região.

Há ainda a ferrovia. Como estão as discussões?
A ferrovia é nossa bandeira macro. Nos tornaríamos um importante entroncamento ferroviário da região Sul. Falta pouco para chegarmos a Foz e já há tratativas com o governo paraguaio para que ele faça a ligação com a Argentina. De lá, a ferrovia seguiria para Encarnación, passando por Posadas e Salta até chegar em Antofagasta, no Chile. Teríamos um corredor ferroviário passando por quatro países.

E o ramal da Ferroeste no Mato Grosso do Sul?
É outra pauta muito discutida. Este ramal em Dourados traria toda a produção do Mato Grosso do Sul e do Paraguai para cá.  Imagine tudo isso desembocando em Cascavel para seguir ao Porto de Paranaguá. Tudo acontecerá em Cascavel. Por isso, é a grande missão da Acic, mas é preciso ter vontade política para que aconteça.

Como você define Cascavel?
Como uma cidade que tem um potencial de crescimento muito singular. Eu não me vejo morando em qualquer outra cidade. Tive a oportunidade de conhecer muitas regiões e países, mas Cascavel tem algo diferente. Ela é diferente em tudo e vem se destacando cada vez mais como referência em áreas como saúde, educação e, claro, agronegócio.

Falando em agronegócio, você tem uma ideia para unir Cascavel e Toledo, correto?
Sim, trata-se do “corredor do agronegócio” às margens da BR 467. Eu imagino núcleos industriais margeando a rodovia. Através de parcerias público-privadas, as empresas teriam incentivo para desenvolver a indústria do agro aqui, com toda a estrutura necessária. Já temos um ecossistema favorável, inclusive, com condições de atrair empresas do mundo todo como acontece nos Estados Unidos e Alemanha. Novamente, vem a vontade política entre as duas administrações.

Vontade política e diálogo?
Vão ter que dialogar e não apenas no ambiente político, mas na iniciativa privada também. Aliás, esta é uma meta pessoal minha. Eu já tenho esta característica de me aproximar, agregar, juntar esforços e espero conseguir deixar este legado de união entre Cascavel e Toledo. 

Em seu discurso de posse, você falou muito em empatia. O que é empatia pra você?
É algo indispensável nos dias de hoje. Nós precisamos, dentro de um ambiente democrático, entender a posição do outro, respeitando algumas tratativas e pensando em algo maior. Precisamos pensar a Região Oeste, por exemplo, deixando de lado as picuinhas. Só vamos conseguir avançar se trabalharmos de forma unida e dentro de uma visão macro. Infelizmente, isso não tem acontecido nos últimos anos, principalmente no meio político. É cada um puxando para o seu lado. O associativismo existe para isso, para unir! 

Você se considera um bom observador?
Aprendi com meus avós que temos dois ouvidos, dois olhos e uma boca. Nos ambientes em que estou sempre procuro observar para depois emitir uma opinião, justamente para respeitar as pessoas que lá estão, bem como a sua ideologia, o seu modo de pensar e viver. Obviamente, eu tenho a minha ideologia e a minha forma de pensar o mundo, mas as relações precisam ser construídas no respeito.

Voltando ao empreendedorismo, precisamos de uma nova cultura?
Urgentemente. E precisamos também de um ambiente mais favorável para empreender no Brasil, com políticas públicas que favoreçam e estimulem. Temos que evoluir e trazer uma melhor experiência para o consumidor. E temos pouco tempo para evoluir. O mundo está à frente. A qualquer momento vamos sofrer com esta concorrência externa.  

A Acic tem hoje 53 núcleos. Qual a estratégia para unir empresários?
O grande papel da Acic é desenvolver os empresários e suas empresas. Dentro deste contexto, pretendemos criar uma esteira de negócios em que os núcleos possam estar oferecendo seus serviços aos próprios nucleados. Ainda não temos um mecanismo para fazer isso, mas provavelmente vai ser desenvolvida uma ferramenta para isso.

Diante de tanta insegurança, jurídica, tributária e econômica, qual é o papel de um líder?
É levar estas demandas ao poder público, demonstrar esta insegurança e propor formas de trabalhar em conjunto para tornar o ambiente mais favorável e seguro. 


FRASES

“Eu defendo a participação feminina e quero incentivar isso, criando formas de as mulheres estarem mais presentes no dia a dia da entidade”

“Sempre procuro observar para depois emitir uma opinião, justamente para respeitar as pessoas, a sua ideologia”

“O corredor do agronegócio, às margens da BR 467, é uma ideia para fortalecer a indústria do agronegócio aqui em nossa região”

“Cascavel e Toledo vão ter que dialogar e não apenas no ambiente político, mas na iniciativa privada também”


Legenda:
Michel Lopes: combinação de forças que vão da habilidade de conduzir a inovação a conexões poderosas com outros líderes 


QUEM É ELE?
O empresário e contabilista Michel Vitor Alves Lopes tem 36 anos, é casado com Daniele e pai de Cecília, 6, e Marjorie, 8.

 

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