Matérias

Edição 131
SÉRIE COOPERATIVAS

Com a palavra, Lang!

Texto Rejane Martins Pires

Publicado em 29/08/2019



A Revista Aldeia entrevistou presidentes de cooperativas da região Oeste para falar sobre o crescimento do cooperativismo, lições estratégicas, desafios, experiências pessoais e, claro, temas atuais como sucessão e intercooperação. Alfredo Lang, da C.Vale, com sede em Palotina, é o segundo entrevistado.

Nascido em Candelária, no Rio Grande do Sul, Lang é formado em agronomia pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). Começou a trabalhar na C.Vale em 1976 e assumiu a presidência da cooperativa em 1995. Está no comando da C.Vale há 24 anos.

O que o Alfredo Lang aprendeu com a C.Vale?
Quando se passa mais de quatro décadas numa mesma empresa, o aprendizado é muito, muito grande. Entrei na cooperativa em 1976 como funcionário, sem jamais imaginar que chegaria à presidência. Você aprende que tem que estar preparado para aproveitar oportunidades, tem que buscar conhecimento, ter compreensão para saber se adaptar às mudanças nos costumes e na tecnologia. Nesses 43 anos também aprendi muito em cursos, viagens e no contato com especialistas dos mais diversos segmentos. É uma experiência muito proveitosa.

E o que a C.Vale tem do Alfredo Lang?
Eu sempre digo que se você quer conquistar alguma coisa, você precisa de três fundamentos: fé, talento e persistência. Nos anos 1980 e 1990 o sonho dos associados era a industrialização, mas não conseguíamos colocá-lo em prática por dificuldades financeiras e por falta de consenso sobre o local onde as indústrias deveriam ser construídas. Elaboramos um Plano de Modernização, definimos o rateio do ICMS da industrialização entre os municípios envolvidos e nos lançamos na maior empreitada da história da cooperativa. Fomos atrás de alta tecnologia, rodamos o mundo para conhecer a atividade. Começamos um complexo avícola sem experiência na atividade e muitos me chamavam de louco. Iniciamos pela avicultura, depois a industrialização de raiz de mandioca e, mais recentemente, de peixes. Em 1994 tínhamos 798 funcionários, 6.100 associados, um faturamento de R$ 128 milhões e a industrialização era praticamente inexistente. Hoje a C.Vale tem 21 mil associados, fatura R$ 8,5 bilhões e tem 10 mil funcionários. Desses, mais de seis mil são das indústrias. Temos abatedouros de frangos, de peixes e indústrias para processamento de mandioca. O que eu quero dizer com isso? Você precisa acreditar no seu sonho e focar-se nele, tem que saber usar e aprimorar suas habilidades, e precisa levantar a cada tombo, desviar obstáculos, não desistir daquilo em que acredita. Eu acredito que a C.Vale absorveu um pouco dessa filosofia. 

Na sua visão, como a Região Oeste avalia a C.Vale?
Eu tenho a impressão que hoje as pessoas têm uma boa noção do impacto social e econômico da C.Vale e não só dela, mas das cooperativas da região, porque são as maiores empregadoras, as maiores geradoras de renda e tributos. Tente imaginar o que seria do Oeste do Paraná sem a industrialização do frango, do peixe, dos suínos, do leite. Os funcionários dessas indústrias, os produtores, os prestadores de serviço, será que essas pessoas estariam aqui, será que as vendas do comércio e da indústria seriam nos níveis atuais? Ou estaríamos dependentes apenas dos grãos, sujeitos ao clima todo ano? Talvez as pessoas ainda não tenham se dado conta do potencial que existe para crescer. Eu vejo um futuro bastante promissor com a agroindustrialização. Muita renda e muitos empregos ainda serão gerados pela agregação de valor à produção primária, isto é, pela transformação dos grãos em produtos industrializados.

Qual sua maior ambição como presidente da cooperativa?
Nós temos muitos planos para colocar em prática através da C.Vale. Quero ter saúde e uma vida longa para continuar ajudando a cooperativa a expandir seus negócios e gerar renda e empregos. Você pode ter certeza que a maior alegria que um homem pode ter não é aquilo que ele conquistou para si, mas aquilo que ajudou os outros a alcançar. Digo isso porque vejo muitos filhos de produtores saindo para estudar e depois voltando para dar continuidade às atividades dos pais porque a propriedade está diversificada e gera renda suficiente para mantê-los no campo. Não tem recompensa maior do que essa. Foi uma conquista coletiva, a gente deu o pontapé inicial, apontou o caminho, as tecnologias. As pessoas confiaram na ideia e construíram o seu próprio destino, não ficaram esperando pelos governos. 

A C.Vale nasceu com a preocupação de aumentar a produção dos pequenos produtores. E, hoje, qual é sua missão?
Nossa principal missão é agregar valor à produção primária. Quando você transforma grãos em produtos industrializados, você adiciona valor ao que o agricultor produz, gera empregos e gera renda. Ficar apenas comercializando grãos até pode ser uma opção se você tem escalas extraordinariamente grandes de produtos. A agregação de valor tem muito mais efeitos sociais, você cria um círculo virtuoso. Veja o caso do frango, por exemplo. Temos centenas de produtores no sistema de integração que emprega 5.600 pessoas de 26 municípios do Paraná e Mato Grosso do Sul. Essas pessoas, produtores e funcionários, compram no comércio, na indústria, movimentam prestadores de serviços. Tem o benefício paralelo da arrecadação de impostos gerada pela atividade, tem a melhoria da qualidade de vida das pessoas. Então, posso te dizer com segurança que nossa missão é criar as condições para gerar renda, para que a atividade econômica garanta benefícios sociais. Não queremos apenas uma cooperativa grande, queremos a cooperativa como meio para as pessoas construírem um futuro melhor.

Como inserir o pequeno produtor no mercado competitivo?
O caminho para o pequeno é a diversificação. Não existe alternativa fora disso. Ou você se dedica a uma atividade que gere um bom nível de renda em área pequena ou está fora do jogo, não tem futuro. Produtor com 10 ou 15 hectares não sobrevive só com grãos, com os riscos do clima. Um pequeno proprietário pode ter um alto nível de renda com frangos, peixes, leite, suínos, mandioca. Se você conversar com um produtor de frangos da C.Vale, por exemplo, ele vai te dizer tranquilamente que a rentabilidade é de 50%. Com o peixe é ainda maior. Nós temos muitos casos de associados que começaram a diversificar há 20 anos e hoje estão passando o bastão para os filhos, estão ampliando o número de aviários, estão aumentando a área de açudes, o plantel de leite, de suínos. O futuro do pequeno produtor é a diversificação de atividades, com alta tecnologia e alta produtividade.

O que Palotina pode ensinar ao mundo?
O exemplo que deu certo no Oeste do Paraná foi a combinação de vocação com abundância de matéria-prima. Os produtores aqui da região têm vocação para a diversificação de atividades, eles gostam de lidar com criações ou com culturas alternativas. Então nós juntamos essa vocação com a oferta de grandes quantidades de soja e milho, que são as matérias-primas das rações. Essa combinação nos dá condição de produzir carnes e leite com bom nível de competitividade. Não adianta você colocar um frigorífico numa região em que não exista vocação para a diversificação, como já aconteceu aqui no Paraná. Você vai quebrar.

Olhando toda a história, o que lhe emociona mais?
Outro dia, eu estava vendo uma família. Eram três gerações. O avô veio para o Paraná onde começou com grãos, leite e suínos. O filho ampliou a diversificação e os netos estão dando continuidade. São três famílias vivendo em 17 hectares e conseguindo dar faculdade aos filhos. Uma das netas está fazendo Veterinária para aplicar o conhecimento na propriedade. Mas isso só é possível porque a diversificação proporcionada pela C.Vale e pela Frimesa gera renda suficiente para garantir a permanência dela na propriedade. E temos muitos casos assim, eram oportunidades que não existiam antes da diversificação. Essa é a reforma agrária que o Brasil precisa, com tecnologia, com assistência técnica, com agregação de valor, com sistema de integração que garante a comercialização. Então, esse trabalho de criar oportunidades para as pessoas melhorarem de vida é o que mais me gratifica.

Hoje, o cooperativismo está arraigado, mas quando começou quais foram os desafios?
Era outra época e as necessidades eram outras. As cooperativas foram criadas basicamente para resolver problemas de armazenagem e comercialização. Por um tempo isso foi suficiente porque eram empresas pequenas, regionais. À medida em que os concorrentes foram crescendo, as margens de lucro diminuíram, as famílias cresceram mais que as áreas de terras, as necessidades mudaram. As cooperativas ampliaram suas áreas e segmentos de atuação, passaram a enfrentar competidores globais. A gestão se tornou bem mais complexa, exige mais conhecimento, novas ferramentas, preocupação em ganhar com a escala de produção e não com o preço, você tem que entregar com um nível de qualidade muito maior. Você tem que melhorar sua rentabilidade no presente e, ao mesmo tempo, se antecipar aos passos que o concorrente venha a dar daqui dois ou três anos.    

Quais os desafios e estratégias frente à velocidade do mundo moderno?
Com as novas tecnologias, ou você se adapta ou fica para trás.  No caso de uma grande empresa, você precisa de um cuidado adicional: não pode sair abraçando tudo que é tecnologia assim que ela surge. Mudar um programa de computador, uma ferramenta de gestão, numa empresa com cinco funcionários é uma coisa, e fazer isso numa corporação com 10 mil funcionários é bem diferente. Os custos são gigantescos, os cuidados com segurança são enormes. Você tem que buscar referências, fornecedores confiáveis. Mas, ao mesmo tempo em que você tem que dar passos seguros, é preciso se antecipar. Foi o que a C.Vale fez no frango, por exemplo. A cooperativa foi a primeira empresa brasileira a utilizar a tecnologia da climatização de aviários para a produção comercial de frangos no país. Isso nos permitiu ganhar competitividade e conquistar mercados importantes no mundo todo porque as outras empresas adotaram essa tecnologia depois.

Qual a receita para não ser afetado por instabilidades? Estar bem capitalizado? Investir em recursos humanos?
A C.Vale optou por ter várias fontes de receita. É o que eu chamo de colocar os ovos em mais de uma cesta. Quando atuávamos só com grãos, a receita variava muito de um ano para outro, ficávamos muito dependentes das condições climáticas. A diversificação de atividades nos deu mais segurança. Hoje temos soja, milho, trigo, mandioca, leite, suínos, frangos, peixes, insumos, aviação agrícola, supermercados e máquinas. Nosso faturamento dobra a cada quatro anos. E também ampliamos nossa área de atuação. Duas décadas atrás atuávamos no Paraná, Mato Grosso e Santa Catarina. Agora estamos também no Mato Grosso do Sul, Rio Grande do Sul e Paraguai, com um total de 150 unidades de negócio. Se você tem uma receita mais estável, consegue planejar melhor seus investimentos, e os bancos também ficam mais seguros para emprestar seus recursos.

Como a C.Vale está trabalhando a sucessão?
As cooperativas qualificam seus quadros de maneira permanente, com o auxílio da Organização das Cooperativas do Paraná. Temos pessoas que estão se qualificando para assumir os postos de comando quando chegar o momento certo.

O sexto princípio do cooperativismo é a intercooperação. Na prática isso ocorre? 
Claro que ocorre.  Nos segmentos de suínos e leite, por exemplo, a C.Vale presta assistência técnica para produtores e eles entregam a produção à Frimesa.

O que lhe preocupa hoje?
Muitas coisas. Carga tributária, baixo nível de consumo do mercado interno, barreiras comerciais do mercado externo, nível dos juros para investimentos, logística. São questões que reduzem a competitividade das empresas. 

Por fim, o que lhe motiva a levantar todas as manhãs?
Criar oportunidades para as pessoas melhorarem de vida. Quando você recebe um associado e ele diz que a renda aumentou, que o filho foi estudar fora e voltou para dar continuidade aos negócios, que a família está vivendo com mais conforto, está fazendo planos para expandir as atividades, isso não tem preço que pague. Você vê funcionários comprando suas casas, trocando o carro, pagando o estudo dos filhos; vê o comércio com um nível de vendas melhor do que há 20 ou 25 anos porque a agroindustrialização gerou mais renda, se sente recompensando, vê que o trabalho deu certo e se motiva para avançar ainda mais e beneficiar mais pessoas. Para mim, a realização que dá mais prazer é aquela que você ajuda os outros a conseguir.


C.VALE EM NÚMEROS
21 mil associados
Faturamento R$ 8,5 bilhões
10 mil funcionários



FRASE
“Eu sempre digo que se você quer conquistar alguma coisa, você precisa de três fundamentos: fé, talento e persistência”

LEGENDA
Alfredo Lang, presidente da C.Vale: “Você precisa acreditar no seu sonho e focar-se nele”

 

DEIXE SEU COMENTÁRIO

Importante: Comentários com conteúdo sensível, impróprio ou que for considerado inadequado – por qualquer motivo, a critério do moderador – serão sumariamente deletados.

Deixe seu comentário.
×

Assine Aldeia

Por apenas R$ 9,90* / mês.

Deixe seu telefone, nós ligamos para você.
Venha fazer parte da nossa tribo!