Matérias

Edição 128
PRÊMIO OCEPAR

VENTOS DA MORTE, VENTOS DA VIDA

Nova Laranjeiras 13.06.1997

Texto Rejane Martins Pires

Publicado em 09/09/2019



No dia 13 de junho de 1997 um vendaval atingiu Nova Laranjeiras, município a 110 km de Cascavel, e deixou 80% das casas da cidade no chão. Quatro pessoas morreram e outras 76 ficaram feridas.  Pelo cenário de destruição, o episódio foi classificado por alguns especialistas como um tornado tipo F3 dentro da escala Fujita, criada em 1971 para medir a intensidade destes incidentes. F3 é tido como um “tornado severo” com ventos entre 252 e 331 km/h.

 
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VENTOS DA VIDA

Nova Laranjeiras
12.04.2019

 
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“Não tinha pior escolha para o Sicredi. Nova Laranjeiras já era pobre e agora, depois da tragédia, ficou ainda mais pobre”. Esta frase foi dita por um morador no ano de 2002, quando a cooperativa se instalou no município, e sempre
é lembrada pelo presidente da Sicredi Grandes Lagos, Orlando Muffato, para reafirmar o 7º princípio universal do cooperativismo: interesse pela comunidade. “O Sicredi foi a primeira instituição financeira a se estabelecer lá e, a partir disso, deu muitas contribuições, facilitando a inclusão financeira, apoiando iniciativas empreendedoras e direcionando recursos para investimentos pontuais, principalmente na agricultura”. 

Hoje, quando alguém pergunta se a agência é viável, a resposta se dá pelos números. Com uma população estimada de 11.927 habitantes, o Sicredi tem 1.607 associados (além de poupadores e beneficiários do INSS) e 70% dos recursos captados no município estão dentro da cooperativa. Entre créditos e captação, os recursos administrados passam dos R$ 50 milhões. “Em 2018 tivemos um resultado líquido anual de R$ 1 milhão”, explica o gerente Adriano Oro. 

Há vários fatores para este êxito. Um deles é o espírito de cooperação da comunidade, que se fortaleceu após o episódio. Outro vem do posicionamento da cooperativa. “Estamos sempre presentes. Existem associados a 60 km da sede e nós vamos até eles, fazemos assembleias, participamos das reuniões e das festas de igreja. As pessoas se sentem valorizadas e isso fortalece tanto o sistema cooperativo quanto a própria comunidade”, explica Oro. 

Com uma lógica inversa da maioria dos municípios paranaenses, em que 85% das pessoas vivem na área urbana, em Nova Laranjeiras, 76% dos habitantes estão em ambiente agrícola. As concessões de crédito rural não apenas melhoraram a vida no campo, como se refletiram em investimentos na cidade. Os reflexos mais visíveis estão nas modernas construções, no comércio movimentado, nas casas de alvenaria, na melhoria da estrutura urbana e na qualidade de vida dos moradores. “O Sicredi assumiu um papel de protagonista, pois chegou no momento certo. A cidade estava se reestruturando e a presença do cooperativismo de crédito ajudou a fomentar a economia local. As pessoas passaram a acreditar mais na cidade”, comenta o empresário e ex-prefeito por duas gestões, Nelci da Rosa, 67 anos. 

Os ganhos sociais obtidos pelo despertar do espírito cooperativo, explica, só foram possíveis pela mudança de cultura. “Com esta proximidade e relacionamento diferenciado, olho no olho, até a participação comunitária mudou. Eu vejo as cooperativas de crédito como uma benção. Elas transformam o cidadão que, naturalmente, transformam o ambiente em que vivem”.  






                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                            Orlando Muffato, presidente da Sicredi Grande Lagos: Interesse pela comunidade 

 
                                                                                                                                                                         
IMPACTOS DE UM
DESASTRE NATURAL


Na época do vendaval, foram contabilizados R$ 6,5 milhões em prejuízos. O pronto-atendimento veio de várias frentes. Para se ter uma ideia, mais de mil voluntários trabalharam na reconstrução das casas. Porém, apesar do restabelecimento material, é nítida uma perpetuação dos impactos na vida das pessoas. Passadas duas décadas, os moradores vivem assombrados. “Basta uma nuvem mais escura e eu fico em alerta. Não durmo e a primeira coisa que faço é vestir uma roupa. Estou sempre em vigília”, diz a dona de casa Maria Áurea Spironello.  

Sua casa, recém-construída, foi engolida pelo vento. “Sobrou a parede do banheiro e o piso. Não ficou nenhum objeto, nada. Só recuperamos as certidões de nascimento das meninas. Mas a maior comoção daquele dia foi encontrá-las com vida”. Além de reconstruir a casa, agora em alvenaria e reforçada com ferro, a primeira medida após se associar ao Sicredi foi colocar no seguro. “Não sei explicar a sensação de chegar em casa e não ter mais casa, nem dinheiro para retomar a vida, por isso fiz o seguro residencial. Traz um proteção pra gente”, afirma. 

O próprio jeito de lidar com o dinheiro também mudou na cidade. “O número de poupadores aumentou nos últimos anos e temos um volume alto de contratação de seguros. Fechamos o ano passado com R$ 750 mil em prêmios”, reforça Oro.

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Maria Áurea em sua casa reconstruída e segurada:
"Não sei explicar a sensação de chegar em casa e não ter mais casa” 

  

13 DE JUNHO, DIA DE 
SANTO ANTONIO


“Eu sei o que é perder tudo”. Quando “seo” Antonio Schafranski diz isso seguido de um silêncio sepulcral certamente revive toda a angústia daquela sexta-feira 13 de junho, dia do santo que leva o seu nome. Antonio estava em sua ferraria com um dos filhos e só salvou porque se protegeu embaixo de uma bancada de madeira maciça. 

Sua esposa Tereza e outro filho estavam em casa e foram arremessados a cerca de 50 metros de distância. Foram encontrados uma hora mais tarde, quando a tempestade diminuiu, feridos em meio aos escombros. “Foi um alívio porque o cenário era de guerra. Casas destruídas, carros tombados, árvores retorcidas e gente desesperada”, lembra. “Alguns vizinhos queriam ir embora, mas não se foge assim do lugar onde se vive. Aos poucos, graças à união de todos, tudo foi reerguido”. 

Se esta cooperação inicial foi instintiva, por pura sobrevivência, depois ela ganhou novos contornos com o associativismo e o cooperativismo. “Este trabalho contínuo que o Sicredi vem fazendo desde 2002 em Nova Laranjeiras, fornecendo crédito às pessoas, às empresas, fomentando a agricultura e participando ativamente do dia a dia, resultou num ambiente positivo, num lugar em que as pessoas tem orgulho de morar”, garante Orlando Muffato.

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“Seo” Antonio Schafranski, em sua ferraria: silêncio em dias de chuva 

O CATA-VENTO DO BEM

Impossível não relacionar o vendaval de 1997, em Nova Laranjeiras, com o cata-vento estampado na marca Sicredi. Se, por um lado, a fúria da natureza arrasou a cidade. Por outro, os bons ventos de uma construção humana, o cooperativismo de crédito, a reavivou, numa demonstração clara de que os valores e princípios defendidos por seus precursores continuam sendo o seu bem maior. 
A solidariedade e a mobilização voluntária das pessoas naquele momento crítico, segundo o presidente  nacional do Sistema Sicredi, Manfred Alfonso Dasenbrock, serviu de alicerce para a chegada da primeira cooperativa de crédito na cidade. “Digo isso porque a solidariedade é um dos fundamentos do cooperativismo e este espírito solidário formou as bases para um ambiente cooperativo e colaborativo que predomina naquela região”, observa. 

Uma região, explica Dasenbrock, de topografia acidentada, em que não se imagina, num primeiro olhar, toda a pujança de sua agricultura e pecuária, mas que os números mostram uma realidade extremamente positiva, inclusive, no que se refere à fixação do homem no campo, índice maior que a média estadual e nacional.  “Isso reflete a sensação de bem-estar que as pessoas acabam tendo no interior, em suas comunidades, quando o cooperativismo cumpre sua função de promover o desenvolvimento sustentável”.


REFLEXOS DO PIONEIRISMO

Com uma economia baseada na agropecuária, Nova Laranjeiras está entre os dez municípios com maiores rebanhos bovinos do Paraná e produz 35 milhões de litros de leite/ano. A título de comparação, a produção de soja saltou de 12.600 toneladas/ano em 2005 para 29.160 toneladas/ano em 2017. Outras culturas como milho, trigo, feijão, além da avicultura, suinocultura, fruticultura e piscicultura, movimentam uma engrenagem que se traduz em oportunidades no campo e na cidade.

Atualmente, segundo dados da Prefeitura Municipal, são 458 estabelecimentos comerciais em atividade e, após o pioneirismo do Sicredi - e contrariando toda a descrença inicial -, mais três instituições financeiras se instalaram (Sicoob, Cresol e Banco do Brasil). Há ainda dois postos de atendimento da Caixa e uma central de recebimentos do Bradesco.
 
MEMÓRIAS

“Na época, eu trabalhava na prefeitura. Vi o céu diferente. Estava escuro com nuvens avermelhadas muito baixas, fazendo um movimento estranho. De repente, pedras do tamanho de uma bola de sinuca começaram a cair e o vento aumentou. A gente ouvia os estalos de madeira rachando e o desespero tomou conta. Corri pra casa e encontrei minha esposa com minha filha recém-nascida dentro do guarda-roupa, único móvel intacto. Apesar de toda a destruição, não perdemos ninguém da família. Mas todo aquele sofrimento emudeceu meu pai. Durante muito tempo, o Dia de Santo Antonio era lembrado com certa tristeza. Na escola também virou um marco. O assunto foi pauta até de uma tese de mestrado. A grande lição foi a da união. As pessoas descobriram uma força até então desconhecida”.
Hélio Schafranski, professor

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Hélio e pai, seo Antonio: “Não se foge do lugar onde se vive”

 

“Eu estava em Laranjeiras do Sul, onde tinha um supermercado, e algumas pessoas foram pedir socorro. Na hora, você pensa na família. Vim imediatamente. Tudo estava ao chão, posto de combustível, mercado, lojas, casas. A cena mais comovente e que me faz chorar até hoje foi chegar na casa dos meus pais e ver meu pai, com 78 anos, de guarda-chuva no meio da sala e minha mãe, embaixo de uma mesa. Eles estavam desnorteados. O supermercado da minha irmã foi o mais atingido. Ela perdeu tudo, mas tudo mesmo. Meu pai ficou tão desgostoso com a tragédia e logo depois faleceu. Este tipo de acontecimento é tão forte que quando acontece algo como houve recentemente em Brumadinho, nós sofremos junto. O único lado bonito desta história foi ver toda a dor e desesperança ser transformada em estímulo para mudar uma vila numa cidadezinha bonita que é hoje”.
Nelci da Rosa, empresário e ex-prefeito

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“Eu tinha 12 anos e estava na escola. Um dia chuvoso, mas nada de anormal. De repente, os ventos ficaram mais fortes. Só ouvia os vidros estourando, pedaços de madeira passando pela janela, grito e choro. O pânico tomou conta da escola, mas nós não imaginávamos o que estava acontecendo. Quando tudo se acalmou, minha mãe apareceu desesperada atrás de mim. Como eu estava bem, só com um pequeno corte no braço, saímos em disparada atrás da minha irmã, Juliana. A princípio, ela deveria estar em casa. De longe, vimos a casa destruída e minha mãe simplesmente travou. Juliana estudava de manhã e nunca saía de casa à tarde, mas naquele dia resolveu ir na vizinha. Quando vimos ela descendo a rua, foi uma emoção só. Perdemos tudo, mas ao mesmo tempo, tínhamos tudo: nossas vidas”.
Danuza Spironello, professora de Geografia

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Danuza e a certidão de nascimento: único objeto que recuperou após o vendaval


RAIO X
NOVA LARANJEIRAS

Fundação:
1 de janeiro de 1993 
População estimada: 11.927 pessoas
IDH-M: 0,697 
Escolas: 

07 escolas municipais 
11 escolas estaduais
02 Cmeis
Biblioteca: 01
Posto de saúde: 07
Hospital: 01 pronto atendimento
Rede de esgoto: 80%
Ruas asfaltadas: 70% da sede do município 
                             40% da estrada rural
Instituições financeiras: 04 (Banco do Brasil, Sicredi, Sicoob, Cresol)
Estabelecimentos comerciais: 458 em atividade
Propriedades rurais: 2.761 

Fonte: Prefeitura Municipal



 

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