Matérias

Edição 132
SENAC

Pollyanna aprendiz

Texto Rejane Martins Pires
Foto(s) Bruna Scheidt

Publicado em 04/10/2019



Pollyanna e Eduardo nem se conhecem, mas suas histórias de vida se conectam pelo Programa de Aprendizagem do Senac 

 
Pollyanna é a personagem central de um romance lançado em 1913 pela norte-americana Eleanor H. Porter. Órfã de pai e mãe, a menina atravessou gerações ensinando o “jogo do contente”, que consiste, basicamente, em extrair algo de bom e positivo em tudo, mesmo nas coisas mais desagradáveis. Mais de cem anos após o lançamento da primeira edição do livro, outra Pollyana, cujo nome foi inspirado pela obra de Porter, continua a missão de espalhar esperança por onde passa.

Protagonista de uma história comum a milhares de brasileiros, a Pollyana do século 21 é amazonense, de sobrenome Silva Menezes. Tem 18 anos, filha de pais separados, quatro irmãos, várias mudanças, atraso escolar e muita coragem. Coragem esta que a fez deixar o Bairro de São José, na Zona Leste de Manaus, para acompanhar o marido Matheus (sim, ela casou-se aos 16 anos) numa aventura até Cascavel, no Oeste do Paraná, distante 3.687 quilômetros. “Queríamos crescer na vida e lá não tínhamos perspectivas nenhuma”, diz.

Migrar assim parece fácil quando se tem dinheiro. Não foi o caso. Tudo o que a jovem tinha era um computador, comprado em diversas parcelas com a bolsa do Jovem Aprendiz. Antes disso, ela já trabalhava. Começou aos 11 anos na pizzaria do irmão. Depois, foi ajudante da mãe num salão de beleza. No dia em que completou 14, foi em todos os órgãos que intermediam estágio e inscreveu-se para uma vaga do Jovem Aprendiz.

No Senac de Manaus ainda, ela fez o curso de Aprendizagem em Administração e trabalhou numa recuperadora de crédito. “Não me adaptei muito, pois se eu errasse descontavam do meu salário, na época R$ 300, e eu era muito nova para lidar com dinheiro”, conta. “Saí deste emprego e fui para uma distribuidora de alimentos. Aprendi muito lá”.

Em Cascavel desde abril de 2018, longe da família, Pollyana precisou exercer o “jogo do contente”. Sem dinheiro, sem emprego e morando de improviso na casa da sogra, buscou na memória uma frase do livro: “Ser em detrimento do ter”. Poderia, sim, conseguir um emprego e ficar ali na zona de conforto. Preferiu olhar adiante. Tão logo conseguiu a transferência escolar e a declaração de matrícula, foi à luta. “Eu estava desesperada, mas queria de Jovem Aprendiz porque eu já conhecia e porque agrega mais cursos, mais conhecimento”.

Em janeiro deste ano soube de uma vaga numa empresa da Av. Carlos Gomes. Pegou sua bicicleta, R$ 2 no bolso e foi para a entrevista. “Fui me aproximando do endereço e vi que era no Super Muffato. Já fiquei feliz. Cheguei toda suada, esperei pela entrevista rezando e a primeira pergunta foi: ´por que deixou Manaus para morar em Cascavel?´. Contei minha história e saí esperançosa. Naquele dia não almocei para economizar o dinheiro para o xerox, caso fosse chamada”.

Chegando em casa, uma ligação. A vaga era dela. “Glória a Deus!”, gritei. No outro dia, correu tirar xerox, encaminhar a documentação e ainda sobrou 0,50 centavos. Para ela, uma fortuna. “Eu valorizo cada moedinha”, afirma. Atualmente cursando Aprendizagem em Serviços de Supermercados e ganhando em média R$ 550, Pollyana quer continuar no programa quando vencer o contrato. “Quero fazer Vendas ou Administração novamente porque gostei da didática aqui do Paraná. Quando concluir o Ensino Médio, vou fazer um técnico e depois uma faculdade”.
  
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Cada centavo gasto é anotado: “Aprendi isso no Senac” 

DIÁRIO DE POLLY
No pequeno caderninho, a jovem traz na ponta do lápis a contabilidade do casal, uma lista de desejos e o que é preciso economizar. A renda mensal dos dois não passa de R$ 1,5 mil. Na pequena quitinete alugada, o básico para viver: um colchão no chão, fogão (só uma boca funciona), pia e dois armários. A geladeira pifou e as refeições são feitas no chão. Nada disso, porém, tira o seu otimismo. “Umas das coisas que mais valorizo é o trabalho. Outra é o curso. Sei que, com paciência e foco, vou conseguir”, afirma. “E o Senac indica bons alunos e dá oportunidade. Eu aproveito cada segundo tanto do estágio quanto das aulas. Em oito meses, aprendi muito. Não apenas a parte técnica, mas vivência de mundo. Os professores são muito humanos e vão além dos livros”, reforça.

E, por falar em livros, eles são o maior tesouro da casa. Ficam no chão, num cantinho do quarto. Nada de conforto também para as tarefas e leituras. “Eu não fico focando nisso, nos problemas. Vou resolvendo um a um e penso lá na frente”. Só de uma coisa ela se ressente. Ter vendido a bicicleta por R$ 80. Mas foi por um motivo justo: comprar comida. “Em momentos difíceis aprendi que você deve procurar um motivo para ficar contente. Também é preciso sonhar e realizar, enfim, correr atrás. Tenho muito orgulho da minha história”, conclui.
 

OS DEGRAUS DE EDUARDO
A taxa de desemprego no Brasil está na casa de 12%, atingindo 12,8 milhões de pessoas, segundo dados divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Entre os jovens este percentual sobe para 27,3%. Estes números acentuam ainda mais a tensa relação entre jovem e mercado de trabalho, cada vez mais exigente. De fato, começar a vida profissional com altos índices de desemprego assusta. 

Porém, quando a caminhada começa não como um emprego, mas como experiência, as portas se abrem mais facilmente. É o caso de Eduardo Bieber de Oliveira, 22, assistente de faturamento do Super Beal. Ele começou como aprendiz aos 14 anos. Trabalhou no pacote, como repositor de loja e na feira. Após dois anos conciliando as aulas no Senac e o trabalho, foi efetivado como “cartazista”. 
Continuou fazendo cursos de aperfeiçoamento e liderança e, após dois anos, foi promovido para o setor de faturamento, na função que exerce atualmente. Prestes a concluir a faculdade de Processos Gerencias, Eduardo já pensa numa pós e numa segunda faculdade. “O Programa Jovem Aprendiz abriu meus olhos para o mundo. Aprendi a ter responsabilidade desde cedo, cuidar do meu dinheiro e ter foco para atingir meus objetivos”. 

Nestes oito anos dentro da empresa, Eduardo também já teve a chance de ensinar outros jovens. “É muito gratificante e é mais fácil compartilhar conhecimento quando você viveu aquela experiência. Sempre digo que vale a pena se dedicar e ter paciência para subir cada degrau com a convicção da escolha certa”, afirma. “Nós, jovens, temos muitas dúvidas sobre a escolha profissional, mas este direcionamento por parte de seus líderes e professores ajuda muito”.
 
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Eduardo Bieber está no Super Beal há oito anos: começou como Jovem Aprendiz 


Portas abertas
Dos 700 funcionários do Super Beal nas cinco lojas em Cascavel, 33 são jovens aprendizes. Com uma política de valorização do capital humano, o jovem-alvo é aquele que possui indicadores sociais desfavoráveis e muita vontade de crescer. Simplificando, o jovem para quem ninguém estendeu a mão ainda. “Esta parceria com o Sistema S já existe há bastante tempo e a grande maioria dos jovens, depois que cumprem o contrato, são efetivados. Os que não têm a idade mínima esperam completar 16 anos e voltam”, explica a psicóloga Luciana Talini. Ela própria conseguiu a vaga depois do estágio da faculdade.

Durante o programa, explica, os jovens têm acesso a vários setores e, desta forma, mais ferramentas para conhecer e comparar as diferentes funções e escolher a que mais se adaptam. “É muito recompensador acompanhar a evolução deles. Do primeiro dia à formatura, a transformação é visível. Muitos chegam tímidos e aos poucos vão se abrindo, aprendendo a se relacionar dentro e fora do ambiente de trabalho, trilhando assim o seu futuro profissional”, frisa.
 

Tem experiência?
Criada na virada do milênio, a Lei da Aprendizagem Brasileira Nº 10097/00 completa 19 anos com muitas conquistas e desafios. No Paraná, atualmente são 1.524 empresas e 48.483 inscritos no Programa Jovem Aprendiz do Senac. Em Cascavel, desde que foi implantado em 2005, já foram realizadas 68 turmas, atendendo mais de 2 mil alunos. Atualmente são 11 turmas em andamento nos cursos de Aprendizagem em Serviços de Vendas, Aprendizagem em Serviços Administrativos e Aprendizagem em Serviços de Supermercados, totalizando 250 alunos. 

Para os jovens, segundo a técnica de Educação Profissional e Tecnológica, Sandra Regina Bonotto, é a oportunidade do primeiro emprego. “Para as empresas significa a chance de treinar e desenvolver profissionais para que futuramente possam compor efetivamente o quadro de colaboradores, exercer outras funções ou até mesmo criar carreira,” explica. Esta perspectiva de futuro é o grande mérito do programa. “Eles passam a compreender que é preciso se qualificar para alcançar boas posições no mundo do trabalho”.

As próprias empresas mudaram o olhar para o jovem. “Antes, o aprendiz era colocado em ambientes inadequados e passava boa parte do tempo na empresa sem atividades, não sendo aproveitado seu trabalho; apenas estava cumprindo a cota exigida por Lei. Muitos tinham um potencial enorme, mas a empresa não identificava”, conta. Aos poucos, graças a um movimento de conscientização, esta cultura foi mudando e os jovens sendo vistos sob outro ângulo. 

Com o tempo, as empresas começaram a pensar diferente e passaram a atribuir mais funções aos aprendizes, otimizando o tempo e a qualidade das atividades práticas. Muitos sentem com o término do contrato, por não poder continuar com o jovem, seja pela questão da idade ou por não dispor de vagas para efetivação. 

Entre os desafios está a abertura de mais vagas. No Paraná, somente 69% das empresas cumprem a cota. Muitas esperam ser notificadas pelo Ministério do Trabalho. Em Cascavel, a fila de espera na Agência do Trabalhador é de mais de 5 mil jovens. “Há um impasse aí. Para o jovem entrar no programa, ele precisa ter a vaga na empresa”, acrescenta Sandra. “Quando os jovens são encaminhados para entrevistas percebemos que algumas empresas perguntam se o jovem possui experiência profissional; mas como se pode adquirir experiência profissional se não houver a oportunidade?”, indaga.
Entra aí a conscientização e a compreensão do objetivo do Programa de Aprendizagem por parte das empresas contratantes, levando em consideração que os jovens não chegam prontos. É um processo contínuo de desenvolvimento de suas habilidades e competências. “É um programa fantástico por transformar a vida das pessoas! Muitos chegam a iniciar sem uma projeção de futuro, com pouca perspectiva de crescimento, sem noção de condutas éticas e até mesmo de cuidados pessoais, mas os avanços acontecem de forma rápida e significativa na vida de cada jovem”, conclui.

Quem pode ser aprendiz?
O aprendiz é o adolescente ou jovem entre 14 e 24 anos que esteja matri-
culado e frequentando a escola, caso não tenha concluído o Ensino Médio 
e esteja inscrito em programa de aprendizagem (art. 428, caput e § 1º, da CLT). 
Caso o aprendiz seja pessoa com deficiência, não haverá limite máximo de 
idade para a contratação (art. 428, § 5º, da CLT).


JOVEM APRENDIZ

Requisitos
Ter entre 14 e 24 anos* e estar matriculado e frequentando a escola, caso não tenha concluído o Ensino Médio.

Vagas
Fique atento, através das redes sociais ou balcões de emprego, à disponibilidade de vagas nas empresas. 

*Não se aplica a pessoas com deficiência

 

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