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Edição 133
AMOP 50 ANOS

1969, o ano que não terminou

O associativismo foi uma etapa no caminho de muitas conquistas da Região Oeste. A criação da Amop, em 1969, desencadeou um processo de ação política e estratégica que continua até hoje

Texto Rejane Martins Pires

Publicado em 25/10/2019

   


Duas mãos, um documento histórico (a ata de criação da Amop) e um legado de pai para filho: Júnior Weiller, presidente da Amop e o pai Aparecido, ex-vice-presidente da entidade, revivem a caminhada.
Foto: Bruna  Scheidt

 
Primeira reunião da Amop, em 1969


Imagine-se nascido no ano de 1969, no Oeste do Paraná. Na primeira aula de geografia, sua professora lhe dirá que sua região é uma das mais promissoras do estado. Terra com grande potencial agrícola, celeiro do Brasil. Em seguida, abrirá um mapa e mostrará algumas distâncias. Você está num cantinho, a 500 km da capital, Curitiba, e a 1.500 km da capital federal, Brasília. As estradas são precárias.

Não há um metro de asfalto ligando os municípios, com exceção da BR 277, recém-inaugurada. A 467, entre Cascavel e Toledo, é chão. Com sol, poeira. Com chuva, atoleiro. A 369, idem. Não há energia elétrica em todas as casas, nem telefone, tampouco televisão. Também não há ferrovia, aeroporto, hospital e universidade pública. Conclusão: há tudo por fazer. 

Coloque-se agora numa aula de história. O presidente do Brasil é Costa e Silva. Nas eleições de 1966, o Paraná elegeu dez deputados federais. Apenas dois da região Oeste. Apenas um deputado estadual. É provável que a professora conte-lhe também sobre os conflitos agrários, a ausência de políticas públicas para educação, saúde, agricultura e industrialização.
 
Eis aí o contexto geopolítico em que foi criada a Associação dos Municípios do Oeste do Paraná (Amop) há cinco décadas, quando 19 prefeitos fizeram nascer mais que uma entidade associativista. Havia ali o compromisso de gerar impacto positivo para a comunidade, promovendo o desenvolvimento regional. Os pilares edificados pelos fundadores ainda hoje inspiram os gestores atuais. 

E, se à época a questão da logística era urgente, ainda hoje, embora em contextos diferentes, continua sendo. Duplicação de rodovias, ferrovia e aeroporto regional nunca saíram da agenda da associação. Da mesma forma, outras tantas bandeiras de luta em diferentes áreas - algumas cumpridas e muitas por cumprir - traduzem este organismo vivo chamado Amop, numa prova de que o ano de 1969, de fato, não terminou. 

Gerações unidas pelo associativismo
Olhe bem para a foto que abre esta reportagem. Duas mãos. Um documento histórico. Várias interpretações. As mãos são do atual presidente da Amop, Júnior Weiller, e do seu pai, Aparecido José Weiller, vice-presidente da entidade em 1990, período em que foi prefeito de Jesuítas, município distante 100 km de Cascavel. 

Quando Júnior nasceu, a Amop ainda estava consolidando sua caminhada dentro do associativismo regional. Menino de 05 anos, ele acompanhava o pai nas reuniões itinerantes, ora numa cidade ora em outra. Não havia sede própria. Para sair de Jesuítas a Cascavel, por exemplo, algumas horas em estradinhas de chão. “Cansamos de atolar o carro”, conta seo Aparecido. “Apesar de todas as dificuldades, tínhamos um sonho: a esperança de ver o Oeste como ele é hoje”, ressalta.

Ao dar a mão para o filho e puxá-lo para as reuniões, ele não apenas despertou a paixão pela política em Júnior, como o engajou nas demandas regionais e no espírito que move a associação. Este legado de geração para geração é o que a transformou em uma das maiores associações do Paraná e do Brasil, não apenas em números de municípios, 54, mas em representatividade. “A história da entidade se confunde com o desenvolvimento do Oeste. Difícil a bandeira em que a Amop não esteve junto”, frisa Júnior, em segundo mandato como presidente.

Por que no Oeste tudo é mais difícil?
Ao mesmo tempo em que se consolidou como polo do agronegócio no estado, sediando, inclusive, as cinco maiores cooperativas do país, a região Oeste enfrenta problemas crônicos de logística. “Veja que, nesta questão, continuamos com as mesmas reivindicações. A diferença é que crescemos e desenvolvemos, mas pagamos um preço alto por isso: contraditoriamente somos punidos pelo Estado e pela União”, afirma Júnior.

Aos olhos dos gestores estaduais e federais, segundo o presidente, o Oeste é autossuficiente e rico. Portanto, nada é urgente. “É uma visão errada. Somos punidos porque fizemos o dever de casa bem feito. Se as outras regiões não souberam trabalhar a questão do associativismo, do cooperativismo e do agronegócio, não temos culpa”.

Embora as obras de infraestrutura para melhorar a logística sejam conhecidas, a região ainda derrapa em torná-las reais. “Naturalmente, o Oeste vai crescer, mas se Estado e União devolvessem os recursos na mesma proporção em que geramos, cresceríamos na velocidade em que estamos preparados e merecemos”, ressalta.

Desafiada por esta ineficiência, a Amop continua sua missão em cobrar investimentos na diversificação dos modais. Se, lá atrás, a luta era pelo asfaltamento, hoje é pela duplicação das principais rodovias, pela extensão da Ferroeste até Foz do Iguaçu e Mato Grosso do Sul, pela construção do aeroporto regional e por um novo modelo de pedágio. “Se ampliarmos a discussão para outras áreas, como a saúde, outro paradoxo. Somos referência em saúde privada, mas a falta de leitos no SUS nos envergonha”, diz o presidente. 

Presidir a Amop em seu cinquentenário, para ele, significa olhar para a história com respeito e focar em novas estratégias de desenvolvimento. “É uma honra viver este marco simbólico”, conclui, testemunhando sua gratidão ao pai e a todos os precursores do movimento associativista na região.

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Junior Weiller e o pai Aparecido: duas gerações na Amop


Oestino, antes de tudo, um forte!

Único oestino a ocupar o cargo de governador do Estado do Paraná, o engenheiro eletricista Mário Pereira, 74 anos, reconhece o papel da Amop na transformação regional. “O Oeste saiu da escuridão e conquistou, em poucas décadas, o protagonismo. Isso se deve à vocação associativista e cooperativista de sua gente”.
Entre tantas necessidades, justamente, a eletrificação. “Cheguei aqui em 1968 e nenhuma cidade era interligada ao sistema elétrico nacional. Cada uma produzia sua própria energia, com motores a diesel ou pequenas usinas. À meia-noite, desligavam tudo. O embate político para a expansão energética também passou pela Amop”. 
Indicado para receber o título de Cidadão Honorário do Oeste do Paraná, Mário Pereira, salienta a relevância do irmanamento entre os municípios firmado em 1969. “Comemorar esses cinquenta anos é celebrar o sucesso das relações econômicas, sociais e culturais entre as nossas cidades”.
 

Oeste, um rincão abençoado!
Com o mesmo espírito sonhador da juventude e ignorando a idade, 80 anos, Werner Wanderer é único membro vivo da primeira diretoria da Amop. Numa rápida conversa ao telefone, fez questão de ressaltar sua participação num evento da Câmara de Comércio e Indústria Brasil-Alemanha (AHK), da qual é representante em Brasília, e de sua caminhada política. Eleito em 1965, aos 26 anos, para prefeito de Marechal Cândido Rondon, foi também deputado estadual e deputado federal. 
Num mergulho em suas memórias, ainda muito vivas e com uma impressionante riqueza de detalhes, datas e diálogos, Wanderer repete, sem pressa, histórias já contadas, mesmo que pela enésima vez. “Nunca duvidei da pujança do Oeste e muitos fatores contribuíram para isso, desde a excelência das terras à sua população empreendedora, sempre movida pela fé, harmonia e esperança. É um rincão abençoado”.


Werner Wanderer, único membro da primeira diretoria vivo: “A Amop nasceu para ser porta-voz dos municípios junto aos governos estadual e federal”


PRINCIPAIS LUTAS ENCABEÇADAS 
PELA AMOP DESDE A FUNDAÇÃO

- Fortalecimento do municipalismo
- Conclusão da rodovia BR 277 (Cascavel-Foz do Iguaçu)
- Asfaltamento das rodovias BR 467 (Cascavel-Guaíra) e BR 369 (Cascavel-Maringá)
- Construção da ponte sobre o Rio Paraná, em Guaíra
- Reforma agrária
- Eletrificação rural
- Telefonia 
- Estrada de ferro (Ferroeste) 
- Hospital Regional
- Universidade pública (Unioeste)
- Aeroporto regional
- Melhorias no sistema de saúde
- Melhorias no sistema de educação
- Industrialização
- Construção do Trevo Cataratas
- Duplicação rodovias
- Novo modelo de pedágio

OESTE EM NÚMEROS
54
municípios
População estimada 1.309.564

•    O Oeste tem 63,5% do rebanho de suínos do Paraná
•    Concentra 22,3% da produção de ovos 
•    É responsável por 22,5% da produção de leite 
•    Dos dez maiores produtores de peixe, 09 estão no Oeste, 
concentrando 57% da produção do Estado
•    35% da produção de milho está aqui
•    Detém 21,3% da produção de soja 


Fonte: Oeste em Desenvolvimento


 
Assoeste: um marco na história da educação regional Estrada Cascavel – Toledo à época da fundação da Amop Construção da ponte Ayrton Senna, em Guaíra, sobre o rio Paraná Voo inaugural no aeroporto de Cascavel Ato pela autonomia da Unioesta Encontro realizado em 1971 com a presença dos fundadores

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