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Edição 133
SÉRIE COOPERATIVAS

Com a palavra, Dilvo Grolli!

Publicado em 25/10/2019


A Revista Aldeia entrevistou presidentes de cooperativas da região Oeste para falar sobre o crescimento do cooperativismo, lições estratégicas, desafios, experiências pessoais e, claro, temas atuais como sucessão e intercooperação. Dilvo Grolli, da Coopavel, com sede em Cascavel, é o entrevistado deste mês. Formado em Administração de Empresa, ele está na Coopavel há 34 anos.

O que o Dilvo aprendeu com a Coopavel e com seu maior evento, o Show Rural? 
Entender as pessoas. No Show Rural, principalmente. Outro grande aprendizado foi na organização de feira. Nós conhecíamos feira, mas não tínhamos organizado uma feira. Então, aprendi com os problemas surgidos no próprio evento. Aprendi, durante esses anos, a não sair do foco. E qual é nosso foco? Apresentar tecnologias. Outra meta é crescer, sim, mas não em número de pessoas. Queremos crescer na prestação de serviço de qualidade, pois o objetivo nunca foi ganhar dinheiro, mas levar tecnologia para o produtor e melhorar a sua renda. 

E o que a Coopavel tem do Dilvo?
Acredito que através das muitas viagens que fiz, conhecendo outras culturas, consegui avançar em alguns pontos aqui. A Coopavel aprendeu com as culturas do mundo. O americano, por exemplo, é um povo dedicado ao trabalho e a ganhar dinheiro, da manhã à noite. O europeu olha mais para a tradição e o japonês é mais espiritualizado. Esses aprendizados refletem no dia a dia como administrador da cooperativa. 

Pode-se dizer que o Show Rural é o programa social da Coopavel?
Exatamente. E quando pensamos no social, primeiro vem a produtividade. Para se ter uma ideia, desde a primeira edição do Show Rural, a soja cresceu mais de 200% em produtividade, e o milho, mais de 300%. Tudo isso é resultado de pesquisa e se não tivesse uma cooperativa patrocinadora do evento teríamos desistido. Investimos muito para ter um evento de nível internacional.

Como crescer sem se afastar destes valores? 
É um desafio muito grande que demanda coragem e decisões fortes. Por exemplo, em algumas edições do Show Rural convidamos muitas crianças. Depois começamos a ver que a quantidade de crianças era maior do que os produtores, e isso estava dificultando para eles acessarem a tecnologia. Tivemos que buscar um equilíbrio. 

O sexto princípio do cooperativismo é a intercooperação. Na prática isso ocorre? 
Veja bem, todas as cooperativas cresceram e são empresas fortes. Isso é muito bom e também dá suporte ao produtor rural. Um dos desafios ainda é a intercooperação. Se você for num grande supermercado hoje, você vai ver quatro ou cinco caminhões para descarregar a carne de frango, por exemplo. E carne de frango é muito igual. Olha o desperdício de energia por não ter uma integração e uma logística melhor. O desafio é a intercooperação, e não está sendo exercida porque nós crescemos bastante e nos esquecemos um pouquinho da humildade.  Para se chegar a isso tem que ter uma nova visão de liderança compartilhada e governança, porque se todos nós produzimos uma commodity igual, nós teríamos que ter uma distribuição pra melhorar a nossa capacidade logística e nossa rentabilidade, protegendo o produtor rural. 

Como a Coopavel está trabalhando a sucessão? 
O trabalho de sucessão é incorporado aos jovens nas diretorias dos conselhos. Eles são treinados e o conhecimento técnico desta nova geração é aproveitado dentro do trabalho já existente. A gente tem que ter consciência de uma coisa: as empresas não quebram somente por erros estratégicos, quebram por falta de inovação, dinamismo e trabalho de oportunidade. Não basta trazer algo novo para dentro da empresa. Tem que entender que existe uma cultura e esta nova cultura tem que ser incorporada nesta cultura já existente, para depois criar uma nova cultura. E assim por diante. Não podemos dispensar o passado. O passado pertence à história. Assim, a juventude precisa entender a cultura da empresa, ter paciência e respeitar os estágios existentes.

Hoje, o cooperativismo está arraigado, mas quando começou quais foram os desafios?
Quando a Coopavel foi constituída em 1970, sua missão, bem como seu grande desafio inicial, foi organizar os produtores rurais para atender suas demandas, fornecimento de insumos, assistência técnica e armazenagem. Feito isso, ela passou para um segundo estágio em 1980, quando começou a valorizar os grãos (soja, milho e trigo). Depois começou a agregar valor a estes produtos para ter um crescimento sustentável como cooperativa e empresa. Disso, surgiram algumas oportunidades para o produtor como suinocultura, avicultura e produção de leite. Temos que seguir este caminho, não só crescendo nestas áreas, mas trazer novas áreas. Não podemos ter uma empresa deste tamanho, faturando R$ 2,5 bilhões/ano, centralizada em dois ou três produtos. 

Como inserir o pequeno produtor no mercado competitivo?
Levando tecnologia para o pequeno produtor. Cooperativa não pode ser uma empresa 100% frango, 100% leite, 100% suínos, 100% milho, 100% soja, 100% leite. Tem que diversificar. Esta diversificação vai dar para a empresa uma sustentabilidade econômica, pois um fator climático pode derrubar uma empresa e pode derrubar o produtor também, mas, se os dois estão em sintonia, há mais segurança. Temos que ser competitivos no mercado global, não apenas regional. 

Quais os desafios e estratégias frente à velocidade do mundo moderno?
Nós temos que trazer o jovem para dentro da cooperativa numa proposta diferente dos seus pais. Eles vieram para o cooperativismo por necessidade. Os jovens querem vir para o cooperativismo mediante uma proposta de sustentabilidade. As necessidades são outras e são supridas com mais facilidade. A vida oferece mais facilidades hoje. Os agricultores antigamente saíam de casa para vir nas cooperativas ou nos bancos. A cooperativa era o ponto de encontro, assim como as igrejas. Como se trabalha isso na prática? Ainda não temos resposta. O cooperativismo não encontrou a fórmula ideal ainda.

Na sua visão, como a Região Oeste avalia a Coopavel?
Vê como uma empresa que tem força na economia, força social na geração de empregos e tributos. Assim, cada vez mais precisa ser melhor administrada, estar mais presente e perto do associado. Não pode ser uma empresa urbana somente. 

Olhando toda a história, o que lhe emociona mais?
Me emociono quando chego no sítio de um produtor e vejo que ele tem uma casa boa, com conforto, jardim florido, um carro bom na garagem, o filho na faculdade e possibilidade de realizar pequenos sonhos, como uma viagem de fim de ano. Receber convite de formatura de um filho de associado sempre é emocionante. Digo isso porque uma multinacional não está interessada no filho dele, mas na sua produtividade, e a cooperativa não. Ela se interessa pelas pessoas.

Como analisa a participação das mulheres no cooperativismo?
Existe uma grande observação a ser feita: na família, o peso da mãe é maior que o peso do pai. Se a mãe fala para os filhos: “Vai estudar, saia daqui, você não precisa sofrer tanto quanto o seu pai sofreu”, ele vai ouvi-la e vai sair. Mas se a mãe mostrar que é possível estudar e também mostrar as belezas da agricultura, as novas formas de produzir sem tanto sofrimento, com mais tecnologia, o filho vai igualmente ouvi-la. Nesta ótica, estamos incentivando que as mulheres venham conhecer as tecnologias. Assim, elas levam outro olhar para suas casas e famílias.

O que Cascavel tem a ensinar para o mundo?  
Primeiro, nós temos que conquistar o mundo. E como? Aproveitando nossas potencialidades agrícola, pecuária e turística. Aqui nós produzimos respeitando o meio ambiente, mas precisamos mostrar isso. Nós temos que vender melhor a nossa imagem. 

O que lhe preocupa hoje? 
O peso da responsabilidade do cargo. Eu não estou sozinho na caminhada e não posso errar. São 5,5 mil funcionários e 5,3 mil associados. 

Por fim, o que lhe motiva a levantar todas as manhãs?
Estou na Coopavel há 34 anos. Meu trabalho ainda não terminou. Tem um caminho pela frente. Quero consolidar a Coopavel ainda mais e criar novas oportunidades para os produtores, trazendo novos produtos para o produtor e para a Coopavel. É isso que me motiva.
 

COOPAVEL EM NÚMEROS
5,5 mil associados
Faturamento de R$ 2,5 bilhões
5,3 mil funcionários
 

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