Matérias

Edição 135
ENTREVISTA – SABRINA CONDE

O silêncio do Haiti

Texto Rejane Martins Pires
Foto(s) Arquivo Pessoal

Publicado em 16/12/2019

 

Mesmo antes de receber o convite da Central Sicredi para levar a formação do “Programa União Faz a Vida (PUFV)” aos professores do Haiti, numa iniciativa da Sicredi Centro Oeste Paulista, com o apoio da Fundação Sicredi, a consultora pedagógica da Sicredi Vanguarda e coordenadora da escola Harbor Bilingual School, Sabrina Conde, já estava envolvida num projeto voluntário em Toledo, onde mora. Juntamente com o esposo Sandro, o filho João Lucas e a amiga Cyntia Sorgatto Bueno, ensina  língua portuguesa para um grupo de imigrantes. Nesta entrevista, ela fala sobre a preparação para a viagem, os desafios diários, os aprendizados, a saudade, e a dor e o abandono do povo haitiano que, mesmo em momentos de profunda crise, prefere rir e cantar. O projeto, realizado na Instituição Sacré Coeur de Jésus (Sagrado Coração de Jesus), envolveu outros quatro voluntários: Alyne Moreira Lemes, Beto Frost, Carla Pina e Marcello Simon.
 
Por que ajudar o Haiti?
Uma palavra que o haitiano conhece e vive muito é a palavra “falta”. Faltam muitas coisas, mas dentre tantas, o que eles mais valorizam  é a educação, por isso acreditam que a educação pode transformar a realidade. Movido por este propósito, o Sicredi iniciou esse auxílio através da formação de professores com a metodologia de projetos que tem como protagonista principal a criança. Lá, 80% da alimentação vem de outros países, 2% da população é “rica”.  
 
Como ajudar o Haiti? Qual a melhor forma?
Difícil essa pergunta, pois temos aqui no Brasil algumas regiões que se assemelham no quesito “falta” como o Haiti. Mesmo assim, penso que precisamos sim, ajudar, através de ações solidárias, porque sem comida, sem o básico, como dar possibilidade de aprender algo novo? Se dermos o nosso melhor, abrimos muitos caminhos.
 
O que podemos aprender com o Haiti?
Há tantas coisas, mas como professora, sabemos que toda a aprendizagem é um processo e neste processo o tempo se faz necessário. Podemos aprender a não reclamar tanto, a sorrir, a valorizarmos nossas raízes, a não desistir. Cada um aprende a seu modo e no seu tempo. Porém,  se enxergar em outros olhos é transformador. Nestes 15 dias eu só queria estar ali. Quantas vezes estamos nos lugares e não nos sentimos pertencentes? Ali, por mais que a cultura, a crença e tantas outras coisas sejam diferentes, não senti isso. Senti unidade, igualdade. O Haiti valoriza a educação, acredita que a escola é o único espaço saudável que as famílias podem oferecer aos seus filhos. Isso fica claro na forma como as crianças chegam à escola: sapatos limpos, roupas impecáveis, meninas com laços vermelhos para as mais pequenas e branco para as maiores.
 
Eles se sentem abandonados pela França, país que os colonizou?
O sentimento muito claro é que o Haiti foi abandonado pelo mundo, não somente a França. A colonização foi francesa tanto que a língua continua. Notícias do Haiti são raras, muito raras. Quantas pessoas vivem lá? Em que continente fica? Poucos sabem do Haiti. O Haiti está no silêncio.
 
Como eles vêem os brasileiros?
Eles têm muita gratidão pelos brasileiros, pois após o terremoto, o Exército Brasileiro deixou muitos ensinamentos. Percebemos esta gratidão em suas rotinas diárias. Receberam muita ajuda humanitária também.
 
Em algum momento, se sentiu insegura?
Insegura, não. O medo não fez parte dos meus dias. Vivenciamos a crise, a falta de trabalho e a miséria, mas não tivemos medo. Só alguns momentos de maior cuidado. Mas não sofremos dano algum. O povo haitiano tem uma forma diferente em lidar com situações de crise. Não ficam falando sobre o problema. Eles preferem cantar e sorrir. Não vi haitianos chorando.

Como foi a receptividade de vocês?
O Haiti recebe a todos, homens e mulheres que deixaram suas concepções para lutarem por um bem em comum: dignidade. Os  recursos? São escassos, a identidade precisa ser fortalecida para que eles externalizem seus sonhos. Sim, eles ainda demonstram atitudes que lembram a escravidão. Sim, eles não conseguem sonhar, planejar. Mas há uma força que os move. A força desse povo para sobreviver me ensinou que através de ‘laços fortes e sapatos prontos’, os recursos estão em nossa essência. Não é sobre saber mais ou menos, é sobre unir saberes. Assim, aprendemos juntos, ensinamos juntos e realizamos juntos.
 
E o engajamento no PUFV?
Os professores estavam muito ansiosos, porém são mais tímidos, passivos até. No primeiro dia de formação, poucos comentários e participação. Aos poucos, foram criando um vínculo maior e não demorou para o entusiasmo prevalecer nas dinâmicas. Nos dias de formação, vivemos de forma intensa os princípios de cooperação e cidadania. O “Programa União Faz a Vida” transpôs muros, mares, países e levou aos professores da Escola Sagrado Coração de Jesus a metodologia de  projeto. Com isso, deixou várias sementes plantadas. As vivências entre o ensinar e o aprender nos movem, nos tiram de nossa zona de conforto. A metodologia nos oportuniza o pertencer, nos possibilita crescimento de dentro pra fora. Nossos princípios: cooperação e cidadania sendo falados em outra língua. Isso nos motiva a acreditarmos cada vez mais em nossos propósitos e sabermos o quanto cada ser humano tem a sua missão. Seja aqui ou acolá. 
 
Também foi criado um movimento de mulheres, certo?
Sim, foi criado o Comitê Mulher de Pour-Au Prince, iniciativa realizada em parceria com a Central Sicredi PR/SP/RJ, com apoio da Sicredi Centro Oeste Paulista e da Conde Consultoria, para trabalhar o desenvolvimento da liderança feminina através do modelo cooperativo atendendo aos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS) da Agenda 2030 da ONU. Pela proposta aprovada, com a ajuda financeira externa, elas vão vender produtos alimentícios. Parte do lucro ficará com cada integrante e parte para um fundo de reserva, com o objetivo de fomentar cursos e formações.
 
Para você, o que é o Haiti?
Haiti é um sol para cada um. Um encontro com nosso olhar sobre o mundo, “olhar por outra janela”, se ver no olhar do outro. Nos espaços de aprendizagem oportunizados ali,  a cultura difere, a língua difere, mas o desejo de aprender, mesmo cada um tendo o seu “sol”,  é o que nos iguala, nos transforma em unidade. Embora eles não falem sobre seus sonhos, querem  um mundo melhor. Transformação esta que virá pela educação.
Quero sempre que possível trazer à memória as cores, os aromas e sabores desse país. Os sorrisos, os abraços, o que aprendi sobre força, ciclos, a fé. Compartilhei junto aos meus quatro amigos voluntários grandes histórias reais com dados da alma. Histórias que fazem parte da minha vida. Au revoir! Merci, Haiti!
 
Como era a rotina?
Apesar dos problemas políticos em Porto Príncipe, conseguimos cumprir a missão com zelo. Fomos muito bem recebidos pelas irmãs Clerianas, em especial a irmã Zelinda, e ficamos alojados na casa delas. Pela questão política, não conseguimos ter acesso a outros locais  e visitamos apenas o orfanato e um espaço de plantio, além da escola. Tínhamos um cronograma a cumprir. Disciplina foi fundamental. Eram três refeições por dia, café almoço e jantar, intercalados com lanche. Tudo preparado com muito, mas muito, carinho por todas as irmãs. Cada dia uma era a responsável e todos ajudavam na organização da casa. Vivemos, de fato, os princípios de cooperação e cidadania, princípios que norteiam o “Programa União Faz a Vida”. A casa onde estávamos foi construída pelo Exército Brasileiro. Uma casa cheia de flores, dentro e fora, mas com muros altos nos separando. Ali, não sentíamos que estávamos no Haiti, pois tudo era do jeitinho brasileiro.
 
Como foi a preparação para a viagem?
Intensa e contra o relógio. Desde o convite até a missão foram praticamente três meses para se organizar. Três meses parece  muito tempo. Mas isso depende, pois desde o visto até às sete vacinas que precisaram ser intercaladas entre 1ª dose e 2ª dose, o tempo precisou ser muito bem planejado. O planner foi levado ao pé da letra. Além do preparo para a viagem, tinha a questão da família e a organização  de outras funções que ocupo.
 
Sem apoio da família, impossível...
Sim. O apoio é essencial. Após ter recebido o convite, o primeiro telefonema foi para meu esposo, que nem esperava eu terminar de falar e completava: “Parabéns! Parabéns!”. Depois, em uma conversa bem especial com meu filho - afinal esse seria o momento que eu ficaria mais tempo longe de casa - , ele me abraçou e disse: “Mãe, eu estou feliz por você, mas vou sentir saudade!”. Perto da partida ele dava sinais que iria sentir muita saudade. Aproveitamos esses momentos para falar sobre muitas coisas, inclusive o sentimento de saudade. O Haiti não estava em meus sonhos, mas foi uma das mais belas surpresas que a vida me concedeu. Nestes 15 dias lá foi minha mãe, Lindamir, que cuidou daqueles que amo. Ela sempre me incentivou e inspirou.
 

REFLEXÕES

“Nestes 23 anos dedicados à educação,  eu aprendi muito, muito mesmo. E quero aprender mais. Foram essas vivências e experiências que me levaram ao meu propósito, que é desenvolver pessoas. Acredito que é através da educação, nesse caminho do aprender e ensinar, que oportunizamos crescimento. Entre tantos momentos marcantes, o que me levou a lágrimas discretas - pois chorar na frente deles não me era justo - , foi saber que algumas crianças eram marcadas no corpo com saquinhos de plástico derretidos quando cometiam um “erro”. O erro, na cultura deles, como explicou a irmã Zelinda, “precisa deixar marcas”.
Isso me levou a muitas reflexões e o principal, não julgar a cultura de um povo. Talvez seja a forma como foram ensinados. A escravidão deixou consequências. Também  me emocionei com a postura da Madame Ester, uma professora da educação infantil que vibrava com cada movimento de aprendizagem daquelas crianças. “Ela tem um brilho no olhar” foi a frase que mais escutei sobre Madame Ester. Uma professora que faz muito sem nada, pois o seu principal recurso está em sua essência. Aprendeu a amar o que faz. Não nascemos amando, mas aprendemos a amar.
Outro momento foi conhecer uma unidade bem ao lado da escola que é cuidada pelos freis, onde está escrito no alto de uma parede: Zilda Arns. Ali eu entendi o que é deixar um legado, um verdadeiro líder ensina pelo exemplo. Ela não está mais em nosso meio, mas ali tudo funciona como tem que funcionar e as pessoas fazem com amor”.
Sabrina Conde
 
 
Madame Ester e seus alunos de laços fortes e sapatos brilhosos prontos para mais um dia de sol
 
Emoção na visita ao orfanato: crianças oram espontaneamente diante do prato de pipoca oferecido pelas voluntárias

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