Matérias

Edição 135
ARTE

Feito com Bic!

Texto Rejane Martins Pires

Publicado em 17/12/2019


Daniel Carlos Bispo tem 34 anos. Em grande parte de sua vida trabalhou como pedreiro na capital paulista. O desenho era um refúgio. Aos poucos, tornou-se sua profissão, sua forma de comunicar-se com o mundo!

Em 2006, o servente de pedreiro Daniel Carlos Bispo estendeu um saco de cimento no chão de uma obra na cidade de São Roque, em São Paulo, e rabiscou, com carvão, uma árvore. O desenho chamou a atenção de um empresário que o comprou por R$ 20. “Olhe bem, rapaz, se um dia você ficar famoso não vai querer esta obra de volta!”, disse o homem e, num rompante, sumiu.

Daniel continuou seu trabalho, cavando buraco, assentando tijolo, carregando vigas, fazendo lajes, pintando paredes. As mãos grossas e calejadas não permitiam grandes sonhos. A vida na capital paulista tinha lá seus significados, mas as origens estavam no Paraná. 

Em 2016, após viver praticamente toda a vida na metrópole, Daniel regressou acompanhando o pai para rever um irmão distante há mais de 50 anos. Em Cascavel, após mostrar seu trabalho à artista plástica Ana Paula Silva, foi orientado a seguir seu talento. Os retratos, feitos a lápis e com caneta Bic, impressionaram a artista pela expressão poética e profundidade. Tudo fruto de um autodidatismo libertário. 

Até conseguiu emprego numa agência de publicidade aqui, mas com o retorno da família a São Paulo, largou tudo para voltar à vida de operário. Lá, viu-se dentro de um labirinto, deprimiu-se, olhou à sua volta, observou atentamente seus desenhos, sentiu a aspereza nas mãos e calou-se.  Era preciso tentar mais uma vez. Em dezembro de 2017 estava novamente procurando emprego em Cascavel. 

Fazendo “bico” como pedreiro e vivendo num almoxarifado, continuou sua labuta, bem longe de papéis e canetas. Um ano depois, foi surpreendido com um pedido da Copacol. Contratado para retratar os 55 fundadores, viu-se diante de sua primeira grande encomenda. “Estava pintando um muro e quase caí da escada. Já tinha até desistido do desenho”, lembra. 

FIRMEZA NOS TRAÇOS
Como destino é algo inexplicável, um segredo em si mesmo, nem precisa dizer que Daniel cumpriu o combinado com a cooperativa e, a partir dali, voltou a trabalhar na agência como ilustrador e retratista. Agora, dedica-se também aos processos digitais e a outros projetos, como ilustrador de livros. Se o trabalho como pedreiro ajuda em suas criações, sim é a resposta. Os braços fortes garantem a firmeza dos traços. 

SIM, É CANETA BIC!
Ao escolher a caneta esferográfica (Bic) como ferramenta de trabalho, Daniel sempre soube dos riscos de errar. Um traço errado condena o trabalho. “Não tem como apagar”, explica. Ao longo dos anos, desenvolveu uma técnica apurada. O resultado é um hiper-realismo mágico. “Com o tempo fui aprendendo a entender a caneta. Com mais tinta tem um resultado. Com menos tinta, tem outro. Começo o desenho sempre pelos pontos mais escuros”, explica. 

Sem professor, buscou referenciais na internet e descobriu o “mago da Bic”, Juan Francisco Casas, da Espanha. Começou a se corresponder com outros artistas espanhóis, que lhe ensinaram mais sobre a posição das mãos, temperatura e pequenos detalhes. “Ainda tenho muito a desenvolver, principalmente agora na era do desenho digital. Tudo está por vir”, conclui.


* Raquel Schandeski de Souza é acadêmica
de 
Jornalismo da Univel e participou como
estagiária na produção deste material.


 

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1 COMENTÁRIO(S)

Tive o grande prazeres conhecer este artista de muito talento e um artista de muita naturalidade , isto me encanta !!!!
comentado por Cleide Andrade em 30/12/2019
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